Sem poder usar túmulos comuns, donos gastam até R$ 3 mil com funeral de pets

Por Renan Truffi , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Projeto de lei que permitia enterro de animais em cemitérios de humanos foi vetado a pedido da Igreja

Assim que chegam, os clientes são avisados. O sinal para o início do velório é o barulho do sino. Quando ouvem as badaladas, eles são liberados da recepção para subirem em direção à capela. No local, chama atenção uma estátua, em tamanho natural, de São Francisco de Assis, o protetor dos animais. A razão é que este é mais um funeral de cachorro, realizado no Pet Memorial, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. Como se fosse uma cerimônia para humanos, o corpo da cadela Dafne, uma Maltês que viveu até os 16 anos, é colocado sobre um pequeno caixão e coberto com um pedaço de véu. Quase 30 minutos depois de choro e carinhos por parte dos donos, Dafne é levada para o crematório, onde será incinerada e voltará ao colo dos proprietários na forma de cinzas.

Conheça a nova home do Último Segundo

Sem poder sepultar os bichos de estimação em túmulos da família, os donos de cachorros e gatos têm de recorrer a empresas especializadas no enterro, na cremação e até no velório desses animais. Uma das explicações é que atualmente os cemitérios públicos da capital paulista não permitem o enterro de cadáveres de animais nos mesmos jazigos onde são depositados restos humanos de parentes. Um projeto de lei, de autoria do vereador Roberto Trípoli (PV-SP), que permitiria essa possibilidade, foi aprovado recentemente na Câmara de São Paulo. Mas, a pedido da Igreja Católica, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, decidiu vetar a proposta. O argumento é que, na visão da igreja, o terreno é sagrado e não se deve misturar animais com pessoas.

Cuidados com os pets:

Hospital gratuito para cães e gatos faz sucesso e ganha nova unidade em SP

Check-up deve fazer parte da rotina de cuidados com os pets

Independentemente do embate religioso é difícil imaginar espaço extra nos cemitérios para todos os animais de estimação que morrem por mês na cidade. Para se ter uma ideia, só a empresa Loga, concessionária responsável coleta de cadáveres de animais em parte da capital paulista, contabiliza recolher uma média de 60 toneladas a cada 30 dias. Já a Delc Ambiental, que faz o mesmo serviço em clínicas veterinárias, ruas e aterros sanitários, estima a morte de 15 mil animais - o equivalente a outras 150 toneladas.

Com isso, atualmente, os donos têm três opções quando se deparam com o falecimento de seus animais: enterrar em cemitérios exclusivos de pets, mandar cremar ou ainda entregar para o veterinário, que, por sua vez, aciona o serviço de recolhimento de resíduos. Mas, na hora da despedida, muitos proprietários acabam optando por outros serviços, como é o caso do velório ou até mesmo do retorno das cinzas em urnas personalizadas. Os pacotes oferecidos tanto para quem opta pelo enterro como para os donos que preferem a cremação variam entre R$ 600 e R$ 3.000. O preço leva em conta o peso do animal, a urna escolhida e até a opção dos clientes de encomendarem um diamante, feito com os pelos do bicho.

O aposentado Jorlando Carpentieri, de 93 anos, é umas das pessoas que já optaram por este tipo de serviço. Dono da Dafne, ele resolveu fazer o velório da cadela ao procurar o Pet Memorial porque queria cremar o animal. “(As cinzas) são uma lembrança que queria guardar. Ela foi sempre tratada com amor, não é fácil falar”, explica sem conseguir controlar as lágrimas.

Velório de um cachorro no Pet Memorial, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. Foto: Renan Truffi, iG São PauloDonos do animal se despedem do cachorro no velório. Foto: Renan Truffi, iG São PauloVelório no Pet Memorial, em São Bernardo do Campo. Foto: Renan Truffi, iG São PauloExemplos de urnas que podem guardar as cinzas dos animais. Foto: Renan Truffi, iG São PauloCinerário do Pet Memorial, onde as cinzas dos animais podem ficar guardadas. Foto: Renan Truffi, iG São PauloCinzas de animais no cinerário, em São Bernardo do Campo. Foto: Renan Truffi, iG São PauloOs animais também podem ser lembrados em fotos. Foto: Renan Truffi, iG São PauloUrna que pode ser guardada as cinzas dos animais. Foto: Renan Truffi, iG São PauloOutra urna onde podem ser guardada as cinzas dos animais. Foto: Renan Truffi, iG São PauloTambém há uma urna ecologicamente adequada para guardar as cinzas dos animais. Foto: Renan Truffi, iG São PauloOutros formatos de urnas funerárias. Foto: Renan Truffi, iG São Paulo

Enterro ou cremação?

O Pet Memorial é especializado na cremação de animais e, portanto, não oferece a possibilidade de enterro. Apesar disso, no local, são cremados por mês cerca de 600 animais, entre cachorros, gatos, cavalos, aves, roedores. Após a cremação, os clientes podem levar a urna com as cinzas do animal para casa, mas há também a opção de deixar a lembrança no cinerário do local. Neste caso, os donos podem visitar local quando sentirem vontade.

Para os clientes que preferem o tradicional enterro como ato de despedida dos animais, uma opção é o Cemitério Paraíso dos Bichos, onde os restos mortais dos pets são depositados em espécies de gavetas verticais. O custo varia entre R$ 1.000 e R$ 1.300, dependendo do tamanho e peso.

Mais: Superpopulação de cães abandonados ameaça menor aldeia do Brasil

A única recomendação dos especialistas, no entanto, é para que as pessoas evitem de fazer covas para os bichos no quintal ou terreno. Se antigamente este era o destino natural, hoje sabe-se que o corpo de qualquer bicho é formado, em sua maioria, por água. Por conta disso, o cadáver libera aos poucos uma boa quantidade de necrochorume, uma substância tóxica que, se em contato com a água, pode contaminar poços artesianos e lençóis freáticos.

“Tem uma série de laudos mostrando que o necrochorume é altamente patogênico, tem duas substâncias que, em grandes quantidades, é letal”, alerta Luiz Henrique Franco, médico veterinário especialista em Gestão Ambiental e responsável técnico do Pet Memorial.

Leia tudo sobre: enterro de animaispetssão paulocremaçãoigsp

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas