Perito diz que não houve confronto entre presos e policiais no Carandiru

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Julgamento começou na tarde de ontem, após sorteio dos jurados, e deve ser retomado nesta terça-feira

O perito criminal Osvaldo Negrini foi a primeira e única testemunha de acusação ouvida nesta segunda-feira durante a última etapa do julgamento do Massacre do Carandiru, que acontece no Fórum da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.

Nesta etapa, 15 policiais militares do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) são julgados pela morte de oito detentos e tentativa de dois homicídios no quarto pavimento do Pavilhão 9, da Casa de Detenção do Carandiru, em outubro de 1992. Prevista para fevereiro deste ano, a terceira etapa acabou sendo cancelada pelo juiz e retomada nesta segunda-feira, após reclamação do advogado de defesa dos policiais, Celso Vendramini. 

Até as 22h, além de Negrini, outras duas testemunhas e oito réus tinham sido ouvidos. O julgamento, inicialmente programado para começar de manhã, só teve início por volta das 15h de ontem, depois que o agente penitenciário Francisco Carlos Leme, que era chefe de plantão no dia do massacre e testemunha considerada imprescindível pela defesa, foi localizado. 

Após a localização da testemunha, que acabou não sendo ouvida, o juri, composto por seis homens e uma mulher, foi sorteado. O julgamento deve ser retomado às 13h desta terça-feira.

Negrini, a primeira testemunha ouvida, disse que, no dia do massacre, viu 89 corpos de detentos “empilhados” no segundo pavimento (primeiro andar) do Pavilhão 9.

Ele disse ainda que a falta de energia elétrica prejudicou a perícia, que só foi feita sete dias depois quando “vários vestígios já tinham sumido”. “Os vestígios de sangue tinham sido lavados e os projéteis, recolhidos”, e a perícia acabou sendo feita com base principalmente nos buracos de projéteis que ficaram nas paredes e não puderam ser removidos. “Várias celas estavam esburacadas e tinham marcas de balas”, lembrou.

O perito, que falou durante cerca de duas horas, disse que não houve confronto entre policiais e detentos nesse local, tal como a defesa dos policiais afirma. “Não houve confronto. Não houve vestígio material algum, no sentido oposto, indicando confronto nesse episódio.”

Segundo ele, o fato de ter sido identificado apenas um vestígio de bala na parede não exclui a hipótese de ter havido execução dos detentos pelos policiais. “Os projéteis podem ter ficado nos corpos. Outro detalhe é que o piso é de concreto muito duro e, por isso, pode não ter deixado nenhuma marca de bala”.

O perito, que falou durante cerca de duas horas, disse que não houve confronto entre policiais e detentos nesse local, tal como a defesa dos policiais afirma. “Não houve confronto. Não houve vestígio material algum, no sentido oposto, indicando confronto nesse episódio.”

Entre as testemunhas de defesa, o desembargador Fernando Antônio Torres Garcia também prestou depoimento nesta segunda-feira como testemunha de defesa. Garcia era juiz da corregedoria na época do massacre.

Em seu depoimento, de cerca de 20 minutos, o desembargador disse não se lembrar de ter ouvido disparos de armas de fogo no Pavilhão 9 antes da entrada da Polícia Militar no local. “Disparo [de arma de fogo] não me recordo. Mas tinha muita balbúrdia”, disse.

Entrada necessária

Já o secretário de Segurança Pública de São Paulo na época em que ocorreu o Massacre do Carandiru, Pedro Franco de Campos, afirmou que a entrada da Polícia Militar (PM) no Pavilhão 9 da extinta Casa de Detenção do Carandiru foi necessária.

“A informação que eu tinha era de que era necessária [a entrada da Polícia Militar]. Era caótica a situação lá dentro”, disse o secretário, que foi ouvido nesta segunda-feira no julgamento de 15 policiais acusados de duas tentativas de homicídio e da morte de oito detentos naquele episódio. O ex-secretário disse que foi informado da rebelião de detentos no Pavilhão 9 por telefone, quando estava em seu gabinete. Ele destacou que não esteve no Carandiru no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos após invasão policial para conter uma rebelião no presídio. Ele deixou o cargo dias após o ocorrido.

Julgamento

Por envolver muitos réus e vítimas, o julgamento do Massacre do Carandiru foi desmembrado em quatro etapas, de acordo com os acontecimentos em cada um dos pavimentos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru.

Na primeira etapa do julgamento, em abril do ano passado, 23 policiais foram condenados a 156 anos de reclusão, cada um, pela morte de 13 detentos. Na segunda etapa, em agosto, 25 policiais foram condenados a 624 anos de reclusão, cada um, pela morte de 52 detentos que ocupavam o terceiro pavimento do Pavilhão 9.

Na quarta etapa, que começou dia 17 de março, nove policiais militares foram condenados a penas de 96 anos cada e um a 104 anos de prisão pela morte de oito detentos.

* Com Agência Brasil

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