Durante julgamento, perito diz que detentos não tiveram chance de reação

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Doze policiais do Grupo de Operações Táticas são acusados pela morte de 10 detentos e pela tentativa de homicídio de 3 presos na antiga Casa de Dentenção do Carandiru

Testemunha de acusação, o perito criminal Osvaldo Negrini foi ouvido nesta segunda-feira (17) na quarta etapa do julgamento do Massacre do Carandiru, no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Negrini foi prestou depoimento em todas as etapas do julgamento. Ele voltou a dizer que não houve confronto entre policiais e detentos, porque os presos do Pavilhão 9 não tiveram a possibilidade de reação. Segundo ele, é possível afirmar isso por causa do grande número de tiros encontrados nos corpos dos detentos, e também com base nas marcas de balas nas paredes da cela. “Cerca de 96% dos tiros foram feitos da soleira da porta para dentro das celas”, disse o perito.

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No julgamento, 12 policiais do Grupo de Operações Táticas Especiais são acusados pela morte de dez detentos e pela tentativa de homicídio de três presos que ocupavam o quinto pavimento da antiga Casa de Detenção do Carandiru. O massacre ocorreu no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos durante ação policial para reprimir uma rebelião no Pavilhão 9 do Carandiru, que ficava na zona norte da capital paulista.

Negrini contou que esteve no Pavilhão 9 em três oportunidades para fazer a perícia. Ele disse que na cela 9-512E, localizada no quinto pavimento, a perícia encontrou várias marcas de tiros nas paredes, o que, pelas características das marcas, permitiu que ele concluísse que os tiros foram feitos por rajadas de metralhadoras. “As marcas nas paredes foram de rajadas”, disse ele. Vários detentos morreram na cela. Um deles morreu com 13 disparos.

O perito contou que, ao entrar no Pavilhão 9 no dia 2 de outubro, logo após a entrada da Polícia Militar, teve dificuldades para fazer a perícia, porque a luz do local tinha sido cortada. Mesmo assim, diz ter visto marcas de sangue e dezenas de corpos empilhados no segundo pavimento do Pavilhão 9. “Naquele dia, contei 89 corpos”, disse ele.

Nas outras duas vezes em que esteve no Pavilhão 9, o perito enfrentou dificuldades para fazer a perícia, porque que o local tinha sido lavado e limpo. O que sobrou, segundo ele, foram as marcas dos tiros nas paredes. “Houve tentativa de prejudicar o trabalho da perícia desde o primeiro momento. Não foram encontrados estojos [cápsulas] vazios. Pela minha contagem, deveria ter uns 300 estojos vazios no local, mas não tinha nenhum. O estojo identifica a arma que fez o disparo. Mas os vestígios foram eliminados. Havia várias marcas nas paredes, mas os vestígios dos estojos desapareceram”, falou o perito.

Das cinco testemunhas de acusação arroladas pelos promotores Márcio Friggi de Carvalho e Eduardo Olavo Canto Neto apenas o perito foi ouvido. Das seis testemunhas de defesa arroladas pelo advogado dos policiais, Celso Vendramini, serão ouvidas duas.

Testemunhas de defesa

Duas testemunhas de defesa foram ouvidas no julgamento do Massacre do Carandiru: o desembargador Fernando Antônio Torres Garcia, que era juiz da Corregedoria na época do massacre, e Maldiney Antonio de Jesus, que trabalhava no quarto pavimento do Pavilhão 9.

Em depoimento de 15 minutos, o desembargador Fernando Garcia, contou uma sindicância concluiu que a “entrada [dos policiais para conter a rebelião no Pavilhão 9] se mostrava absolutamente necessária”. Segundo ele, a sindicância também apontou que houve “inegável excesso” na ação. “As indicações de marcas de projéteis nas celas apontou que houve excesso”, disse o desembargador. Ele disse que “não ouviu barulho de tiros” antes da entrada da Polícia Militar.

Maldiney de Jesus, que hoje é investigador de polícia, disse que trabalhou dois anos no Pavilhão 9, mas que, no dia do massacre, não conseguiu entrar. “Fui só até o pátio. Não subi nos andares”, contou. Ele disse que, naquele dia, o “cheiro no local era insuportável”. Ele disse também que, nos dois anos em que trabalhou no local, nunca viu armas de fogo com os detentos. “Só ouvi dizer que tinha”, disse.

* Com Agência Brasil

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