Artigo: Nova York fica mais parecida com São Paulo, e a esquerda faz o prefeito

Por Paulo Ghiraldelli - Especial para o iG |

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Com uma diferença que faz toda a diferença: a América dos últimos cinquenta anos só melhorou seus índices educacionais, em termos gerais, e nós só pioramos

Roma se aproxima de Jerusalém. Ou em outras palavras: demorou, mas o centro do império apresentou sintomas iguais aos da periferia. Nova York está com mais de 40% de seus habitantes vivendo na pobreza. Em resposta, Nova York elegeu Blasio.

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Blasio não é apenas um político de esquerda dentro dos padrões americanos, ou seja, alguém que precisa se preocupar com direitos de minorias e liberdade individual, e que, portanto, fica confortável tendo uma esposa negra, ativista social e que deixou um casamento lésbico para ficar com ele. Ele é de esquerda também para padrões europeus e, arrisco dizer, para padrões do chamado Terceiro Mundo. Sua preocupação é com algo central no contexto atual da vida americana: há um nítido escoamento de pessoas para fora da classe média. Há uma concentração de renda em Nova York que é esquisita dentro do quadro do American Dream, e verifica-se um aumento da pobreza mais esquisita ainda em um clima em que ainda valeria o American Way of Life - algo que muitos nova-iorquinos não deixaram de lado. Essas pessoas mais pobres, agora, começam a acreditar que precisam de um governo de estilo antes social-democrata que simplesmente liberal renovado, como até então existia no Partido Democrata.

Enfim, a fantasia da Era Reagan acabou de vez. O ideal do sofisticado filósofo Robert Nozick, de uma sociedade em que qualquer princípio de taxação dos ricos em favor dos mais pobres é considerado injusto e até crime, sucumbiu e não voltará à cena durante um bom tempo. O cidadão de Nova York quer um governo presente. Onde? Eu explico.

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O cidadão de Nova York sabe que a cidade como potência econômica pode lhe dar uma vida melhor. Ele quer essa vida melhor. Ele quer que Blasio consiga fazer o que prometeu: que realmente possa taxar os mais ricos e canalizar esse dinheiro de modo que o transporte público de um governo de esquerda sirva realmente aos que precisam dele para o ir ao trabalho. Quer que a polícia aborde o cidadão sem ofensa, principalmente o negro e o latino. Quer que a escola volte a promover alguma ascensão social real. Quer aquilo que os ricos não querem que Obama faça, ou seja, a implantação de um sistema público de saúde que tire a América de uma condição distante de outros Estados de Bem Estar Social.

O nova-iorquino deu um passo decisivo, diferente: começa a acreditar que o “ self made man” é possível se o governo não fica apenas neutro, mas passe a governar. Até então, governar, mesmo no campo da esquerda nos Estados Unidos, era taxar menos todo mundo e proteger minorias. Agora, a esquerda americana se aproxima da retórica que, fora dos Estados Unidos, ainda se chama socialista, mesmo que não vá socializar nada, não nos termos dos descabelados do mundo todo que gritam “uní-vos”.

Quando Lincoln ganhou as eleições na América, Marx escreveu uma carta cumprimentando-o pela vitória. A carta dizia que para o lugar que os trabalhadores do país da bandeira listrada caminhassem, os trabalhadores do mundo todo também iriam. Isso estava em acordo com a ideia de que o centro do capitalismo sempre mostraria a tendência para todo o capitalismo. Essa tese esteve nublada durante um tempo, mas desde a Queda de Muro e o fim do comunismo, mutatis mutandis ela começou a valer novamente. A alteração da retórica dos Clinton mostrou isso. A eleição de Obama também. A vitória de Blasio é sinal mais que forte disso. Bem vinda, América, à política classista novamente!

O que isso pode ensinar ao Brasil?

O Brasil em termos formais está como os Estados Unidos. Um governo de esquerda no plano federal e sua repetição na cidade de São Paulo. Os problemas gerais, pela primeira vez na história, são semelhantes: há arrecadação (e aporte do federal ao municipal), mas o setor público não dá para nós a vida que achamos que merecemos. E isso quase que nos mesmos pontos críticos, em Nova York e São Paulo. Com uma diferença que, enfim, faz toda a diferença: a América dos últimos cinquenta anos só melhorou seus índices educacionais, em termos gerais, e nós só pioramos.

O jovem americano do pós-Guerra não lia como o Europeu , mas hoje ele supera o europeu. O americano médio lê mais livros por ano que seu correspondente na França e na Alemanha. O americano médio lê 9 livros a mais, por ano, que o brasileiro equivalente. Isso altera não só o grau de informação do americano em relação a nós, e mesmo em relação aos europeus, mas altera fundamentalmente a sensibilidade do americano médio a reformas sociais. Gente educada pela leitura de bons livros tende a ser mais compreensiva com benefícios sociais dados a outros, quando isso somado ajuda todos.

Não estou repetindo aqui um dogma iluminista pouco válido, que diz que quanto mais educação mais consciência crítica. Isso é banal e, em geral, não funciona muito bem. O que estou dizendo é que, no campo sociológico, a mensuração aponta que o americano, ao se tornar leitor, passou a ver com menos problema uma esquerda que não mais só defende minorias, mas volta a defender os pobres, como ocorre no resto do mundo.

É claro que muitas minorias estão no interior do conjunto dos pobres, mas são políticas diferentes que se aplicam para cada setor. A seu favor, as minorias recebem uma política nascida na América, enquanto que os pobres, por sua vez, recebem a seu favor uma política nascida na Europa. Em termos teóricos, poucos intelectuais esperavam que isso ocorresse na América. Marx, Dewey e Rawls apostaram nessa via, que agora se realiza. É justamente neles que os intelectuais de hoje poderão procurar alguma coisa que possa dar elementos para Blasio, se é que diante da urgência das coisas, ele ainda precise de uma retórica justificativa para o que vai fazer. Não creio que precise.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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