Falta de planejamento agrava problema da seca no Cantareira

Por Clarice Sá - iG São Paulo | - Atualizada às

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Analistas apontam como erro ausência de fontes alternativas e de medidas para atenuar estiagem. Para Sabesp, clima é inédito

A escassez de chuvas é apenas um dos motivos da crise de abastecimento do sistema Cantareira, de acordo com especialistas em gestão de recursos hídricos consultados pelo iG, que apontam a falta de planejamento de fontes alternativas e de investimento em medidas capazes de amenizar os efeitos da estiagem.

A Sabesp nega falta de planejamento e atribui os recordes negativos de abastecimento do sistema a fatores climáticos inéditos nos últimos 84 anos. O Cantareira é responsável pelo abastecimento de cerca de 10 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo.

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Veja fotos do sistema Cantareira:

Sistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor nível em duas décadas. Foto: Patricia Stavis

O nível de armazenamento do sistema vem batendo recordes negativos desde o final do ano. No domingo (16) chegou a 15,2%. Nessa mesma época em 2011, o nível era de 89,3%, em 2012, de 75,5% e no ano passado, de 53,4%.

A queda gradual no nível dos reservatórios - registrada desde 2010 com a redução do volume de chuvas - indica o início de um novo ciclo pluviométrico, com potencial para ameaçar o abastecimento pelas próximas décadas, diz o professor Antonio Carlos Zuffo, do Departamento de Recursos Hídricos da Universidade de Campinas (Unicamp).

Segundo Zuffo, essa variação de ciclos não foi levada em conta no planejamento hídrico do Estado. De 1930 a 1970, as regiões sul e sudeste viveram um período de baixas precipitações. Mas entre 1970 e 2010, justamente quando o sistema Cantareira entrou em operação, a região passou por um período úmido. “Nossos tomadores de decisão se guiaram pela falsa ilusão de que continuaríamos produzindo água”, diz.

A situação toma contornos mais alarmantes quando levamos em conta que a região sudeste dispõe apenas de cerca de 6% das reservas de água do País, enquanto reúne em torno de 40% da população, como lembra o presidente-executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos. No Estado de São Paulo, a situação é similar. A população está mais concentrada na região metropolitana, mas os rios da área são de pequeno porte - com exceção do Tietê. Tanto que o sistema Cantareira é formado por cinco reservatórios, três deles localizados na bacia do rio Piracicaba, no interior do Estado.

Na avaliação de Zuffo, a falta de planeamento do crescimento da região metropolitana, que concentra a maior parte da população do Estado, tem impacto direto sobre o consumo de água do sistema. A região atrai cerca de 200 mil novos moradores por ano. As perdas financeiras provocadas por ligações clandestinas e o avanço da população em direção às cabeceiras dos reservatórios também prejudicam o abastecimento.

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Em 2012, quase 1 trilhão de litros de água foram perdidos entre ligações clandestinas - os chamados “gatos” - e falhas no sistema de distribuição administrado pela Sabesp, de acordo com a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp). Responsável pelo abastecimento de 346 dos 645 municípios paulistas, a Sabesp tem um dos menores índices de perdas do país, estimado em 32,1% em 2013. Nos EUA, o índice é de 16%. Na França, 26%.

Para conter as perdas, a Sabesp investe US$ 2,7 bilhões em troca de tubulações, instalação de válvulas redutoras de pressão e substituição de hidrômetros. “Grande parte da rede de São Paulo tem mais de 80 anos”, diz Zuffo. Outra iniciativa que poderia reduzir desperdício e perdas financeiras é a medição domiciliar, mas a Sabesp depende de leis municipais para adotá-la. A companhia promove também intercâmbio com profissionais do Japão, onde há municípios com índice de perdas de apenas 3%.

Banco de águas

Uma das falhas apontadas é a gestão do banco de águas, criado em 2004 para administrar a vazão destinada a cidades da região metropolitana e do interior que são permissionárias (compram água no atacado) da Sabesp. O banco permite controlar, dentro de uma cota estipulada mês a mês, o volume de água que deixou de ser retirado e usá-lo como uma espécie de crédito para tempos de estiagem. "Criou-se a falsa ilusão de ter reserva extra de água neste banco", afirma José Cezar Saad, coordenador de projetos do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ).

Histórico

A opção pelo sistema Cantareira - que saiu por US$ 1 bilhão - foi tomada na década de 1960. Uma outra alternativa seria a construção de sete reservatórios no Vale do Ribeira, que custariam US$ 6 bilhões e garantiriam o abastecimento até 2050. Entre as falhas apontadas pelos especialistas estão a demora para investir na região e a dependência do sistema Cantareira. 

A falta de saneamento dos rios Pinheiros e Tietê, que poderiam ser alternativa para o abastecimento com a criação de reservatórios, também contribui para essa dependência. A Sabesp informa que está investindo US$ 3,9 bilhões na terceira etapa de obras do Projeto Tietê que atua há 23 anos na expansão do esgotamento sanitário.

Atualmente, o governo investe também no sistema produtor de água São Lourenço, na região do Vale do Ribeira, com início das operações previsto para 2018. A obra, a primeira desse porte em 20 anos, deve reforçar o abastecimento para cerca de 1,5 milhão de moradores do oeste e sudoeste do Estado e beneficiar condomínios residenciais como Alphaville, Tamboré e Granja Viana. “Hoje o sistema Cantareira não é mais suficiente”, diz Zuffo.

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