Cadeias mudam cultura e espalham gírias de prisão em cidade paulista

Por Renan Truffi - iG São Paulo |

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Estudo da USP mostra como interiorização das penitenciárias pode passar valores prisionais para moradores de pequenos municípios do Estado

Em resposta à crise de segurança pública e ao massacre do Carandiru, presídio que chegou a abrigar no auge de sua superlotação mais de 7.200 detentos na capital, o governo paulista iniciou, em 1995, na gestão do ex-governador Mário Covas (PSDB), a construção de novos presídios em São Paulo. Desde aquele ano em diante, mais de 100 unidades prisionais foram entregues em ao menos 67 municípios, sendo que a maioria em cidades pequenas. Mas este processo de interiorização, apesar de gerar empregos, também espalhou a cultura prisional por municípios do Estado.

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Essa é uma das análises feita em uma dissertação de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). O autor e antropólogo Raphael Sabaini, de 34 anos, fez este diagnóstico a partir da realidade do município de Itirapina, localizado a 220 km da capital, que tem cerca de 15 mil habitantes e abriga 3 mil detentos em duas penitenciárias.

Itirapina, localizado a 220 km da capital, tem cerca de 15 mil habitantes e 3 mil detentos em duas penitenciárias. Foto: Raphael Sabaini/DivulgaçãoA Penitenciária 1 fica na parte alta da cidade. Foto: Raphael Sabaini/DivulgaçãoPor todo lado, há placas que indicam direção das cadeias. Foto: Raphael Sabaini/DivulgaçãoDetentos fazem limpeza das ruas. Foto: Raphael Sabaini/DivulgaçãoMoradores se trancam em casa até que os presidiários avancem para outras ruas. Foto: Raphael Sabaini/Divulgação

“Percebi como esse processo de interiorização do governo do PSDB tentou pulverizar à força o crime. Tentou descentralizar tudo o que estava no Carandiru. Na verdade, (o governo) achou que fosse enfraquecer o crime, mas isso acabou sendo um multiplicador da cadeia”. E, segundo Sabaini, o fenômeno de Itirapina pode ocorrer em outras cidades. “O cotidiano gira em torno das penitenciárias. A cadeia influencia as relações. A própria dinâmica social e municipal gira em torno das prisões”, explica.

Glossário da cadeia

Como muitos familiares de detentos e agentes penitenciários também vivem em Itirapina, por conta das cadeias, as gírias da prisão acabaram se disseminando entre pessoas que têm relação direta ou indireta com estas pessoas. Palavras que são desconhecidas para quem vive em São Paulo, por exemplo, passaram a fazer parte do vocabulário da população de Itirapina. São vários os exemplos notados pelo antropólogo enquanto ele esteve na cidade.

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É comum, para se ter uma ideia, que as pessoas da cidade se referirem à sacola com comida como “jumbo”, que é o mesmo nome dado pelas parentes de presos para a cesta de alimentos levada em dia de visita. “Aqui em São Paulo, ninguém não vai saber o que é isso. É uma coisa tão internalizada. As pessoas são simples no interior e, como a vida gira em torno das prisões, tem esses detalhes”, conta.

Outra gíria que costuma sair da boca dos moradores do município é “bonde”, que é como eles chamam quando o furgão da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) passa pelas ruas da cidade, com detentos dentro, escoltado por viaturas da polícia.

Há ainda os moradores incorporaram a palavra “gatorade”, em referência a uma mistura de cocaína e outros estimulantes, usada por presos, para matar inimigos dentro da cadeia. A bebida disfarça o assassinato por gerar os mesmos efeitos de uma overdose. “É só você falar ‘gatorade de cadeia’ que o pessoal vai entender que é um preparado para matar presos rivais”, complementa. Mas, tem também outras expressões que já percorreram o interior e são mais conhecidas em cidades grandes. Este é o caso de “é nós que tá”, frase dita quando um grupo de presos ou facção está no comando e domina, naquele momento, a prisão.

Status

Um dos fatores para a disseminação do vocabulário prisional é justamente a proliferação de agentes penitenciários por essas cidades. Raphael Sabaini concluiu que as cadeias no interior estão formando uma nova categoria social, formada por estes agentes de segurança. Em Itirapina, por exemplo, a profissão é vista como forma de ascensão social. Segundo o antropólogo, os jovens almejam o cargo por “status”.

Raphael Sabaini/Divulgação
O antropólogo Raphael Sabaini

Isso porque, em algumas cidades do interior de São Paulo, o mercado de trabalho é limitado a alguns segmentos e a profissão é vista como única chance de conseguir carro, casa e estabilidade financeira, ainda que o salário inicial, entre R$ 2.000 e R$ 2.200, seja considerado baixo para os parâmetros de cidades grandes. “Eu fui na escola da cidade e 80% dos alunos da turma que estava no 3º ano do ensino médio disseram que pretendiam prestar concurso para agente. É uma profissão com certo status, com certo prestígio”, afirma. O próprio comércio da cidade reconhece esta nova categoria e oferece, inclusive, prazos especiais de pagamento para quem é concursado. “Eles (os comerciantes) dão 10 dias a mais no crediário para os agentes.”

Além do aspecto financeiro, de acordo com Sabaini, ser agente traz alguns tipos de conhecimentos que são bem vistos nestas cidades. Ter conhecimento da estrutura da cadeia, do mundo do crime e, principalmente, de como funciona o PCC é algo respeitado pelos moradores. Até porque alguns fazem bicos como segurança nos estabelecimentos da cidade. “Muitos se gabam por esse conhecimento da cadeia, do crime, da gíria dos presidiários”, afirma.

Insegurança e preconceito

Ainda que haja algum glamour em relação aos que trabalham diretamente com a cadeia, seja por conhecimento do crime ou por poder aquisitivo, as situações acarretadas pela presença dos presídios na cidade também geram sentimentos e posturas negativas na população. Isso se reflete em como os moradores tradicionais veem tanto os parentes dos presos que moram na cidade como usam o município como dormitório nos dias de visita, segundo o estudioso.

Há por exemplo um bairro mais pobre da cidade que fica na parte mais alta do terreno, entre as duas penitenciárias. A comunidade foi formada, em parte, por familiares de detentos que se mudaram por conta das penas. “Essa população é carente de recursos e fica muito estigmatizada pelos outros moradores. Muitos não gostam, consideram como bairro de parentes de preso”, conta.

Alguns moradores locais fogem, inclusive, dos parentes de presidiários que vão sazonalmente à cidade. O antropólogo conversou com moradores que assumiram terem assimilado na rotina o costuma de não ir nunca ao único supermercado do munícipio de sábado. O objetivo é evitar as “mulheres de presos”, como são chamadas de forma generalizada as mães, esposas ou irmãs dos presidiários.

Isso sem contar a tensão gerada entre os moradores da cidade em dias de induto, quando detentos podem sair temporariamente da cadeia, e nas vezes em que presos que cumprem regime semiaberto passam pelas ruas varrendo a cidade, como forma de diminuição de pena. Quando isso acontece, muitos habitantes deixam a casa inteira trancada até os presidiários irem embora. “Os moradores mais tradicionais têm um sentimento de pertencimento em relação ao município. Tem um comerciante que disse uma vez para mim: ‘Nessa cidade, está todo mundo preso. Os presos, os agentes que se prendem na cadeia e nós, que estamos presos aqui porque dependemos do dinheiro das mulheres dos detentos’.”

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