Julgamento do Carandiru é retomado com debate entre acusação e defesa

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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No primeiro dia do julgamento, os 15 policiais acusados pela morte de oito detentos e pela tentativa de homicídio de mais dois foram interrogados pelo juiz no Fórum da Barra Funda

A terceira fase do júri do Massacre do Carandiru foi retomado nesta terça-feira (1º), segundo dia de julgamento, com a debate de teses entre representantes do Ministério Público e os advogados de defesa. Com exibição de vídeos, a acusação apresentou sua sustentação por cerca de duas horas e meia. Depois, foi a vez da defesa.

O primeiro a falar foi o promotor Canto Neto que, por duas horas e meia, defendeu a condenação dos 15 policiais do Comando de Operações Especiais (COE) como responsáveis pela morte de detentos que ocupavam o terceiro andar do Pavilhão 9 da antiga Casa de Detenção do Carandiru.

“De todas as tropas [que estiveram no dia do massacre no Carandiru], a tropa do COE era a única a portar facas. Eles [policiais] podem ter matado os presos com as facas, mas os presos também podem ter feito isso. Por isso, absolvam os policiais pela morte dos presos por armas brancas”, disse o promotor.

O promotor disse que, apesar de ter sido necessária a presença policial no Carandiru para conter a rebelião no Pavilhão 9, houve excessos que precisam ser punidos. “Os policiais que cometem excessos precisam ser afastados da corporação. Eles se excederam de maneira criminosa”, falou. “A polícia tinha que conter a rebelião. Era o papel dela. Mas o que se condena é o excesso criminoso. A entrada era necessária para se conter a rebelião, não para se executar os presos”, ressaltou.

No primeiro dia do julgamento, os 15 policiais do Comando de Operações Especiais (COE), acusados pela morte de oito detentos e pela tentativa de homicídio de mais dois foram interrogados pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo. Os interrogatórios terminaram logo após a meia-noite e todos foram ouvidos.

1º dia:
Policiais dizem que disparos no Carandiru ocorreram em confronto com presos
Entrada da PM no Carandiru foi necessária, diz ex-secretário de Segurança
Desembargador nega ter ouvido disparos antes da entrada da PM no Carandiru
Júri do Carandiru é composto por seis homens e uma mulher
Perito diz que não houve confronto entre presos e policiais no Carandiru

Futura Press
Julgamento do Massacre do Carandiru

Os réus foram orientados inicialmente por seu advogado, Celso Vendramini, a não responder às perguntas dos promotores Márcio Friggi de Carvalho e Eduardo Olavo Canto Neto. No entanto, a maior parte deles ignorou a orientação e passou a responder aos questionamentos. Todos disseram ter feito disparos em revide aos tiros que foram disparados pelos detentos.

O tenente-coronel Armando da Silva Moreira, que era tenente quando ocorreu o massacre, foi um dos que decidiram responder a algumas perguntas feitas pelos promotores. Moreira disse que usava um colete naquele dia e que recebeu dois disparos feitos por um detento, aos quais revidou. Acrescentou que portava um rifle e um fuzil no dia do massacre, que disparou em revide e viu o detento cair após o disparo. “Ele caiu no corredor, mas não sei se esse detento morreu ou não”.

Antes de Moreira, o coronel Walmir Corrêa Leite, tenente à época, contou que houve vários confrontos com os presos, que fizeram disparos na direção dos policiais. Segundo ele, os policiais teriam disparado em revide. “Os disparos eram feitos com a intenção de manter distanciamento, porque o número de presos era bastante superior ao de policiais”, explicou. O coronel admitiu ter feito “quatro ou cinco disparos”.

Walmir Leite foi o primeiro a romper o silêncio imposto pelo advogado, tendo respondido a uma única pergunta feita pelo promotor Canto Neto. Ele confirmou depoimento dado anteriormente em que admitia que os policiais não tinham usado escudos naquele dia. “Se está escrito que eu disse isso, eu disse”, acrescentou, após o promotor ter lido um trecho do depoimento.

1º júri: Júri condena 23 PMs a 156 anos de prisão por massacre no Carandiru

2º júri: Júri condena 25 PMs a 624 anos de prisão por massacre no Carandiru

3º juri: Advogado abandona plenário e julgamento do Carandiru é cancelado

4º júri: Júri condena 10 PMs a penas de até 104 anos de prisão pelo massacre no Carandiru

O coronel da Polícia Militar Arivaldo Sérgio Salgado, que comandava a tropa do Comando de Operações Especiais (COE) no dia em que houve o massacre na Casa de Detenção, admitiu ter feito cinco disparos na ocasião, mas sempre em confrontos com os detentos. “Eles [detentos] gritavam para nós: 'Vocês vão morrer'. E arremessavam objetos contra nós, sacos com urinas e fezes, pedaços de madeira”, falou. “Cada vez que eles nos agrediam, havia revide”. Ele disse ainda que, em alguns desses confrontos, houve disparos feitos pelos presos.

Douglas Martins Barbosa, que estava com um revólver calibre 38 naquele dia, disse ter feito dois ou três disparos, em revide. Ele também confirmou ter visto presos, além das barricadas que foram montadas na entrada do pavimento, “deitados e agachados” o que, para os promotores, indica que eles já estavam rendidos. Barbosa explicou que o COE é uma tropa especializada em busca e salvamento de pessoas, principalmente em matas.

Outro policial ouvido foi Jair Aparecido Dias dos Santos, que contou ter procurado apoio psicológico logo após ter participado do massacre. “Não fiquei bem após os fatos”, disse ele em interrogatório, admitindo ter sentido medo no momento da invasão policial ao Pavilhão 9.

O policial Jeferson Ferreira dos Santos contou que ficou ferido durante a operação no Carandiru. "Meu braço estava todo dilacerado e sangrando", disse ele, acrescentando que não se lembrava de como o ferimento no braço foi provocado. "Acho que me feri na passagem de uma cela para outra".

Também foram ouvidos nessa segunda-feira os policiais Tarcísio Barbosa, Aparecido José da Silva, José Carlos Ferreira, Cleginaldo Roberto da Silva, Flávio Zemantauskas Haensel, Marcos do Nascimento Pina, Josenildo Rodrigues Liberal, Sandro Francisco de Oliveira e Sérgio Guimarães Leite.

O julgamento do Massacre do Carandiru apura as responsabilidades pela morte de 111 detentos no Pavilhão 9 da Casa de Detenção. Nesta etapa, estão sendo julgados 15 policiais do COE pela morte de oito presos e duas tentativas de homicídio. As vítimas ocupavam o quarto pavimento (terceiro andar) da instituição, que foi desativada. Quatro dos detentos foram mortos por armas de fogo e os demais, por armas brancas.

*Com Agência Brasil

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