Artigo: 'Não se fazem mais intelectuais como Carlos Lacerda'

Por Paulo Ghiraldelli - especial para o iG | - Atualizada às

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Como todo homem de direita de escrita agressiva, ele era tido como “a raposa” pela esquerda e como “o inteligente” pela classe média conservadora do Rio, diz filósofo

Carlos Lacerda chutava e ia para o gol ao mesmo tempo. Caso fosse necessário, poderia também bater um tênis, um voleibol, um basquete e tentar o pentatlo. Enquanto a esquerda, sob o invólucro populista de Vargas-Jango-Brizola, adotava uma nítida divisão do trabalho, separando os políticos dos intelectuais articulistas, a direita tinha Lacerda. Não precisava mais que isso.

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Dizia-se na época, não só em meios de esquerda, que seu comportamento de vedete era devido antes a uma orientação sexual - uma alusão a um possível homossexualismo - que a qualquer real competência intelectual. Todavia, como todo homem de direita de escrita agressiva, ele era tido como “a raposa” pela esquerda e como “o inteligente” pela classe média conservadora do Rio de Janeiro. Ele não era fraco não!

Se a história fosse feita só pela vontade dos homens, principalmente dos que vivem da política e para a política, teríamos de dizer, hoje, que Carlos Lacerda criou o Brasil moderno. Isso porque ele insistiu no Golpe de 1964 várias vezes antes de 1964. Ele foi a alma do Golpe, Castelo Branco o corpo. O regime militar, sabemos bem, deu um contorno característico ao Brasil que temos.

O Golpe de 1964, chamado pela direita de “Revolução Redentora”, pois teria nos salvado de algo que nunca efetivamente nos ameaçou, isto é, o comunismo (os comunistas nunca passaram de meia dúzia de gatos pingados), acabou depois devorando o próprio Lacerda. Também cassado pelo novo regime, ele fez aquilo que todo político faz e que não espantava ninguém, mas que hoje faz os jornalistas fingirem ter um chilique quando ocorre: alianças com os até então adversários. Procurou Brizola, JK e outros para tentar tirar os militares do poder, organizando o que se chamou de “Frente Ampla”. O projeto foi abortado pelo endurecimento do regime militar por meio da força do AI-5.

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Não há nenhum intelectual de direita, hoje, capaz de repetir Carlos Lacerda. São anões perto dele. Todavia, há de se confessar, ele tinha um trunfo que os de hoje não possuem: o anticomunismo. Vivia-se a Guerra Fria e uma classe média apavorada com a inflação e a proletarização acabava realmente acreditando que submarinos russos, a qualquer momento, poderiam não só atracar no Rio de Janeiro como também, sabe-se lá como, vir do Porto de Santos para o Tietê. Escrever à direita, então, era mais fácil. No cotidiano, bastava enxertar alguns parágrafos sobre corrupção governamental da esquerda em um texto já pronto, que ferozmente dava combate ao monstro devorador que vinha de Moscou. Essa era a fórmula.

Carlos Lacerda não tinha que enfrentar a relativa sofisticação da política liberal-democrática e de esquerda de hoje em dia. Atualmente, as plataformas da política liberal-democrática e de esquerda não se nutrem mais da retórica revolucionária. Ninguém mais é comunista. Ninguém mais acredita em comunismo, a não ser a Revista Veja, que segura o defunto inimigo para que ela própria possa sobreviver ideologicamente (aliás, uma tonteira, pois é uma revista que sobreviveria até melhor sem isso). Hoje, a política liberal-democrática e de esquerda abriu um leque duplo, não só de cunho europeu, mas também de matriz americana. As coisas ficaram mais complexas.

Da Europa aportou aqui a tradição social democrata, as disposições do Welfare State como alguma coisa que, se não é para ser posto inteiramente para funcionar, ao menos dá algum norte para certas políticas sociais e para o que foi o nosso trabalhismo e o início do petismo. Da América recebemos a política de direitos de minorias associadas às várias formas de “ação afirmativa”. Tudo isso aglomerado energizou o espectro político que vai do centro direita para a esquerda. Os intelectuais de direita precisam, hoje, entender dos inúmeros assuntos que compõem as pautas variadas desses dois ideários, o europeu e o americano. Para eles isso não é fácil. Mais fácil, claro, seria acusar todo mundo de comunista e pronto. Mas o tempo de Lacerda acabou. Lacerda o aproveitou bem.

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É claro que, em um primeiro momento, que agora já está acabando, o trabalho da direita era só o de inverter as setas. Por exemplo: uma medida trabalhista voltada para ampliar direitos da mulher gestante era fácil combater, bastava dizer que aquilo iria gerar o desemprego, ninguém mais iria empregar gestantes ou mesmo mulheres. Outro exemplo: uma cota para negros bastava dizer que isso não combateria o racismo, mas, ao contrário, isso é que seria o racismo. Sim, foi fácil falar essas coisas. Mas, fácil no início. Pois aos poucos isso começou a parecer o que era: uma retórica um tanto burra. Claro que essa retórica ainda tem adeptos. Mas estamos num período de começo de transição. Os jovens de direita vão ter que estudar mais. O que está aí, não é páreo para o chulé do Carlos Lacerda, e não tem fôlego para o que virá de mais complexo.

Caso exista mesmo essa nova classe média que o Lula diz que ele, com uma política de um único tiro, realmente criou, e que isso tenha sido criado para durar, mais cedo ou mais tarde, ainda que de um modo lento, talvez esse povo todo queira ter alguma educação. Então, se a escola pública voltar a ter uma melhora mínima, e se o salário do professor voltar a ter uma atratividade melhor que a renda do pipoqueiro de frente da escola, tudo ficará mais difícil para os intelectuais da direita (da esquerda, outro dia eu falo).

Que a direita não acredite que um dia terá de volta a possibilidade de usar a retórica fácil do anticomunismo. Que a direita não acredite que essa retórica de combate ao “politicamente correto”, massificada, pode continuar dando frutos por mais que dois ou três anos. Mesmo em um país desescolarizado, essa retórica é tão batida que vai acabar enjoando os seus simpatizantes menos estúpidos. Na América ela já se foi faz tempo.

O título “politicamente correto” ficou marcado negativamente. Mas o conteúdo não. Nisso, a direita continua perdendo espaço, se olharmos as estatísticas. Todos os índices mostram que nossa sociedade, de 2009 para cá, se tornou mais tolerante (e mais desejosa de apoio estatal). Claro que ficou mais violenta também. Mas violência e tolerância não necessariamente se opõem. Há mais gente hoje do que ontem que quer aposentadoria melhor e aportes públicos na saúde e na escola. Há mais gente hoje do que ontem que é adepta do respeito às bandeiras do feminismo, mesmo que a palavra “feminista” possa ser alvo de piada. Há mais pessoas hoje do que ontem simpáticas às causas de negros e portadores de necessidades especiais. Há uma crescente compreensão social da necessidade de respeito aos animais não racionais e de acolhimento de causas ecológicas. Isso sem falar na amplitude das causas de gays e outras minorias correlatas. Além disso, por um lado, o aparato legal em defesa de minorias cresceu, e por outro, o que veio da Constituição de 1988 em favor de direitos trabalhistas não foi desmontado. A política está menos dual.

A direita hoje pode vender livros como Carlos Lacerda vendia. Há uma parcela da população que se acha inteligente ao defender a supremacia branca e o ideal, antes retórico que real, de do “self made man” - às vezes mais uma caricatura que um ideal. Nem sempre são os ricos e com sucesso os que se posicionam ferozmente junto dessa plataforma. Muitas vezes são justamente os escolarmente fracassados, não raro pobretões, juntos com gatos pingados de profissões ditas “liberais”, onde ainda há uma crosta conservadora. Nesse campo, os homens compram Bruna Surfistinha e podem também consumir livros da direita política, enquanto ficam se fazendo de fiéis para suas esposas ao lerem juntos “50 tons” sabe-se lá do que. Mas essa camada da população não cresce eleitoralmente. Carlos Lacerda aprendeu isso a duras penas. Mas o tempo dele e ele próprio se foram. E agora, o que se está esvaindo, também, é o tempo da primeira e da segunda geração de articulistas de direita pós-Lacerda. Não estão em decadência, ainda, mas chegaram ao pico, não há mais por onde subir.

Outro dia faço os comentários sobre a esquerda. Mas, o que falar da esquerda? Que ela agora resolveu também correr para pegar black bloc na rua? Vale a pena comentar isso?

***

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Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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