Sem autorização da Prefeitura, chineses criam concorrente da Feira da Madrugada

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Complexo com 1.300 lojas, cinco restaurantes e banco é opção para ambulantes impedidos de trabalhar por causa de reforma no tradicional ponto de vendas no Brás

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Antiga cooperativa de laticínios está em reforma para receber as cerca de 1.300 lojas

Enquanto a Prefeitura de São Paulo descumpre pela segunda vez o prazo determinado pela Justiça para entregar a reforma da tradicional Feira da Madrugada, no Brás, perto dali um grupo de cinco chineses prepara o que promete ser o maior concorrente do tradicional centro de comércio popular: uma feira com 1.300 lojas na rua Gomes Cardim, onde funcionava uma fábrica da Cooperativa Central de Laticínios do Estado de São Paulo (CCL).

Leia: Sem trabalho, ambulantes da Feira da Madrugada tomam as ruas do Brás

O empreendimento, porém, não recebeu autorização da Prefeitura para funcionar. Procurada, a Subprefeitura da Mooca afirmou que fará uma vistoria no local "na próxima semana".

Sem se identificar, a reportagem do iG visitou as obras da feira. Segundo o responsável pela venda dos boxes, o terreno adquirido em julho estará pronto para receber clientes já no dia 15 de novembro, data prevista para inaugurar o que os chineses planejam batizar de Shopping CCL Brás.

Fachada da futura concorrente da Feira da Madrugada, onde antes funcionava uma fábrica da Cooperativa Central de Laticínios do Estado de São Paulo (CCL). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São PauloO complexo terá cinco restaurantes, oito lanchonetes, além de uma agência bancária no segundo piso e espaço para 100 ônibus. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São PauloOs chineses vão cobrar R$ 250 por mês pelo metro quadrado da loja, que varia de 4 m² (R$ 1000 por mês) a 70 m² (R$ 17,5 mil) . Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São PauloAntiga cooperativa de laticínios está em reforma para receber as cerca de 1.300 lojas. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGNa manhã do dia 13 de outubro, tratores derrubaram irregularmente cerca de 50 dos 100 boxes de alvenaria que já estavam construídos antes da reforma. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São PauloAssim que flagraram a derrubada, um grupo de vendedores recorreu à Justiça Federal, que às 11h32 daquele mesmo domingo intimou o responsável pela obra. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São PauloEmpresários se aproveitam da marca “Feira da Madrugada” e batiza seus espaços com esse nome, como o “Azulão – o Feirão da Madrugada”. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São PauloCom o fechamento da Feira da Madrugada, a demanda por boxes transformou antigos estacionamentos em loja, como esta da foto. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG São Paulo

Até agora, 70% dos boxes já foram vendidos. Os proprietários pretendem cobrar R$ 250 por mês pelo metro quadrado da loja, que varia de 4 m² (R$ 1.000 por mês) a 70 m² (R$ 17,5 mil). Se quiser garantir um lugar no Shopping CCL pelo prazo de um ano, o comerciante também terá de desembolsar R$ 10 mil de “luvas” pelos espaços mais bem localizados (ou R$ 6 mil, no caso das lojas nos fundos do complexo).

De acordo com os proprietários, o empreendimento terá cinco restaurantes – com comida chinesa, boliviana, coreana e brasileira – e oito lanchonetes, além de uma agência bancária no segundo piso e espaço para receber cerca de 100 ônibus repletos de compradores de todo o Brasil.

Alternativa
Sem trabalho desde que a prefeitura lacrou a Feira da Madrugada, em maio, muitos de seus vendedores estão aderindo ao negócio chinês. Embora o novo ponto seja mais caro do que o antigo, o aluguel de um box de 4 m² em galerias da mesma região sai pelo dobro do preço (R$ 2 mil).

Leia mais: Veja como funcionava a Feira da Madrugada

Membros da Comissão Permanente dos Ambulantes (Copae) estimam que 30% dos trabalhadores da “feirinha” alugaram salas em galpões da região, enquanto o restante arrisca suas mercadorias vendendo nas ruas.

Alguns empresários se aproveitam da marca “Feira da Madrugada” e batiza seus espaços com esse nome, como o “Azulão – o Feirão da Madrugada”, que está cadastrando interessados em uma de suas 580 lojas de produtos eletrônicos.

Outros apostam no modelo itinerante da feira, no qual o comerciante faz um cadastro semanal e desembolsa R$ 300 (R$ 100 de sinal) para vender seus produtos em algum bairro da cidade. O próximo contará com 70 vendedores, que vão transportar suas mercadorias para vendê-las no Jardim Colombo, na zona oeste, de hoje a domingo.

Justiça adverte a prefeitura
Enquanto os cerca de 4.500 comerciantes da feirinha tradicional tentam reaver o antigo endereço, a prefeitura adiou pela segunda vez o prazo para entregar o espaço, fechado desde o dia 10 de maio para reformas hidráulicas, elétricas e de alvenaria. As obras, no entanto, só começaram em julho, gerando uma briga entre os comerciantes e o município, que foi judicialmente obrigado a reabrir a feira no dia 4 de setembro, prazo não cumprido.

Em nova audiência, a prefeitura se comprometeu a finalizar as obras até o dia 15 de outubro, o que não aconteceu. A caixa-d'água de 54 mil litros, por exemplo, só foi entregue na última quinta-feira (17).

Wanderley Preite Sobrinho/iG São Paulo
Na manhã do dia 13 de outubro, tratores derrubaram cerca de 50 boxes da feirinha

O clima entre comerciantes e a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras voltou a esquentar na manhã do dia 13 de outubro, quando tratores derrubaram cerca de 50 dos 100 boxes de alvenaria que já estavam construídos antes da reforma.

Assim que flagrou a derrubada, um grupo de vendedores recorreu à Justiça Federal, que no mesmo dia intimou o responsável pela obra a interromper a demolição sob pena de arcar com uma multa de R$ 600 mil.

A juíza Katia Lazarano Roncada tomou essa decisão baseada em outra audiência, do dia 27 de junho, onde consta: “a questão relativa ao 'Terrão' [como é conhecido a região dos boxes de alvenaria] será objeto de apreciação em momento oportuno”.

Leia tudo sobre: feira da madrugadachinesesigspcomércioambulantescamelôs

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas