‘Falta braço’ no combate à dengue na zona oeste de São Paulo

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo | - Atualizada às

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Funcionário de órgão da Prefeitura admite que 50 agentes têm de percorrer 18,7 km², área maior que a cidade de São Caetano do Sul, com 15,3 km². Até 8 de abril, são 1.745 casos em SP

Diante do avanço do número de casos de dengue na região oeste de São Paulo, os agentes de saúde do subprefeitura do Butantã não têm dado conta de percorrer todos os bairros para combater a doença, dizem moradores do Jardim São Jorge, na região de Raposo Tavares.

O líder comunitário Cláudio Freitas, de 41 anos, disse que ainda não viu agentes de saúde visitar casas, fazer o trabalho de combate a criadouros nem alertar a população sobre os riscos da doença. “Está uma epidemia imensa, mas não está tendo fumacê [ação de combate ao mosquito] e os agentes ainda não vieram aqui. Só na minha família, são dois casos”, diz.

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Morte: Capital paulista confirma a primeira morte por dengue no ano

Divulgação/Prefeitura de São Paulo
Agentes de saúde visitam casas na zona oeste de São Paulo, região mais afetadas por casos neste ano

Freitas diz já ter ligado na unidade da Supervisão de Vigilância em Saúde, do Butantã, para pedir a visita de agentes ao bairro. “Eles disseram que precisam que a unidade de saúde os notifique [dos casos da doença] para que eles visitem a região. Como não têm essas confirmações, estão dando prioridade para outros bairros, com mais casos, como Rio Pequeno”, diz. “Eles vão esperar alguém morrer para vir aqui”, lamentou.

Sem se identificar, a reportagem entrou em contato com o órgão e obteve a mesma resposta. “Nós não temos ‘braço’ para fazer tudo. São cerca de 50 agentes para percorrer Raposo Tavares, Butantã, Rio Pequeno, Vila Sônia e Morumbi”, disse o funcionário. “Então damos preferência para os bairros com mais notificações, como o Rio Pequeno”, concluiu. O funcionário diz ter anotado o nome da rua citada pela reportagem e disse que vai pedir a inclusão da via no roteiro dos agentes, mas não deu prazos para visitas. A área da subprefeitura abrange 18,7 km². Para efeito de comparação, a cidade de São Caetano tem 15,3 km² de área. 

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, foram registrados 15 casos da doença na região de Raposo Tavares, entre 1º de janeiro e 8 de abril. Já na região de Rio Pequeno, foram idenficadas 147 casos da doença no mesmo período. O bairro tem a terceira maior incidência da doença na cidade, atrás apenas de Jaguaré (324 casos) e Lapa (158), ambos na zona oeste.

A promotora de vendas Cristina da Silva, de 21 anos, diz que o número de casos de dengue no bairro, no entanto, pode ser quase o dobro dos notificados à prefeitura. Infectada, ela diz que foi na unidade do Atendimento Médico Ambulatorial (AMA) do Jardim São Jorge, na última segunda feira, e encontrou mais 27 pessoas com os sintomas da doença.

Segundo Cristina, o número de infectados era tão grande que ela teve dificuldades para receber o exame para a comprovação da doença.

“Fiz o exame na segunda-feira, às 7h. Eles falaram que ficaria pronto no mesmo dia, às 14h. Eu fiquei esperando até as 19h e nada. No dia seguinte, voltei ao AME. Eu estou doente e estava com a minha bebê de seis meses, fiquei até o AME fechar e só consegui pegar o exame na quarta-feira, às 9h”, conta ela.

Ela e o marido, o comprador Guilherme Freitas Ferreira, 22 anos, foram diagnosticados com a doença, e até mudaram de casa provisoriamente para proteger a filha de seis meses. “Estamos na casa da minha sogra porque aqui não ouvi falar de dengue”. A sogra, diz ela, mora no Parque Ipê, também na região de Raposo Tavares. Segundo ela, na rua Antonio José Evaristo, onde mora, no Jardim São Jorge, 12 pessoas já foram infectadas.

Reposta

Vivian Ailt Cardoso, subgerente do Vigilância de Doenças Transmitidas por Vetores, da Prefeitura de São Paulo, confirmou que os agentes precisam ser notificados sobre casos de dengues para programar visitas às áreas de incidência. “As equipes tentam cobrir todos os casos notificados, mas depende de quando chegou essa notificação. Em todos os locais que tem a transmissão está sendo feito o trabalho de bloqueio dos criadores. Os agentes procuram focos da doença e orientam o comportamento dos moradores”, diz. Segundo a subgerente, o fumacê não é feito em todos os locais.

Sobre a demora no resultado do exame, Vivian disse que a entrega estava dentro do prazo. “O exame é colhido na unidade e enviado ao laboratório. Demora em média de dois a três dias para ficar pronto, mas não precisamos do resultado do exame de sangue para fazer a notificação”.

Casos em São Paulo

A cidade de São Paulo registrou 1.745 casos de dengue entre janeiro e 8 de abril deste ano (último dado disponível). Do total, os bairros do Jaguaré, Rio Pequeno e Lapa, na zona oeste, e Tremembé, na zona norte, são os mais afetados e registraram 43% do total de ocorrências (752 casos).

No Jaguaré foram registrados 324 casos neste ano. Na análise sobre grupos de 100 mil habitantes, foram registrados 649,8 casos. O Ministério da Saúde considera como surto quando há acima de 300 casos para cada grupo de 100 mil habitantes.

Na região, também foi registrada a primeira morte em decorrência da doença. O menino de 6 anos, morador do Jaguaré, foi atendido duas vezes na unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA), onde foi diagnosticado com virose. A prefeitura vai investigar o atendimento médico à criança.

O bairro da Lapa registrou 158 casos em 2014 - 46 apenas nesta semana-, e está em segundo lugar do ranking. De acordo com a pasta, foram registrados 240,3 casos a cada grupo de 100 mil habitantes.

Dicas para prevenir

- Pratos de vasos de plantas devem ser preenchidos com areia;
- Tampinhas, latinhas e embalagens plásticas devem ser jogadas no lixo e as recicláveis guardadas fora da chuva;
- Latas, baldes, potes e outros frascos devem ser guardados com a boca para baixo;
- Caixas d’água devem ser mantidas fechadas com tampas íntegras sem rachaduras ou cobertas com tela tipo mosquiteiro;
- Piscinas devem ser tratadas com cloro ou cobertas;
- Pneus devem ser furados ou guardados em locais cobertos;
- Lonas, aquários, bacias, brinquedos devem ficar longe da chuva;
- Entulhos ou sobras de obras devem ser cobertos, destinados ao lixo ou “Operação Cata-Bagulho”;
- Cuidados especiais para as plantas que acumulam água como bromélias e espadas de São Jorge, ponha água só na terra.

Sintomas

A presença de dois sinais, combinada com febre alta, é indicação para procurar o serviço médico. Os sintomas da dengue clássica como é chamada, acrescida de dor abdominal contínua, suor intenso e queda de pressão caracterizam a dengue hemorrágica.
- Febre alta (acima de 38°C)
- Fraqueza e prostração ou fraqueza
- Dor no corpo e nas juntas
- Dor de cabeça
- Dor no fundo dos olhos (Sem resfriado ou coriza)

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