3 mil sem-teto perto do Itaquerão: “Quero ver o Neymar e a Dilma dormindo aqui”

Por Natália Peixoto e Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Banheiro sem vaso, cozinha comunitária e muito trabalho: conheça o dia a dia dos acampados no terreno que fica a 3km do estádio; Justiça deu 48 horas para as famílias saírem de lá

De costas para um mar de barracas feitas de bambu e lona preta, um grupo de homens e mulheres cerca um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e pergunta sobre o que é necessário apresentar para garantir um pedaço dos 150 mil m² de um terreno abandonado há 20 anos e ocupado desde o último sábado (3) por sem-teto no bairro de Itaquera, a três quilômetros do estádio do Corinthians, na zona leste de São Paulo. A resposta não poderia ser mais simples. “É só trazer bambu, lona e escolher um pedaço de terra. Só não pode guardar lugar. Chegou, ficou.”

Com 2 x 2 metros, cada barraca pode abrigar apenas uma família. "Tenho 15 familiares espalhados por aí", enumera a auxiliar de enfermagem Rita de Cássia, 35 anos. Mãe de três filhos, ela fala empolgada sobre os novos amigos que fez desde que se mudou para o terreno, em frente ao Parque do Carmo. "Aqui parece uma cidade do interior. Todo mundo se ajuda, a gente faz fogueira, conta causos. Até larguei o Facebook", diverte-se.

Leia também: Famílias ocupam terreno na região do Itaquerão, em São Paulo

A ocupação foi inaugurada no sábado por 300 famílias, que desembarcaram de 17 ônibus e 50 carros. Até a última quinta-feira (7), duas mil famílias – aproximadamente 3 mil pessoas – já estavam agrupadas. "Toda manhã é preciso fazer a recontagem”, garante Edmilson Gomes da Silva (34), coordenador do movimento. Ele explica que todo mundo tem regras a seguir: é proibido vender objetos ou comida no terreno e todos devem ir para a cama às 22h. "Temos um grupo que faz a patrulha noturna para evitar barulho, briga e uso de drogas."

Mesmo empolgada com os novos vizinhos, Rita diz que viver ali tem suas dificuldades. “O medo é da chuva. Estou planejando um jeito de colocar o colchão sobre blocos.” Embora o MTST tenha instalado chuveiro em um cômodo improvisado, não há nenhum vaso sanitário. “Mato. Tem de ir no mato”, diz Ronaldo dos Santos, 31 anos. “Estamos esperando a instalação de banheiro químico”, assegura o coordenador.

Com luz elétrica e água encanada na parte de cima do terreno, o MTST construiu uma cozinha comunitária, abastecida a todo o momento com mantimentos doados. Na terça-feira (6), o cardápio foi arroz, feijão e picadinho de linguiça: “Foram 60 quilos de arroz, 40 de feijão e 35 de linguiça”, assegura a coordenadora Vania Gonçalves, de 37 anos.

Dilma, Neymar e a Copa do Mundo

Apesar de muita gente ter se mudado para lá vinda do Jardim Cibele, Gleba do Pêssego, São Miguel, Jardim Helian e Ermelino Matarazzo, a maior parte dos acampados foi expulsa de Itaquera depois que a construção da Arena Corinthians foi anunciada com o intuito de abrir a Copa do Mundo. “Com a alta de R$ 300 para R$ 700 no aluguel, precisei me mudar depois de oito anos morando aqui”, lamenta-se a segurança Luciana de Souza (35), que acabou na Favela do Escorpião, também na zona leste. “Ela tem esse nome porque fica em uma torre da Eletropaulo. Um perigo!”

Futura Press
Integrantes do MTST, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, ocuparam terreno na madrugada de sábado (3)

Santos diz que não perdeu só a casa. Ele acusa o poder público de ter retirado serviços, como o Centro de Solidariedade ao Trabalhador. “Eu morei aqui minha vida toda, e agora saio por causa de um campeonato.”

Rita só perde o humor quando fala do evento. “A Copa pode ser boa para o Brasil? Com certeza! Eu gosto de futebol? Eu amo! Mas é preciso estabelecer prioridades, e pra mim o mais importante é uma casa.” Ela lembra que o evento vai receber jogadores que ganham milhares de reais, enquanto ela... “Eu não ganho nada.”

Exaltada, ela chegou a convidar algumas personalidades para passar uma semana na Copa do Povo, como o acampamento foi batizado. “Queria ver se o Neymar passa uma semana aqui. Se o presidente da Fifa [Joseph Blatter] vem. Se a presidente Dilma Rousseff aparecesse”, diz. “A presidente foi militante. Ela já lutou por causas, já lutou na ditadura, e essa é a nossa ditadura.”

Reintegração

Rita admite que, se o dono aparecer, ela terá de devolver o terreno, mas não antes de lutar. A declaração foi feita antes de o juiz Celso Maziteli Neto, do Fórum de Itaquera, conceder, na noite de ontem (7), a reintegração de posse do terreno, equivalente a 21 campos com as dimensões do Itaquerão.

Ao iG, o coordenador do MTST Josué Rocha afirmou que o departamento jurídico já está cuidando do caso e que amanhã mesmo vai recorrer do prazo de 48 horas para que as famílias deixem o terreno pacificamente. "Não pretendemos sair nesse prazo. Esperamos que a Justiça analise nosso pedido em um tempo menor e dê o parecer favorável às famílias."

As cartas do MTST 

A ameaça de Rocha não deve ser ignorada. O MTST foi uma das sete organizações empenhadas em pressionar os vereadores paulistas a aprovarem o Plano Diretor Estratégico (PDE) na terça da semana passada (29). Na ocasião, os sem-teto, a Polícia Militar (PM) e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) entraram em confronto depois que vereadores suspenderam a votação do Plano.

Os manifestantes atearam fogo em pneus e lixeiras e atiraram objetos contra as portas e janelas da sede da Câmara, localizada no centro da capital. No dia seguinte, os vereadores votaram o texto integralmente, como reivindicava o MTST.

O movimento garantiu que alguns pontos estratégicos continuassem intactos, como a ampliação e demarcação de ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social) para construção de moradias populares priorizando famílias com renda de até três salários mínimos, e a criação da Cota de Solidariedade, que obriga que empreendedores de alto padrão também invistam em moradias populares nas mesmas regiões.

Alice Vergueiro/Futura Press
Ocupação Copa do Povo na Rua Malmequer do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo

Os movimentos comemoram o sucesso da pressão sobre a Câmara e planejam manter a estratégia para garantir também a aprovação de emendas favoráveis às suas reivindicações mais específicas, como o aumento da liberação para construção de casas populares em 30% da área da Nova Palestina, no M'Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, reservando 70% para preservação ambiental.

Jussara Basso, outra coordenadora do MTST, garante que os movimentos vão continuar "massivamente presentes" na segunda e última votação, prevista para a última semana de maio. "Graças a uma unidade de luta de sete movimentos, conseguimos garantir que o Plano Diretor fosse aprovado na íntegra na primeira votação, e essa unidade vai continuar", afirma.

Enquanto o Plano não sai do papel e a Justiça não decide o futuro do acampamento na zona leste, Carla Alves Leite (39) sonha com sua “mansão” de três quartos para abrigar os cinco filhos: “Um quarto eu quero só pra mim, que é pra ter privacidade!”

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