‘Torre de babel’: ocupação de sem-teto no centro de SP tem 60% de estrangeiros

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo |

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Conhecido como ocupação Sé, Edifício Nazareth foi invadido no final de janeiro e tem 51 famílias, que totalizam 170 pessoas

Angolanos, peruanos, bolivianos, guineenses e nigerianos formam a maior parte dos moradores do edifício Nazareth, localizado no número 47 da Praça da Sé, no coração da capital paulista. Ocupado há cerca de cinco meses, o prédio - bem conservado, limpo e com as ligações de água e luz regularizadas - é uma verdadeira Torre de Babel, onde vivem 51 famílias (que totalizam 170 pessoas). Segundo os dirigentes do Movimento do Sem-teto de São Paulo (MSTS), responsável pela ocupação, 60% dos novos moradores são estrangeiros.

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“Eles chegam ao Brasil muitas vezes sem conhecer ninguém, não têm para onde ir e acabam indo para as ocupações”, diz a coordenadora do Nildalva Silva, 32 anos, conhecida como Dalva, para explicar a forte presença dos estrangeiros na ocupação.

Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo
Ana Mimi e a coordenadora Dalva conversam no hall de um dos andares

O prédio, que antes de ser ocupado pelo movimento abrigava conjuntos de escritórios, tem 11 andares - cada um com quatro a cinco salas transformadas em pequenos apartamentos e dois banheiros, que são divididos entre duas ou três famílias. O edifício tem ainda dois elevadores que levam os moradores até o 10º andar - para chegar ao último é preciso subir um lance de escada em caracol. Dalva diz que o elevador foi consertado pelos ocupantes.

Moradora do 11º, a angolana Maria Madalena, de 37 anos, vive com o marido e os três filhos - uma adolescente de 15 anos, um menino de 12 anos e uma menina de 8 anos - em um apartamento com um quarto, banheiro - apenas para o uso da família-, cozinha e varanda, de onde é possível ter uma vista privilegiada da Praça da Sé, com a catedral e o Palácio da Justiça ao fundo.

Maria chegou ao Brasil há dois anos e antes de viver no edifício Nazareth pagava aluguel de R$ 700 em uma casa de três cômodos em Guaianases, na zona leste da capital. Hoje, assim como todos os moradores, ela contribui com R$ 100 a R$ 200 revertidos para o pagamento das contas de consumo e manutenção do prédio, segundo o MSTS.

“A renda está muito cara. Vivia em uma casa, pagava luz, pagava água, internet. Tudo chega ao custo de R$ 1.000. Eu sou cabeleireira: um dia tem trabalho, outro dia não tem. Como fica? A gente tem tudo com muita dificuldade. Quando a gente escutou esse movimento, viemos juntos lutar. Conseguimos esse lugar. A gente está pagando um preço que, se hoje não consegue, amanhã, consegue”, diz Maria.

Fachada do edifício Nazareth, na praça da Sé. Foto: Divuçgação/MSTSA angolona Maria Madalena, 37 anos, mora no 11º andar e tem uma vista privilegiada da praça da Sé. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloO quarto da angolona Maria Madalena, 37 anos, não tem camas. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloVista do apartamento do 11º andar. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloA peruana Flora Pomasonco, de 37 anos, mora em três cômodos com o filho e os dois filhos. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloA peruana Flora Pomasonco, de 37 anos. Foto: Ana Flávia Oliveira/ iG São PauloFilhos de Ana Mimi brincam com um celular. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloOs gêmeos Roni e Rayan, de 2 anos. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloAna Mimi e a coordenadora Dalva conversam no hall de um dos andares. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloA coordenadora Nildalva da Silva, 32 anos, diz que o MSTS ocupou o prédio porque estava abandonado. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo

A angolana diz que chegou ao edifício sem nenhum móvel. “Não tinha dinheiro para trazer minhas coisas [pagar o carreto]. Vendi tudo e fui morar no Marrocos [Cine Marrocos, ocupação do mesmo grupo também na região central], com minha família e uma amiga que já morava lá. Quando o movimento liberou aqui, viemos para cá”, disse.

