São Paulo ganha comida de rua com grife

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Lei que autoriza venda de receitas gourmet nas esquinas da cidade vai passar pela última votação esta semana

Divulgação
Seu Rolando “Massinha” aluga uma vaga no estacionamento de uma loja de lingerie, em Perdizes, para vender comida gourmet

O chefe de cozinha André Mifano explica o prato do dia: carne de porco cortada em tirinhas com shitake ao molho curry acompanhado de arroz de jasmin e acelga. Animada com a descrição, a cliente também aceita o drink. Uma dose de uísque com chá de pêssego e uma gota de limão em um copo grande com gelo até a borda. Ao contrário do que parece, a refeição não foi servida em algum restaurante no Jardins, bairro nobre de São Paulo, mas em um estacionamento na Vila Madalena, zona oeste da cidade.

Conhecida no exterior como food truck, as refeições sofisticadas vendidas em vans, peruas ou caminhões estão prestes a ganhar as ruas de São Paulo, a capital gastronômica do País. A Câmara Municipal deve votar ainda esta semana a permissão para que cozinheiros criativos elaborem seus pratos e os vendam nas esquinas, privilégio dado apenas aos vendedores de cachorro-quente e pastel na feira.

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Veja como funcionam os food truck:

“Para vender esses pratos, a Jameson [marca de uísque que banca a van] precisou alugar o estacionamento”, explica o chefe. “A gente torce para que a regulamentação popularize a comida de rua na cidade.”

É exatamente o que espera Seu Rolando “Massinha” Vanucci, que há seis anos aluga uma vaga no estacionamento de uma loja de lingerie em Perdizes, também na zona oeste. Dono de uma Kombi de cachorro-quente, ele adaptou o veículo para vender comida italiana, como a tortelli de carne, a mezzaluna de muzzarela e o nhoque recheado com quatro queijos. “Conversei com uma televisão da Itália que nunca viu nada parecido em seu país”, diz ele, que emprega sete pessoas com carteira assinada. “Que a lei traga muitos empresários para a rua, mas eles que se preparem porque só os fortes sobrevivem.”

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Rafael Martins, de apenas 31 anos, é prova disso. Depois de trabalhar por sete anos em bares e restaurantes na Europa e conhecer o food truck, ele voltou para o Brasil e montou o King Döner Kebaberia: uma releitura alemã do kebab tradicional feito com pão turco, salada, molhos especiais e recheio de carne vermelha ou frango. “Eu uso 100 gramas de alcatra sem gordura nem nervo e coxa e sobrecoxa sem osso. No molho vai iogurte, ervas finas, e finalizo com queijo de cabra.” O preço? R$ 12.

Depois que a lei for aprovada, Martins planeja espalhar cinco vans pela cidade por meio de franquia. Até lá, no entanto, ele terá de tirar da oficina sua van, no conserto desde que o gerador de R$ 30 mil enguiçou. “Em um único turno, o caminhão gasta a energia equivalente a 20 geladeiras”, diz ele, que desembolsou R$ 240 mil para montar o negócio.

A lei

Autor do projeto de lei, o vereador Andrea Matarazzo (PSDB) acredita que a regulamentação, além de gerar emprego e render tributos para o município, trará “segurança” para o consumidor. “A fiscalização será feita pela Subprefeitura, que vai atestar a qualidade dos ingredientes e a higiene do preparo”, garante. “O mundo inteiro tem food truck. São Paulo, com sua natural vocação gastronômica será em breve um dos grandes endereços para comida de rua no mundo.”

Wanderley Preite Sobrinho/iG
O food truck Jameson precisa alugar estacionamentos para vender comida gourmet em sua van

Previsto para ser votado esta semana, o projeto de lei, que já passou em primeira votação em setembro, só precisa passar pela segunda para que o prefeito Fernando Haddad (PT) a regulamente em até 30 dias.

Enquanto isso, alguns cozinheiros-empresários aproveitam as brechas na lei para montar seu negócio enquanto consumidores substituem as mesas de restaurantes pela calçada, como é o caso da autônoma Tânia Alves, 52, e o publicitário Ivo Almeida, 34, que há três anos saem do Bom Retiro, no centro, para comer iguarias italianas na Rolando Massinha. “Ganhei uns oito quilos desde que conheci a perua”, se diverte Almeida. “A gente vem aqui duas vezes por semana”, conclui Tânia.

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