Alessio Ortu fotografou durante um ano a rotina dos consumidos pelo crack em São Paulo; veja as imagens

“Qual o seu nome? Prazer. Sou um gringo que mora em São Paulo e quero documentar as gritantes desigualdades da cidade”. Foi com essa introdução que o fotógrafo italiano Alessio Ortu, que vive no Brasil desde 2009, conseguiu construir uma ponte entre sociedade e marginalizados da Cracolândia, região central. Para Ortu, o trabalho Simulacrum Praecipitii  ("A imagem do abismo", em latim) seria uma chance aos viciados contarem suas histórias e aflições. O ensaio ganhou proporções inéditas ao italiano que acredita ter levado luz às sombras do centro.

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Com um bloco de notas e uma bolsa, Ortu aproximou-se de ao menos cem viciados durante um ano. As improvisadas sessões fotográficas a cada 15 dias ocorriam após um pedido de autorização humano, explica o profissional, que já domina o português. “Perguntar o nome de cada um e tentar entender o que estavam fazendo ali mostrou as minhas verdadeiras intenções. Não queria invadir o espaço, mas dar uma oportunidade de serem vistos”, disse ao iG . O resultado da experiência são 18 fotos em preto e branco que foram temas de exposição, documentário e livro.

Entre os milhares de registros, Ortu confessa que dois flagras das mãos dos viciados são os seus favoritos. Na primeira imagem, as mãos tem uma posição quase espiritual, como um pedido de perdão. Já na segunda, uma posição contorcida revelaria a agressividade do fotografado. Nas exposições, a última realizada em novembro deste ano no Palácio da Justiça, as duas imagens são sempre colocadas lado a lado - como se “dialogassem”. “As mãos dessas pessoas são destruídas, mostrando os sinais da devastação da vida nas ruas. São feias para muitos, mas consigo ver uma beleza ali”, explica. 

Assista ao teaser do documentário  Simulacrum Praecipitii:

O documentário que leva o mesmo nome (registrado por Humberto Bassanelli) chegou a estrear em festivais de Gramado, Goiás, Cuba e Mar Del Plata. Intrigado pelas desigualdades paulistanas e com um vocabulário informal lapidado pelas experiências com "as minorias", Ortu adianta que pretende continuar vivendo na cidade de São Paulo e investir em novas temporadas na Cracolândia. "É um drama que não pode deixar ser esquecido. Muitos [viciados] estão tentando sair [do crack]. E ninguém quer saber disso". 

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