São Paulo inicia retirada do volume morto do Sistema Cantareira

Por David Shalom , iG São Paulo | - Atualizada às

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Agência do Governo Federal alerta que é grande a possibilidade de haver déficit na distribuição de água no período de estiagem

Em meio à maior crise de sua história, o Sistema Cantareira inicia o processo para triplicar a quantidade de água disponível à população a partir desta quinta-feira (15), quando tem início a retirada do volume morto de suas represas. A previsão da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), responsável pela obra, é de que a água disponível sob o nível de captação das comportas de seus reservatórios seja suficiente para abastecer as quase dez milhões de pessoas dependentes do sistema até o final do ano. A empresa não informa como passará a divulgar a porcentagem disponível a partir do momento em que somar a quantidade de volume útil à do volume morto.

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A ação deve elevar para quase 30% a porcentagem de água disponível em todo o sistema, composto por seis represas - Jaguari, Jacareí, Atibainha, Cachoeira, Águas Claras e Paiva Castro. Atualmente, o nível do Cantareira é de 8,2%, mas, com o acréscimo de 18,5% do volume morto, concentrado no fundo das barragens, irá a 26,7%. O custo das obras é orçado em R$ 80 milhões.

Jaguari e Jacareí serão as primeiras a passar pelo processo de bombeamento da reserva, já que seu volume útil atual não passa de 2%, de acordo com o Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), que atua no incentivo à recuperação dos mananciais da região.

Confira fotos dos reservatórios de água do Sistema Cantareira:

Sistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

Considerada imprescindível pelo governo para manter o abastecimento na Grande São Paulo neste ano, a medida emergencial é vista com ressalvas por especialistas ouvidos pelo iG. Professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Dr. Walter Collischon afirma que o volume morto, nunca antes utilizado na história do sistema, inaugurado em 1973, pode apresentar qualidade de água inferior ao do chamado volume útil, exigindo maior cuidado em seu tratamento. Além disso, diz que a sua recuperação não deve ser tão imediata quanto se ele fosse mantido intacto.

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"Utilizar o volume morto implica torná-lo volume útil. É como se você tivesse um copo cheio de algum líquido e, abaixo dele, houvesse algum excedente. A única forma possível de resgatá-lo seria se o total visível fosse retirado", exemplifica.

O Consórcio PCJ tem opinião abertamente crítica, e até catastrofista, sobre o uso do volume morto: "Se a medida for levada ao limite e culminar com o uso do volume morto até o fim, pode danificar todo o sistema. Há risco de se secar o reservatório, matando os peixes; de ocorrer açoreamento, com as margens ficando expostas."

Sem risco

Oficialmente, a garantia é de que não há qualquer possibilidade de isso ocorrer. O Sistema Cantareira conta, no total, com 400 bilhões de litros de água de volume morto. Destes, pouco menos da metade - 182,5 bilhões de litros -, de acesso mais fácil, serão bombeados, sendo que a previsão da Associação Nacional de Águas (ANA, órgão do Governo Federal que regula os volumes do sistema com o DAEE) é usar 133 bilhões de litros até o início do período de chuvas na região, em novembro, quando é esperada uma melhora no nível das represas. Assim, é estimado que o mês de dezembro seja iniciado ainda com 50 bilhões de litros de volume morto excedente de fácil disposição - e garantido que os 217 bilhões de litros restantes permaneçam em seu lugar de origem, longe do acesso das obras.

Por outro lado, existe o risco real de a população ter menos água disponível em determinados períodos. Enquanto a Sabesp descarta qualquer possibilidade de racionamento nos 365 municípios em que atua, reforçando discursos do governador do Estado, Geraldo Alckmin, estudos realizados pelo PCJ e pela ANA (Associação Nacional de Águas, órgão do Governo Federal responsável pela gestão do sistema junto ao DAEE) preveem dificuldades no abastecimento no auge do período de estiagem, já em agosto deste ano, quando praticamente não deve chover em São Paulo.

Levantamento baseado na média histórica do período indica que, no pior dos cenários possível, com a estiagem e o padrão de consumo mantendo a proporção registrada em anos anteriores, as regiões abastecidas pelo sistema terão um déficit de 10 m3/s de água. Historicamente, a região metropolitana de São Paulo recebe 21 m3/s de água nessa época, enquanto a do PJC, também abastecida pelo sistema e que inclui Campinas e Piracicaba, 7 m3/s - uma demanda de 28 m3/s em um cenário com apenas 18 m3/s disponíveis para garantir o abastecimento até o final de 2014. Nessa hipótese, a população das regiões abastecidas teria de receber menos água.

"Estamos tentando construir uma metodologia que nos permita atravessar o período sem chuvas, pois a ideia é chegar ao período chuvoso ainda com alguma reserva, caso a estiagem continue", explicou o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, em entrevista à rádio CBN, na quarta (14).

"Temos que adotar um critério que possa condicionar o futuro a uma situação vivida a cada instante. Você pode operar o reservatório com uma expectativa de longo prazo, a partir das projeções, ou operar o reservatório com visões de curto prazo, que é o que defendemos, controlando semanal ou quinzenalmente, fazendo ajustes nas vazões liberadas a partir do que se verificou no período imediatamente anterior."

Assim, se a chuva vier, mais água será liberada. Caso contrário, restrições de uso precisarão ser impostas para garantir a duração do volume morto até a data estipulada.

"O Consórcio alerta desde dezembro de 2013 para a necessidade de diminuição no consumo. Fizemos um estudo que estima que 50% do consumo deve ser reduzido para preservar o Cantareira", diz o PCJ.

A associação calcula que algo em torno de cinco anos sejam necessários para a recuperação total do Cantareira, isso considerando um retorno à média de precipitação na região, que em fevereiro de 2014 chegou a ser 16 vezes menor do que a histórica, além da gestão do sistema pela Sabesp. E, ainda que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) preveja chuvas para o interior paulista do meio ao final da semana que vem, elas devem ser pouco significativas.

De acordo com estudos técnicos do PCJ, o Sistema Cantareira precisaria de um acumulado de 1000 mm de chuva em apenas 60 dias para recuperar 50% de sua capacidade e aumentar a vazão de seus rios. Previsões nada positivas, visto que a média de precipitação anual na região é de 1.600 mm.

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