‘Absurdo dizer que somos bandidos’, dizem motoristas que pararam SP nesta semana

Por Natália Peixoto - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Movimento, que não teve apoio do sindicato da categoria, parou a capital por 2 dias e tenta negociar saída para impasse

Enquanto Fernando Haddad falava a jornalistas que a paralisação de ônibus foi uma “ação que não condiz com uma prática democrática", o motorista Paulo Martins, o Maloca, esperava a reunião com o prefeito, como combinado na noite anterior (21). Maloca estava junto a dezenas de motoristas da viação Gato Preto, onde trabalha há 23 anos, que pararam na terça-feira (20). A viação foi uma das duas únicas que não obedeceu de imediato a liminar da Justiça do Trabalho exigindo que 75% das frotas circulassem – a outra, a viação Santa Brígida. Mas Haddad não recebeu ninguém e disse que espera decisão da Justiça do Trabalho sobre a legalidade do movimento. “Chamar de antidemocrático é um desacato do prefeito com os trabalhadores”, disse Maloca.

Fim da greve: Audiência termina sem acordo, mas ônibus continuam nas ruas em SP

Região metropolitana: Greve de motoristas e cobradores afeta dez cidades da Grande SP

Protesto de motoristas e cobradores da Viação Santa Brígida, em São Paulo, nesta quinta-feira (22). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressTerminal da Barra Funda vazio, em São Paulo, nesta quarta-feira (21), após a paralisação de motoristas e cobradores. Foto: Alice Vergueiro/Futura PressEm coletiva, o secretario municipal dos Transportes, Jilmar Tatto, defende uma investigação policial dentro do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus. Foto:  Taba Benedicto/Futura PressÔnibus não saem da garagem da viação Santa Brígida, na zona oeste, nesta quarta-feira. Foto: Alex Falcão/Futura PressMotoristas e cobradores realizam protesto e fecham a garagem da viação de ônibus Sambaíba, em São Paulo, SP, na madrugada desta quarta-feira (21). Foto: Edison Temoteo/Futura PressMotoristas e cobradores de ônibus fazem paralisação e fecham Terminal Sacomã, em São Paulo. Foto: Renato Mendes/Futura PressMotoristas e cobradores de ônibus fazem paralisação e fecham Terminal Bandeiras, em São Paulo  . Foto: Renato S.Cerqueira/Futura PressEstação da Sé fica lotada por causa das paralisações dos terminais de ônibus nesta terça-feira (20), em São Paulo. Foto: Futura PressMotoristas e cobradores de ônibus fazem paralisação e fecham Terminal Sacomã, zona sul de São Paulo (SP), nesta terça-feira (20). Foto: Futura PressGreve provocou fila de ônibus nas ruas de São Paulo. Foto: Alexandre Serpa/Futura PressMotoristas e cobradores de ônibus se reúnem para reivindicar reajuste salarial e causam trânsito na região da Prefeitura de São Paulo, nesta terça-feira (20). Foto: Futura PressMotoristas e cobradores fecham terminal Santana, na zona norte da cidade, nesta terça-feira (20). Foto: Futura PressFuncionários fazem paralisação e fecham Terminal Parque Dom Pedro, em São Paulo (SP), nesta terça-feira (20). Foto: Futura PressFila de ônibus causa lentidão no trânsito da Avenida Eusébio Matoso em São Paulo (SP), nesta terça-feira (20). Foto: Futura PressMotoristas e cobradores de ônibus fazem paralisação e fecham Terminal Bandeiras, na República, em São Paulo. Foto: Futura PressMotoristas e cobradores de ônibus fazem paralisação no Terminal da Lapa, na Zona Oeste de São Paulo (SP), na manhã desta terça-feira (20). Foto: André Lucas Almeida/Futura Press

O motorista é um dois oito trabalhadores escolhidos nas garagens para representar os colegas que paralisaram os trabalhos durante dois dias seguidos. Eles pararam por não concordar com o acordo firmado na última segunda-feira (19), entre o sindicato dos patrões, o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss), com o Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas), que representa motoristas e cobradores. Os grevistas dizem que não foram avisados que o ato que aprovou o reajuste de 10% para a categoria seria uma assembleia para tratar do aumento, e se dizem prejudicados pelo acordo.

Os motoristas de ônibus da capital ganham R$ 1.800 por mês, com jornadas de cerca de 10 horas diárias, com meia hora de almoço, seis dias por semana. O vale-refeição é de R$ 15 e Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de R$ 800, pagos em agosto de 2013. Quem parou reclama da falta de disposição do Sindmotoristas em buscar o acordo fechado com a categoria, 13% de aumento no salário, aumento do vale-refeição para R$ 21 e PLR de R$ 1.500. Na segunda-feira (19), o acordo votado foi de 10% de aumento, vale-refeição de R$ 16 e PLR de R$ 850. “Tem empresa com lucro mais de R$ 30 milhões e querem dar R$ 50 a mais? Não dá”, diz Valdemir Ferreira Soares, motorista há 28 anos, 10 de viação Sambaíba, desde quando ela foi fundada.

