"Quero mudar de vida e cuidar da minha filha", diz mãe interna da Fundação Casa

Por Julia Carolina - iG São Paulo | - Atualizada às

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Onze meninas estão em programa de maternidade; oito se tornaram mães dentro da fundação e três estão grávidas

Na Fundação Casa Chiquinha Gonzaga, 119 adolescentes cumprem medidas socioeducativas, a maioria delas por problemas com drogas. Elas se espalham por dezenas de quartos. Em apenas dois deles, no entanto, as internas são acordadas pelo chororô de bebês.

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Julia Carolina / iG São Paulo
Flávia está detida na Fundação Casa há quatro meses. Ela aguarda pela filha, que está internada desde que nasceu

É que ali, diferentemente das penitenciárias, a mãe não se separa do filho que nasce enquanto ela cumpre a pena. O tempo médio de detenção é de oito meses, mas, se a adolescente ficar três anos detida, tem direito a ficar com a criança. Nos dois quartos, há atualmente 11 meninas, entre grávidas e mães. Entre os crimes, elas foram detidas por furto, roubo, tráfico de drogas e tentativa de homicídio.

Carolina, por exemplo, foi detida por tráfico de drogas prestes a completar 18 anos. Ela está no nono mês de gestação e o bebê é esperado ainda para esta semana. Mesmo sem prazo estipulado para pena, ela prevê que seu bebê começará a engatinhar no pátio da fundação.

A unidade Chiquinha Gonzaga é a única da rede a atender meninas nessa situação. É para lá, no Programa de Acompanhamento Materno-infantil (Pami), que seguem todas as adolescentes detidas quando completam 32 semanas de gestação.

Com um número menor de meninas, o controle e limpeza são diferentes das outras unidades e alas. Flávia fica no espaço especial, mas não carrega nenhum bebê ou está grávida. Está na Fundação Casa há quatro meses e a filha, de um mês e 45 dias, está internada em um hospital desde que nasceu. A adolescente foi usuária de crack antes e durante toda a gestação e só parou usar a droga quando foi detida por furto.

Sua filha nasceu com uma malformação e quase não sobreviveu. “Ela teve que passar por uma cirurgia, mas agora está bem. Foi um susto muito grande. Quando sair daqui, quero procurar um novo modo de viver, a gente sabe que essa vida não compensa”.

Julia Carolina / iG São Paulo
Carolina foi detida por tráfico de drogas prestes a completar 18 anos. Ela está no nono mês de gestação

A psicóloga Ricarda Maria de Jesus trabalha diretamente com as meninas e conta que quando uma menina grávida com problemas com droga chega à fundação eles já começam a trabalhar com ela. “Nós já sabemos que o bebê da menina usuária pode ter problemas de saúde e vai ser mais irritado”, conta.

Além das aulas da escola formal e do curso profissionalizante, o trabalho com as meninas no Pami é feito para que a mãe aprenda a cuidar do filho e também que pense em outras opções quando sair do local. “As meninas costumam ser muito afetivas aqui. Claro, tem aquelas que são mais atentas aos bebês e outras que são menos”, afirma.

Durante o tempo da detenção, elas trabalham também com a família das meninas. “Sempre fazemos intervenção com a família. A menina que vai para fundação é muito abandonada, há casos de famílias que não querem nem falar com a adolescente. Mas vamos tentando o contato. É importante até para que não tenha a reincidência. Muitas delas estão bem”, afirma.

Rebeca, 17 anos, está detida há cinco meses por roubo e grávida de sete. “Eu não gosto daqui, de ficar aqui. Estou presa, né? Mas sei que aqui é melhor que em outras unidades e alas”, conta.

Ela parou de estudar no 2º ano do Ensino Médio, quando foi morar com o namorado, que não gostava que ela fosse para escola. Assim como as demais meninas, o ex-companheiro não sabe que ela está grávida. “Ele estava comigo na hora do roubo e foi preso. Preferi não contar e nem quero mais contato com ele. Ele nunca vai saber que tive a criança. Quero mudar de vida”.

O ex-namorado de Marcela, 16 anos, também não manteve contato depois da detenção, que aconteceu há três meses. A filha está com um mês e 21 dias. A adolescente veio transferida da unidade feminina da Cerqueira César para ter a criança. “No começo não gostei de vir para cá. Eu tinha amigas na outra unidade, ficava com elas”, conta.

Ela foi presa por tráfico de drogas. “Eu era usuária, mas tinha uma grande quantia em casa e me enquadraram como tráfico. Não falo mais com o meu marido, a droga era dele e eu estava sozinha em casa porque ele estava viajando”, afirma.

A jovem morava em Lorena quando foi detida. “Minha mãe ficou muito triste, porque eu já tenho um irmão que está preso há três anos. Quero morar com ela quando sair daqui”, conta.

Na fundação, além do ensino formal (que está em licença para cuidar da criança), ela participa dos cursos profissionalizantes e ajuda na limpeza da ala onde cumpre a medida. “Eu parei de estudar na 6ª série, mas quero terminar os estudos. Gosto muito de maquiar e fazer unhas,vou trabalhar com isso saindo daqui. Quero dar uma boa vida para minha filha”.

*Os nomes usados na reportagem são fictícios

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