Mesmo sem rodízio oficial, bairros de São Paulo têm falta de água

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Moradores das zonas norte, leste, oeste e das cidades de Osasco e Cotia relataram desabastecimento após as 19h

Em meio a discussão sobre a adoção ou não do racionamento de água para evitar que o nível das represas que abastecem São Paulo caia ainda mais, moradores de vários bairros da capital paulista relatam casos de “rodízio disfarçado”, adotado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), principalmente durante a madrugada.

Leia também:
Sabesp diz que São Paulo tem segurança no abastecimento de água até o fim do ano
Chuvas precisam triplicar para sistema Cantareira atingir nível ideal
Cidades adotam de alertas em carros de som a multas para enfrentar falta de água

Getty Images
Moradores de São Paulo reclamam que torneiras secam todas as madrugadas

A reportagem identificou casos de falta de água nortuna nas zonas oeste, norte e leste, além de cidades de Osasco e Cotia, ambas na Grande São Paulo. Cotia é abastecida pelo sistema Alto Cotia, que não sofre com as consequências da seca, que afeta o sistema Cantareira.

Toda noite, por volta das 22h, é a mesma coisa: as torneiras secam na casa da psicóloga Mariana Lanna Pinheiro, 34 anos, moradora do Jardim Rizzo, na região do Butantã, na zona oeste de São Paulo.

Segunda ela, o problema começou no dia 27 de março. “Passa a madrugada inteira sem água. Já liguei umas 12 vezes para Sabesp, mas eles falam que não tem rodízio”, afirma a psicóloga grávida de nove meses. Ela diz que outros moradores da rua também reclamam do mesmo problema. “Mas eles têm caixa de água. Como minha casa é alugada e a ligação é antiga, nem todas as torneiras, inclusive o chuveiro, são ligadas na caixa”, lamenta.

O problema relatado por ela é comum em outros bairros da região oeste. Na rua Artur Soter Lopes, no Rio Pequeno, e na rua Santanésia, no Butantã, moradores dizem que todas as noites por volta das 19h, a água vai embora e só volta na manhã seguinte.

Mais: Saiba como reduzir o consumo dentro de casa

Morador do bairro de Pirituba, na zona norte de São Paulo, o ajudante geral Marcos Vinícius de Souza diz que falta água todos os dias durante a madrugada há dois meses. Ele diz que por conta do racionamento, a família até adotou novos hábitos.

“Depois das 18h, ninguém mais toma banho em casa. Quando a gente vê que a pressão começa a diminuir, enchemos um galão para beber e não usamos mais água”. Ele diz que apesar do “racionamento disfarçado”, a conta não diminuiu. “A conta não abaixa, pelo contrário, aumentou: pagavámos R$ 55 e agora está vindo R$ 75. É muita coisa para uma casa com três pessoas, em que todos trabalham”, afirma.

Souza diz que já fez reclamações e que a resposta é sempre a mesma: “Não tem racionamento”.

O analista de planejamento estratégico Ferdinando Borrelli Júnior, 38 anos, morador da Freguesia do Ó, na zona norte, diz que percebeu a falta de água em pelo menos duas madrugadas seguidas. “Tenho um bebê recém-nascido e uma noite acordei para dar mamadeira a ele e não tinha água”. Ele diz que ligou para a Sabesp e foi informado que nenhum reparo estava sendo feito na região. “As pessoas não percebem porque o corte acontece de madrugada”, diz.

Na zona leste, a designer editorial Erika Neves, 28 anos, diz que notou a ausência de água na torneira há cerca de um mês, entre as 22h30 e as 23h. Na casa dela, apenas um dos banheiros não tem ligação com a caixa de água. “O banheiro do meu quarto tem água da rua. Se passar de determinado horário já não posso tomar banho lá e nem escovar o dente”, lamentou.

Na opinião dela, se a Sabesp tornasse pública a decisão de fazer o racionamento, a população até poderia ajudar mais. “A gente está em uma situação crítica, pode ser necessário fazer um racionamento, mas é preciso avisar. Se ficar fazendo velado, as pessoas não vão se conscientizar, não vai haver reeducação. É bom que seja esclarecido para a gente se preparar”.

Sistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

Outras cidades

Em Cotia, cidade que é abastecida pelo sistema Alto Cotia, moradores também relatam problemas de falta de água. “Extraoficialmente, acho que é a nossa contribuição para o sistema Cantareira”, diz o funcionário público Leandro de Vicente Benedito, 39 anos, que mora no bairro Jardim Barro Branco.

O governador Geraldo Alckmin anunciou no dia 6 de março que usaria parte da água dos sistemas Alto Tietê e Guarapiranga para evitar queda na produção do sistema Cantareira. O sistema Alto Cotia tem atualmente 54,1% da capacidade, enquanto o Cantareira opera em 12,2%.

Segundo Benedito, a família, que mora em um condomínio com 28 casas, ficou nove dias seguidos sem água. “A gente reclamou e eles disseram que a água não tinha pressão suficiente porque moramos em uma região muito alta. Na terça-feira passada, eles informaram que tiveram que fechar a água de quatro bairros para ter pressão para o nosso”.

Ele diz que ele e todos os vizinhos tiveram que armazenar água em baldes, piscinas e máquinas de lavar porque ela não tinha força para ir para as casas do condomínio. Assim como Erika, de Itaquera, ele também concorda com o racionamento ou rodízio de água “desde que a população seja avisada”. “A gente espera um pouco de ética por parte do governo de pelo menos montar um escalonamento para a gente poder se programar”.

Atualmente, diz ele, a água vem em um dia e é cortada nos dois seguintes. “Mas pelo menos está vindo, né?”

A mãe de Benedito, Florizabel de Vicente Benedito, 62 anos, que mora em Osasco, também na Grande São Paulo, diz que a água tem acabado todos os dias de madrugada. “Para mim, não tem atrapalhado porque moro sozinha e tenho duas caixas de água, mas para o meu filho que tem dois filhos pequenos, é um problema. A família toda dele já veio tomar banho aqui”, diz.

Desperdício: Perda da Sabesp daria para abastecer uma cidade com 685 mil habitantes

Protesto virtual

Inconformados com a falta de água não declarada aplicada pela Sabesp, um grupo de amigos criou uma página no Facebook para renunir os casos de desabastecimento. Com o sugestivo nome de "Alckmin, tá faltando água aqui em casa" (sic), o grupo já recebeu reclamações de moradores de Guarulhos, que tem racionamento oficial desde o mês passado, São Miguel Paulista, na zona leste, Capão Redondo, zona sul, Rio Pequeno, na zona oeste, além dos já citados na reportagem Butantã e Osasco. 

Arte iG
Veja o horário em que falta água em cada bairro

Resposta

A reportagem procurou a Sabesp e informou os endereços citados na reportagem. Segundo a companhia, “poderão ser constatados eventuais momentos de desabastecimetno, especialmente em pontos altos”, devido a “manobras técnicas operacionais para transferência de vazões do sistemas Guarapiranga e Alto Tietê para atendimento de alguns bairros abastecidos pelo sistema Cantareira”.

Sobre as ruas General Lauro de Cavalcante de Farias e Doutor Georgino Paulino dos Santos, a companhia informou que os desabastecimentos foram causados por causa do “o fechamento de redes para manutenções no sistema de distribuição e eventuais ocorrências de falta de energia que impactam na distribuição de água para áreas altas devido à necessidade de estações de bombeamento”.

Sobre Cotia, a Sabesp disse que constam apenas reclamções pontuais. “Para solucionar tais casos, a companhia tem feito adequações nos ramais dos imóveis a fim de ampliar a vazão do fornecimento”.

Leia tudo sobre: águaracionamentodesabastecimentorodíziosabespigsp

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas