Cercados pela polícia, usuários de crack voltam para terreno de favela removida

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Sitiados pela polícia, pelo menos uma centena de dependentes retornou para terreno vazio no centro de SP, onde andam de um lado a outro, brigam e passam por orientação médica

“Pode passar! Se você andar pelo canto da calçada, ninguém mexe”. O conselho é de um agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM), que às 15h da última quinta-feira (20) acompanhava do carro a movimentação de pelo menos uma centena de dependentes de crack concentrados entre a alameda Cleveland e a rua Helvétia, região mais degradada da Luz, centro de São Paulo. Trata-se do mesmo terreno onde foi erguida uma pequena favela removida no mês passado pela prefeitura ao lançar o programa "de Braços Abertos”, que consistiu em retirar os barracos e alojar seus moradores em quatro hotéis da região em troca de salário e emprego.

Veja como se concentram esses dependentes:

“Eles começaram a voltar faz umas duas semanas”, estimou ao iG um dos seguranças particulares que montam guarda na região, mas que pediu sigilo sobre sua identidade. Ao todo, cinco vigilantes observam o tumulto munidos de escuta e rádio. “Sem nenhuma autoridade ninguém anda aqui.”

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Mais: Chegada de usuários de crack traz tensão a hospital psiquiátrico

Renato S. Cerqueira/Futura Press
Prefeitura remove barracos montados na rua Helvétia, região da Cracolândia

Aos mais desavisados, a surpresa começa no largo Coração de Jesus, entre as alamedas Glete e Dino Bueno. O lixo pela rua, o comércio fechado e as discussões em voz alta impedem o avanço de quem precisa atravessar a via. A única garantia de segurança é uma viatura da CGM estacionada na metade do caminho.

A surpresa se transforma em susto ao se aproximar da esquina da Helvétia com a Cleveland. No entroncamento, dezenas de usuários de crack andam de um lado para o outro. Alguns consomem a droga, outros trocam socos, enquanto há quem prefira atendimento médico em uma tenda montada no terreno, mas ninguém ultrapassa o perímetro, delimitado por duas viaturas, duas motos e um micro ônibus da CGM.

Nas ruas vizinhas, a Guarda divide a função de vigia com a Polícia Militar, que em breve vai ocupar o terreno de uma das praças vizinhas com a inauguração de uma base comunitária.

Veja abaixo imagens que fotógrafo italiano fez na Cracolândia:

Usuárias Danielle e Sabrina, ambas com 19 anos. Algumas meninas usam a prostituição para conseguir o crack. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJúnior, de 24 anos, autorizou ser fotografado fumando crack no centro de São Paulo. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiMãos do usuário Daniel, de 24 anos, em posição "espiritual", segundo Ortu. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJá as mãos Pedro Enrique, de 18 anos, revelariam agressividade do jovem. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiThiago Rodriguez, de 26 anos, foi flagrado por Ortu na Cracolândia, no centro de São Paulo. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiValéria, de 32 anos, deixou ser fotografada pelo profissional italiano. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiRegistro do jovem Gabriel, de 17 anos. O fotógrafo se espantou com a presença de menores na Cracolândia. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiUsuários Jay e Kelly. Ortu passou ao menos um ano registrando os moradores da região. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiGiuliano, de 16 anos, cobre o rosto durante registro de Alessio Ortu. "Sempre após um pedido de autorização humano", diz. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiJerson, de 34 anos, limpa o rosto de Jonatas, de 25. Fotógrafo presenciou cenas de amizade entre os usuários. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiUsuários Júnior, de 24, e Rangel, de 27. Fotos foram expostas no Palácio da Justiça. Foto: Alessio Ortu/Simulacrum PraecipitiiCena do documentário Simulacrum Praecipitii com o trabalho de Alessio Ortu (na foto). Foto: Reprodução

De Braços Abertos

Ao todo, 400 pessoas foram cadastradas no programa da prefeitura. A condição para ter direito à hospedagem, emprego e salário de R$ 1.086 é que os usuários façam tratamento médico contra o vício, trabalhem quatro horas por dia cuidando da manutenção de praças e dediquem duas horas do dia à requalificação profissional.

A expectativa é de que em 60 dias a prefeitura abra uma licitação para dar continuidade ao programa. A Secretaria de Segurança Urbana foi questionada sobre a volta dos usuários ao endereço da antiga favela e da atual atribuição da CGM na região, mas o iG não recebeu resposta até o fechamento desta reportagem.

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