Um ano e meio depois, favela do Moinho reconstrói cenário de tragédia

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo |

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Sem auxílio do poder público, moradores constroem parque para deixar vestígios de incêndios para trás

Pouco mais de um ano após o segundo grande incêndio que destruiu 80 barracos e matou uma pessoa em setembro de 2012, os moradores da Favela do Moinho, no bairro Campos Elísios, região central de São Paulo, voltaram suas atenções para a construção de um parque para as crianças: o Vermelhão, que também servirá de espaço de convivência para todos os habitantes da última favela do centro, onde moram 480 famílias.

A construção do parque foi idealizada pela comunidade em conjunto com Caio Castor, 30 anos, e a artista plástica Flávia Lobo, que começaram a frequentar a favela após o incêndio. Eles já participavam de intervenções urbanas com o projeto Comboio, que atua desde 2010 no centro da capital. “Mudei para cá logo depois do incêndio. Comecei a ser introduzido na vida da comunidade. Neste tempo a gente tentou entender como começaria isso [o projeto]. Não viemos com uma ideia pronta. É uma coisa que vai sendo construída baseada na identificação das potencialidades locais e no fortalecimento disso”, explica Castor.


Para Flávia, entrar na comunidade significou “descobrir outra maneira de atuar e existir na cidade. “Vim da classe média, que é passiva. Aqui as pessoas são guerreiras. É muito mais saudável como proposta de vida. A atitude das pessoas potencializou o projeto, que depende deles. A gente só faz porque eles existem”.

A primeira intervenção da dupla foi em maio de 2013, com construção da Casa Pública, espaço usado para reuniões e encontros da comunidade e onde Castor atualmente mora. “A comunidade doou o terreno. Isso foi o aval para a gente entender que o local seria apropriado por eles”.

Os dois também participaram, em agosto de 2013, da derrubada do muro, construído pela prefeitura após o incêndio de 2011 e que reduzia a apenas uma as possibilidades de fuga da favela em caso de novos incêndios.

A Casa Pública, uma construção simples em madeira e com telhas de amianto, foi feita com materiais encontrados no lixo ou doados por catadores de reciclagem. “A única coisa que a gente comprou foram as telhas e o cimento do chão”, diz Flávia.

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“90% dos materiais da casa vieram do lixo, os moveis, a geladeira, o fogão, a pia e parte dos canos, foram doados pelos catadores ou comprados a preço simbólico”, completa Castor.

A ideia é que o parque seja construído da mesma forma, com doações de ferramentas e materiais e mutirão comunitário. O nome Vermelhão, diz Castor, foi dado pelos próprios moradores é uma referência ao piso vermelho do antigo moinho desativado.“

Moradores lavam futuro parque Vermelhão na Favela do Moinho. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloCasa Pública, espaço de convivência e reunião dos moradores da Favela do Moinho. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloRampa do parque Vermelhão construída com tijolos do antigo moinho, que dá nome à favela . Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloParque Vermelhão na Favela do Moinho está sendo construído por moradores. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloFrase "Moinho Resiste" na parede de um dos barracos. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloÁrvores foram plantadas pelos moradores da favela do Moinho. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloQuadro na Casa Pública expõe doações feitas para a construção do parque Vermelhão; R$ 1.700 foram arrecadados. Foto: Ana Flávia Oliveira/iG São PauloHomem martela muro na favela do Moinho, derrubado em agosto de 2013. Foto: DivulgaçãoEspaço do Vermelhão antes da limpeza. Foto: Divulgação


Antes e depois

O local que abrigará o parque já serviu de entulho e restos de barracos queimados no incêndio de setembro. “Tiramos doze caminhões de entulho do incêndio, resolvemos o problema do esgoto que corria a céu aberto daqui”, diz.

O projeto já arrecadou cerca de R$ 1.700 em doações espontâneas e venda de camisetas desde dezembro do ano passado, quando o primeiro mutirão de limpeza abriu os trabalhos. Além de ferramentas e materiais. As intervenções e mutirões não têm uma regularidade para acontecer já que dependem de doações.

“Antes isso não era nada. Tinha muito lixo. As pessoas tinham preguiça de levar o lixo lá fora e jogavam aqui. As crianças usavam o espaço para brincar. Muitas se machucavam. Agora elas vêm para ajudar porque querem aprender a fazer o cimento, querem participar”, diz André Pereira Moreira, 15 anos, morador da favela do Moinho desde o nascimento e que está ajudando na construção do parque desde o começo. “Nós pintamos as paredes, cimentamos o chão”, completa Moreira.

Morador do Moinho há 14 anos, o jardineiro Ivanildo Francisco da Silva, 55 anos, perdeu duas casas atingidas pelo fogo nos últimos dois incêndios, diz que a realização do parque é importante, principalmente para as crianças. “É super bacana. É educativo porque afasta as crianças das coisas ruins porque aqui tem atividades”.

Para a dona de casa Maria Euleide Massena dos Santos, 38 anos, que perdeu a casa onde morava com os sete filhos durante o incêndio de 2012, o parque devolverá a esperança para os moradores. “Vai contribuir para a gente ter mais esperança de uma vida melhor, um meio ambiente melhor. Esperança de que todos olhem para nós e vejam que nós também somos pessoas do bem. Nós temos as mesmas necessidades que aqueles lá fora têm.”

Doações

Doações em dinheiro, ferramentas ou materiais, podem ser feitas na Casa Pública, na favela Moinho, pelos telefones (11) 97229-1503/(11)99740-5409 ou pelo site do Projeto Comboio. 

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