Na cozinha do apartamento, há uma pequena pia, uma geladeira e um fogão. Às visitas, Maria oferece cadeiras para sentar, que ela organiza na cozinha mesmo, já que o apartamento não tem sala. Como vendeu os móveis, sua casa também não tem camas, apenas um colchão de casal, colocado no único quarto, de piso frio branco. “Na hora de dormir, a gente coloca coberta no chão e se ajeita”, explica. Uma TV de tela plana de 32 polegadas em um rack de madeira e cobertores e edredons no canto do cômodo completam o cenário.

Como está desempregada, a maior parte dos dias de Maria é em casa, mas ela frequentemente visita as "irmãs", como chama as compatriotas, nos outros andares do prédio. Maria afirma gostar de viver no edifício Nazareth e diz que o maior medo dela e da família é a incerteza do futuro. “Estou escutando que a gente vai ter que sair daqui e eu não sei para onde vou”, diz.

Grande família

Ana Flávia Oliveira/iG São Paulo
Vista do apartamento do 11º andar

No 8º andar, vive a família do eletricista angolano João Manuel Brito, 49 anos. Ele e a mulher, a cabeleireira Ana Mimi Lokondo, 40 anos, têm cinco filhos, incluindo os gêmeos Roni e Rayan, de 2 anos. A filha mais velha, Alfredine, tem 10 anos e o casal ainda tem dois meninos - Cristo, de 9 anos, e Daniel, de 5 anos. Eles moram em três cômodos - uma tábua divide a sala e a cozinha, que tem apenas um fogão e uma mesa- e dividem o banheiro com uma família vizinha. No quarto, há duas camas de casal praticamente grudadas uma à outra e um beliche. Na sala, sentados em um sofá de dois lugares, as crianças dividem a atenção entre um único celular, no qual jogam Pou (jogo em que o participante tem de alimentar e cuidar do personagem) e uma televisão pequena.

Antes de mudar para o Nazareth, o casal alugava uma casa na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, por R$ 500.

“Estava pesado, porque eu não conseguia trabalhar por causa das crianças. Meu marido estava na África. A gente escutou que tinha essa ocupação, fizemos a inscrição e viemos para cá”, conta Ana Mimi.

As roupas, Mimi lava na pia do banheiro mesmo e estende em um varal portátil que deixa no hall, em frente ao elevador. “Posso deixar minhas coisas aqui que ninguém mexe. É tranquilo”, garante.

A tranquilidade a que Mimi se refere só é possível graças às regras que todos os moradores têm de seguir. “Se a gente pega alguém roubando ou usando drogas, expulsa. Marido que bate na mulher também não pode ficar. A gente pergunta para a mulher se ela quer ficar ou acompanhar o marido. Ela escolhe”, diz a coordenadora Dalva.

Conexão Brasil-Peru

Dois andares abaixo, mora a família da peruana Flora Pomasonco, 37 anos. Vivendo há 12 anos no Brasil, ela deixou a região do Bom Retiro (centro) há quase quatro meses para ir à ocupação Nazareth.

Empregada doméstica desempregada, Flora diz que não estava conseguindo mais pagar o aluguel de R$ 700 em um cômodo, que dividia com os filhos, o marido e o irmão. Antes de conseguir a nova moradia, teve de mandar os dois filhos mais velhos para morar com a avó materna, no Peru.

“Eu cheguei aqui por meio de umas colegas, que sabiam que eu sofria muito para pagar o aluguel. Tenho quatro filhos e dois foram para lá porque eu não tinha condições de pagar aluguel. Fiquei com dois filhos aqui. Morar aqui está ajudando muito porque a gente pagava muito. E ainda era apertado”. Ela e o marido, que é costureiro e ganha um salário mínimo (R$ 724), ainda mandam dinheiro para a família em seu país.

Assim como os outros moradores, Flora ocupa um apartamento de três cômodos. Além de cozinhar, ela utiliza a cozinha para pendurar as roupas. Na sala, sem sofá ou televisão, apenas uma pequena mesa e brinquedos cor-de-rosa espalhados pelo chão, que indicam a presença de uma menina.

“Meu maior medo é sair daqui. Tenho uma menina de cinco anos, que acha que isso é dela. O outro, que é adolescente, entende. Mas ela não”.

Alguns andares abaixo, dois guineenses, que não falam muito bem o português, substituíam um lençol por uma porta de madeira na entrada de um apartamento. O banheiro ao lado do cômodo estava em reforma, sem louças e com as paredes cobertas por cimento fresco. A coordenadora questionava se já tinham feito o recadastramento. “Sim, sim”, responderam. São os novos moradores do local. 

A reportagem do iG esteve no prédio na última quinta-feira (29) e, além do porteiro e dos personagens citados no texto, encontrou poucas pessoas no edifício.

Edifício alugado

O maior medo dos moradores ter de deixar o edifício. Para evitar a reintegração de posse, eles fizeram um protesto na última terça-feira (27), nas ruas da região central. Os advogados do movimento conseguiram dos representantes do dono do imóvel um prazo até o próximo dia 8 para deixar o local. A direção do MSTS garante que não deixará ninguém sem moradia. “A gente aloca eles em outras ocupações, mas para a rua ninguém vai”, diz Dalva, responsável por outros seis prédios ocupados no centro de São Paulo. 

“Não temos a ilusão de que um prédio desses no centro seja destinado à moradia popular, mas ocupamos para chamar a atenção do poder público para essa questão”, completa ela, que garante só ter ocupado o prédio porque ele estava abandonado. "Se não tem ninguém é ocupação. Se tiver alguém é invasão. Não somos invasores", diz ela. 

O abandono do prédio é questionado pelo representante do dono do imóvel, Evaldo de Albuquerque Lima, prior da Ordem 3ª do Carmo, uma associação religiosa de devotos da Nossa Senhora do Carmo, sem ligação com Arquidiocese de São Paulo.

“O prédio tinha escritórios e 70% das salas estavam alugadas, mas há dois anos pedimos os conjuntos para adequar o edifício às normas do Corpo de Bombeiros. Essa reforma incluiu manutenção dos elevadores, pinturas, instalações de porta corta-chamas e era impossível fazer tudo isso com o prédio alugado”, explica Lima. “Os elevadores estavam funcionando perfeitamente. Você acha que um prédio abandonado estaria naquelas condições?”, indaga.

Ainda de acordo com o prior, após o término da reforma um zelador foi mantido no prédio para evitar invasões. “Ele morreu no começo do ano e a esposa dele continuou no edifício até o final do mês. Quando ela saiu, o prédio foi invadido.”

Lima afirma que já tinha até mesmo um futuro locador para o prédio: “Ia entrar uma empresa que ia alugar tudo. Mas desistiram porque viram que o processo de reintegração ia demorar. O dinheiro do aluguel é a renda da ordem e vai para as despesas e pagamento de funcionários.”

Ocupações no centro

O Edifício Nazareth é uma das sete ocupações que o movimento mantém no centro de São Paulo. Ao todo, elas têm 810 famílias (cerca de 2.720 pessoas). A maior delas, a do Cine Marrocos, na rua Conselheiro Crispiniano, possui 357 famílias (1.500 pessoas). Ocupado desde novembro do ano passado, o prédio pertence à prefeitura de São Paulo e deveria receber a sede da secretaria da Educação.

Segundo a prefeitura, além das ocupações promovidas pelo MSTS, o centro da cidade tem outros 33 prédios invadidos. “A Secretaria Municipal de Habitação trabalha para desapropriar o maior número possível de prédios na região central”, informou em nota.

A pasta informou ainda que não tem obrigação legal de atender famílias que saiam de imóveis reintegrados, mas, “quando notificada, atua através do atendimento emergencial”, que inclui encaminhando aos centros de acolhida.

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