Na quarta-feira (21), 90% dos ônibus ficaram nas garagens, segundo o SPUrbanuss, muitos impedidos de circularem pelos grevistas. Há relatos de que homens armados impediam os carros de continuarem os itinerários, de correias cortadas e chaves jogadas fora. "Tudo mentira", dizem os motoristas da Gato Preto. Luiz Pereira Lima, quatro anos de Sambaíba, se indigna com os boatos e com o tratamento dado pela prefeitura. “O prefeito tá afirmando que mais de 60% dos trabalhadores são bandidos e vândalos. Absurdo.”

Quinta-feira: Última empresa de ônibus que ainda estava parada volta a circular

Quarta-feira: Pelo segundo dia, motoristas fazem paralisação e fecham terminais em SP

Terça-feira: Motoristas e cobradores protestam e fecham terminais de ônibus de São Paulo

Soares e Lima também foram escolhidos pelos colegas para serem um dos oito motoristas grevistas que negociariam com o Sindmotoristas. O grupo, com dois motoristas da Gato Preto, um da Santa Brígida e quatro da Sambaíba, sentou com José Valdevan de Jesus Santos, o Noventa, presidente do sindicato, para buscar um acordo para pôr fim à greve. A comissão foi uma alternativa encontrada junto ao mediador da greve, o superintendente regional do trabalho e emprego em São Paulo, Luiz Antônio de Medeiros Neto. Medeiros, ex-sindicalista, diz que tem notado que várias categorias não estão se sentindo representadas pelos sindicatos, que está “em atraso com os movimentos sociais”. “Não adianta tapar o sol com a peneira. Esse movimento não é briga de diretoria, esse movimento é profundo. Eu nunca vi radicalização de massa quanto eu vi ontem”, disse Medeiros.

Entre os trabalhadores, não há clima de hostilidade contra Noventa, que ganhou a eleição do Sindmotoristas no ano passado, após uma conturbada disputa. No dia que deveria acontecer a eleição, uma confusão sobre a distribuição das urnas terminou em um tiroteio que deixou três pessoas baleadas. Noventa ganhou com mais de 3 mil votos de Isao Hosogi, o Jorginho. Filiado ao PDT, ele concorreu contra o ex-presidente após deixar a diretoria de finanças da chapa. Em 2011, ele foi alvo de uma investigação da Polícia Civil, suspeito de usar uma cooperativa de vans e ônibus de transporte público para lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Após a reunião com Medeiros na manhã desta quinta (22), Noventa deu R$ 400 para bancar o almoço dos cerca de 40 grevistas que ainda esperavam uma definição sobre a continuidade da paralisação, na expectativa de um julgamento sobre a legalidade da ação. Entre os trabalhadores parados, apoiadores de Noventa e de Jorginho se misturavam. Maloca apoiou Jorginho, mas Edmilson Santos, também da Gato Preto, fez campanha pró-Noventa. “Eu trabalhei para a eleição da chapa 2, mas não dá para ver os colegas reclamando com razão e não fazer nada”, disse.

Em frente ao Ministério do Trabalho em São Paulo, na rua Martins Fontes, no centro da capital, motoristas da Gato Preto se reuniram para decidir os próximos passos da movimentação, enquanto esperavam a audiência no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). Eles decidiam o que fazer, acompanhados por membros do Movimento Passe Livre (MPL), responsáveis pelas manifestações que pararam São Paulo há um ano, e conseguiram reverter o aumento de R$ 0,20 na tarifa. Os motoristas que já trabalhavam subiam em direção à avenida Paulista buzinando em apoio e perguntavam se era hora de parar de novo.

Na audiência do TRT, a desembargadora Rilma Hemetério disse que o dano aos usuários "é irreparável”, e que a legalidade da greve ainda será julgada pelo colegiado da corte em até um mês. O Ministério Público pede multa de R$ 500 mil de multa caso a greve volte. Rilma, entretanto, disse que não existe desentendimento entre o Sindmotoristas e o SPUrbanuss. “Não existe nenhuma controvérsia (entre os sindicatos) em relação à convenção coletiva já acordada. Então tudo o que foi celebrado, eles consideraram como sendo legítimo e consideraram como o que deve ser aplicado pelas partes.”

Leia tudo sobre: greve de ônibussão pauloigspmotoristas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas