Inspirada na Rocinha, 2ª maior favela de São Paulo cobra R$ 150 por passeio

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Roteiro por Paraisópolis mostra arte e superação de moradores - e não oculta o crime que ocorre nas vielas

Com mais de 100 mil moradores, a comunidade Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, decidiu abrir suas sinuosas e infinitas vielas aos turistas. Apostando em seu - ainda desconhecido - valor cultural e no sucesso do conceito “favela tour”, aplicado no Rio de Janeiro, a União de Moradores e do Comércio de Paraisópolis (UMCP) desenvolveu o roteiro "Paraisópolis das Artes" para explorar o orgulho da favela e de seus moradores, que deixam de ser vitimados pelas condições de moradia e passam a ser conhecidos pela própria superação.

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Acompanhe um trecho da visita com o guia Higo Carvalho:

Para realizar o passeio, que foi oficializado há um mês, o interessado desembolsa R$ 150. O valor do ingresso é quase totalmente revertido para a comunidade, entre o salário do guia, artistas e material de divulgação. Os turistas - a maioria formada por estrangeiros e estudantes - são acompanhados pelo guia cultural Higo Carvalho, de 22 anos, que é morador de Paraisópolis. "Aqui não é como o Rio que tem a paisagem [da Baía de Guanabara], Paraisópolis chama a atenção por seus artistas."

A comunidade, que ocupa uma área de 800 mil m², sempre teve seu espaço garantido na imprensa por sua dimensão ou por episódios de violência. O roteiro tem o objetivo de mudar isso. "A favela também tem gente do bem, trabalhadora, não é só o que a mídia mostra. Tem aquela parcela ruim, mas é muito pequena", defende Higo enquanto passa com o iG por um ponto de venda de drogas. 

Conheça as principais atrações de "Paraisópolis das Artes":

Casa de Pet, de Antenor Clodoaldo, impressiona pela riqueza de detalhes e criatividade. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEntrada da casa de Antenor e o número de garrafas utilizadas na construção da casa, 25.670. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloUma das escadas da casa tem o teto revestido de pets sincronizadas. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEm seu terraço, Antenor construiu quiosque, banco e área de descanso. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloCom tampinhas, o artista construiu réplica da própria casa e uma grua, que representa os trabalhos com construção civil. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloDesde 2008, Antenor decidiu dar mais cor à favela e construiu "Casa de Pet", com mais de 26 mil garrafas descartáveis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloDetalhe em vidro com a data 22/09/1981, quando o artista começou a vida na capital paulista. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloFiguras de mulheres enfeitam o quarto do solteiro Antenor. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAlém de decoração, pets brancas ganharam a função de porta-sapatos. 'Não gosto de deixar sapatos jogados', diz. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAo fundo, uma peça que aguarda finalização. 'A marca que eu usava agora trocou por tampinhas verdes, não deu para continuar'. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloQuando pensa em um projeto, Antenor calcula o número de tampinhas que irá precisar . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO artista prestou uma homenagem ao primeiro prédio onde trabalhou como pedreiro em São Paulo. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMeninas do projeto Ballet Paraisópolis durante aula na sede da União dos Moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMeninas do projeto Ballet Paraisópolis durante aula na sede da União dos Moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMeninas do projeto Ballet Paraisópolis durante aula na sede da União dos Moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloProjeto Ballet Paraisópolis foi montado pela bailaria Monica Tarragó, com blusa cinza à direita. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloMaestro Paulo Rydlewski, diretor da Orquestra Filarmônica de Paraisópolis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloPaulo durante aula de teoria musical. Para ele, Paraisópolis deveria ganhar o título de bairro. Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo'Como chamar de favela um lugar que tem orquestra?', questiona o maestro. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAs jovens violinistas Thaís Melo, de 17, e Francisca Mirelle, de 18. . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloUma atração para emocionar é conhecer os dons musicais dos jovens da comunidade. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloUma das principais atrações do roteiro é a Casa de Pedras, construção de Estevão Conceição, o Gaudí brasileiro. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO baiano Estevão já foi convidado para conhecer a obra do verdadeiro Gaudí, na Espanha. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloPratos, bules e canecas fazem parte da decoração da casa. Estevão divide a casa com a mulher e duas filhas. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEstevão e a mulher Edilene na parte central da Casa de Pedra. Ela está animada com o reforço de visitantes. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO artista mostra a parte "Casa das Estrelas", parte onde mora com mulher e filhos . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloTodas as paredes da casa receberam a decoração inusitada. Telefones, carros, espelhos podem ser vistos nos detalhes. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEstevão também fabrica vasos usando a mesma técnica. "Os gringos adoram, acham exótico", disse. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEle exibe também um de seus quadros, o Pantanal. Todos os objetos são oferecidos aos turistas durante o tour. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloQuadros ficam armazenados no segundo andar da Casa de Pedra, ao lado da cozinha da família. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloQuarto da filha Stephana, de 18 anos, a Miss Paraisópolis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEstevão posa no jardim suspenso da casa, onde cultiva diversas plantas. "É relaxante ficar aqui". Foto: Carolina Garcia/iG São PauloOutro artista da comunidade é Berbela, famoso por suas esculturas com peças automotivas e recicláveis. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloBerbela luta com a falta de espaço para armazenar suas mais de oito mil peças. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloEntre suas criações estão as bicicletas em miniaturas. Cada peça pode sair por R$ 150 aos turistas. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO artista plástico mostra com orgulho uma de suas peças, a piranha. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloRecentemente, Berbela criou o jogo de jantar com seis cadeiras usando vários tipos de metal, entre eles moedas e peças de carros. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloA maioria das peças do mecânico é de animais, como a raposa com o nome de Berbela. Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo"Eu tenho uma igual a sua", disse Berbela ao mostrar reprodução de uma câmera fotográfica. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloParaisópolis das Artes. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloComunidade Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo, com mais de 100 mil moradores. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloGuia cultural Higo Carvalho, de 22 anos. Ele é o responsável pela seguranças dos turistas. . Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO roteiro passa também pela Viela Souza, onde está sendo construída a Escola de Música do Grotão. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloO roteiro passa também pela Viela Souza, onde está sendo construída a Escola de Música do Grotão. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloOutro ponto do roteiro com obra de urbanização é a construção do Parque Sanfona e o Condomínio E, que recebeu selo azul da Caixa (padrão sustentável). Foto: Carolina Garcia/iG São Paulo

Para Gilson Rodrigues, presidente da UMCP, a ideia do passeio surgiu para derrubar os preconceitos e o muro que divide Paraisópolis da cidade de São Paulo, e também revelar a nova fase da região. "Paraisópolis como 'favela' carrega uma série de preconceitos que nem sempre são reais e que, na maioria das vezes, só existem na cabeça das pessoas de fora", defende. 

De acordo com o Censo 2010, em dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem mais de 17 mil domicílios espalhados pelas inúmeras rotas da favela. Só fica atrás da comunidade Heliópolis, também na zona sul da capital, que tem ao menos 18 mil casas. Os números são considerados defasados pela UMCP e por Higo, que foi enfático ao dizer que é impossível mapear a comunidade. “Aqui é uma cidade dentro de outra cidade, em constante crescimento. Tem muitas crianças pequenas e em cada viela há inúmeras moradias. Não duvido se descobrirem barracos embaixo da rua”, diz o guia. 

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Paraisópolis nasceu nos anos 20 de um loteamento de 2.200 pequenos terrenos. A área, chamada de Fazenda do Morumbi, permaneceu desocupada por mais de duas décadas até ser invadida e ver brotar suas primeiras moradias.

Carolina Garcia/iG São Paulo
Casa de Pet, de Antenor Clodolado, é uma das atrações do roteiro "Paraisópolis das Artes"

Atualmente, a comunidade tem sua própria rede de supermercados, açougue e uma das unidades mais lucrativas da rede das Casas Bahia.

Inspiração carioca

O turismo no interior de favelas não é novidade no País. O primeiro passeio foi realizado na favela da Rocinha, a maior do Brasil, há mais de duas décadas. A ideia foi colocada em prática pela companhia Favela Tour, que fez sucesso no ramo e deu oportunidade para mais empresas. Outro roteiro recomendado por albergues e hotéis cariocas leva o nome de Exotic Tours, que afirma explorar o lado exótico das comunidades carentes.

A instalação das primeiras UPPs (Unidades Pacificadoras de Polícia), processo que começou em 2008, deu coragem aos turistas curiosos que eram afastados pela violência. Morro Santa Marta, em Botafogo, Prazeres, em Santa Tereza, e Vila Cruzeiro, na Penha, passaram a integrar a rota turística da capital fluminense. Em Paraisópolis (SP), o trajeto é realizado a pé. Já no Rio, o turista pode escolher entre os chamados “walk tours”, jipes e mototaxistas.

Nesta terça-feira (22), o leitor do iG conhecerá a história do morador Estevão Conceição, o Gaudí brasileiro, que construiu um 'castelo de pedra' dentro da favela. 

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