Sem tratar 40% do esgoto, São Paulo tem piora na qualidade da água, diz Cetesb

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo |

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Índice de tratamento de 2013 subiu em relação a 2008, mas qualidade da água é a pior registrada no Estado desde 2011

São Paulo deixou de tratar 40% do esgoto produzido em todo o Estado no ano passado, segundo o relatório Qualidade das Águas Superficiais, produzido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Apesar de ainda baixo, o índice de tratamento (60%) subiu 15 pontos percentuais (ou 6,5%) em relação aos 55% dos esgotos “in natura” que eram despejados nos córregos, rios e mar em 2008. O índice de coleta no Estado chegou a 90% em 2013.

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Divulgação/Usina Hidrelétrica de Mauá
Água disponível para a distribuição registrou queda na qualidade em 2013 em São Paulo

Apesar disso, a melhora registrada no índice de tratamento de esgoto não refletiu na qualidade da água encontrada no Estado. Segundo o documento, o Índice da Qualidade de Água para Abastecimento (IAP) em 2013 foi o pior desde 2011. O IAP foi considerado ruim ou péssimo em 17% dos 72 pontos de medição verificados pela companhia, boa em 46% das amostras e regular em 35%. 

Segundo o documento, das 22 Unidades de Gerenciamento de Recursos Hidrícos (UGRHI) de São Paulo, a Mantiqueira, que inclui os municípios Campos do Jordão, Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí - onde a coleta atinge 49% da população e o tratamento chega a apenas 10% do recolhido -, e a unidade Baixada Santista, que recolhe 75% e trata 19% do esgoto, têm os mais baixos desempenhos de tratamento do Estado. As duas unidades atendem 59 mil e 1,8 milhão de habitantes, respectivamente.

A unidade de Aguapeí, que inclui municípios como Dracena e Tupã, tem o melhor desempenho do Estado, com coleta e tratamento de 98% do esgoto.

Para chegar aos índices, a Cetesb calcula o Índice de Coleta e Tratabilidade (ICTEM), que define notas de zero a dez para as unidades de gerenciamento e municípios, em relação à coleta e ao tratamento dos esgotos. O índice leva em consideração a remoção da carga orgânica, o tratamento e afastamento da população de rios e corrégos.

Entre as 645 cidades do Estado, os piores índices de tratamento e coleta ficaram com as cidades de Vargem Grande Paulista, que recebeu 0,36 no ICTEM, Itaóca (0,54) e Francisco Morato, na Grande São Paulo (0,57). Nenhuma delas tem coleta e tratamento de esgoto, o que as leva a jogar seus dejetos nos ribeirão Vargem Grande, rio Palmital e rio Juqueri, respectivamente.

Entre as melhores colocadas estão a cidade de Mococa, Batatais e Regente Feijó, que coletam e tratam 100% do esgoto produzido e tiveram nota 10 no ICTEM.

A cidade de São Paulo, que tem 11, 7 milhões de habitantes, recolhe 97% do esgoto produzido e trata 75% deste total. Os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, que cortam a capital, recebem o esgoto não tratado.

Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, diz que esse número ainda pode estar subnotificado. “Estima-se que são 3 milhões de pessoas morando em área irregular, bairros periféricos, beiras de represas, na capital. São áreas protegidas e a Sabesp (concessionária que atende a cidade) não tem o poder para entrar nessas áreas e fazer as ligações com esgoto. A gente pode ter o acúmulo de 100% de coleta e tratamento de esgoto, mas isso pode não ser um número real. O problema é maior que o apontado na estatísca”, diz.

O governo do Estado estima que o prazo para a universalização do tratamento de esgoto deve ocorrer em 2020.

Qualidade da água

Getty Images
Quada na qualidade está relacionada ao baixo índice de tratamento de esgoto e a falta de chuva

A falta do tratamento do esgoto pode ser apenas uma das causas para a queda de qualidade da água registrada nas concessionárias, responsáveis pelo abastecimento em todo Estado. Em um ano, se comparado com os números de 2012, as amostras consideradas ruim ou péssima passaram de 12% para 17%; as regulares foram de 26% para 35% e as boas saíram de 61% para 46%

O IAP é resultado da ponderação dos índices de qualidade de Águas (IQA) e do Índice de Substâncias Tóxicas e Organolépticas (Isto) - que dão sabor, cor e cheiro à água.

A falta de saneamento e a diminuição do índice de chuvas, que se acentuou no final do ano passado, são as principais causas para a queda na qualidade da água, explica Rodrigo Moruzzi, engenheiro civil e professor de Engenharia Ambiental da Unesp de Rio Claro.

"O IAP leva em consideração o IQA, que sofre interferência das vazões. Sem dúvida, que se há menos água para diluir os esgotos lançados, ela terá qualidade pior. Por isso, temos de tratar o nosso esgoto de uma maneira mais eficiente. Não adianta só contar com a chuva [para aumentar o nível dos reservatórios e ajudar a diluir as substâncias tóxicas]", diz.

Em nota enviada ao iG, a Cetesb informou que a qualidade da água pode ser ainda mais comprometida, caso a estiagem permaneça no Estado. "Se a falta de chuva persistir, poderá haver maior comprometimento devido à menor capacidade de diluição dos poluentes presentes na água. Menores volumes de água e temperatura da água mais elevada favorecem a proliferação de algas, especialmente em ambientes lênticos, sendo necessária atenção das operadoras nesse sentido."

Segundo apontou o relatório Cetesb, o ano de 2013 apresentou um volume anual de chuvas de 1.363 mm - 5% inferior à média de 1.440 mm dos 18 anos anteriores.

Ainda de acordo com a nota, a diminuição da qualidade da água foi detectada, entre outros fatores, pela presença aumentada de trihalometanos presentes na água bruta. “Na Estação de Tratamento de Água, os trihalometanos são compostos que podem ser formados na etapa de cloração. É importante ressaltar que durante as etapas anteriores à cloração, grande parte dos precursores são removidos, e portanto, não deve haver formação excessiva de trihalometanos. Os trihalometanos são compostos cancerígenos, portanto, prejudiciais à saúde humana."

A Cetesb informou ainda que acompanha a qualidade da água bruta captada pelas operadoras e distribuídas a aproximadamente 25 milhões de habitantes em pelo menos 70 municípios.

Brasil

Segundo levantamento feito pela ONG SOS Mata Atlântica, divulgado em março deste ano, 40% das amostras coletadas em 96 rios, corrégos e lagos, de sete Estados do País (177 pontos analisados no total), têm qualidade ruim ou péssima.

De acordo com os números, 87 pontos analisados (49%) tiveram a qualidade da água considerada regular, 62 (35%) foram classificados como ruins e 9 (5%) apresentaram situação péssima. Apenas 19 (11%) pontos de rios e mananciais mostraram boa qualidade. E nenhum dos pontos analisados foi avaliado como ótimo, diz o relatório.

Ainda de acordo com a SOS Mata Atlântica, os melhores resultados foram obtidos em áreas protegidas, como alguns pontos da Bacia do Alto Tietê na Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos e no Parque Várzeas do Tietê, em São Paulo. Em Minas, foi encontrada água com qualidade boa em Extrema, na APA Fernão Dias. E, no Espírito Santo, também foi observada água com qualidade boa no município de Santa Teresa.

O pior desempenho foi encontrado em pontos próximos a grandes adensamentos urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo.

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