Coordenador de conselho de controle de experimentação animal diz que cães usados em experiências científicas só devem ser adotados após aval de veterinários

O cientista Marcelo Morales alerta que os cachorros da raça beagle retirados do Instituto Royal , em São Roque (SP), podem representar um risco à população, caso eles sejam doados para famílias. O cientista é coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia que regula o uso de animais em experiências científicas no País.

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Na madrugada desta sexta-feira (17), um grupo formado por integrantes de diversas ONGs em proteção aos animais resgatou beagles usados em testes Instituto Royal. O grupo denuncia que os animais do biotério sofriam maus tratos. Outras versões afirmam que a ação foi motivada pelo fato de que os animais seriam sacrificados. Essas denúncias já estão sendo apuradas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.

Assista ao vídeo com o resgate de beagles em laboratório

“Parece uma ação caridosa, mas estes animais podem representar um risco para a população. Eu não sei que experimentações foram feitas no Instituto Royal, mas animais usados em testes são inoculados com vírus, patógenos, ou medicamentos que podem contaminar a população. Por isto que eles são confinados, e as pessoas que trabalham lá são todas paramentadas, tanto para não contaminar os animais e também para não serem contaminadas”, disse.

Morales explica que animais usados em teste só podem ser adotados por famílias dependendo da experimentação que foram submetidos e apenas após o aval de veterinários. Quando é determinado que os animais representam riscos à população, por exemplo, os animais são sacrificados após a experimentação.

Entenda: Por que Beagles são usados em testes?

Na manhã desta sexta-feira, o grupo que fez o resgate anunciou nas redes sociais adoção dos cachorrinhos resgatados. Interessados ainda poderiam apadrinhar os animais, doando alimentos e medicamento. De acordo com a página na rede social, os beagles dispostos para apadrinhamento possuem chip de identificação e há ordem judicial para pegá-los em clínicas veterinárias para serem devolvidos ao Instituto Royal.

Veja imagens do resgate de animais:

Denúncia infundada

Morales afirma que o Instituto Royal tem toda a certificação necessária para fazer os testes e que os protocolos de pesquisa foram aprovados pelo Conselho de Ética do Concea. “É uma denúncia vazia. O instituto está regularmente credenciado junto ao conselho nacional e segue à risca as normas ditadas pelo Conselho Nacional de Experimentação Animal, o Estado brasileiro e as normas internacionais”, defende.

Desde 2008, quando foi publicada a lei Arouca, que regulamenta a experimentação animal no País, as instituições que usam ou criam animais para fins científicos devem estar registradas e criar suas Comissões de Ética no Uso de Animais (Ceua), formada por pesquisadores e integrantes da sociedade de proteção aos animais, que tem como função examinar se os experimentos estão de acordo com a lei. Com a regulamentação, o objetivo é que o número de animais usados em testes seja reduzido.

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Por que beagles?
Morales afirma que a experimentação científica em beagles é realizada de forma reduzida no mundo. “Os animais mais utilizados em biotérios são ratos e camundongos. Mas em alguns experimentos são utilizados os beagles por causa do tamanho e pela manutenção do pedigree. Por serem mais próximos dos humanos, estes animais geram mais compaixão que os ratos e camundongos”, disse.

A ação desta madrugada foi muito parecida com o que ocorreu em 2012 na cidade de Montichiari , na Itália. Ativistas pelo direito dos animais resgataram 50 beagles do criadouro Green Hill que destinava os cachorros para experimentos científicos.

Em junho deste ano, os Estados Unidos iniciaram a redução do uso de testes em chimpanzés nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (na sigla em inglês, NIH). A decisão, que seguiu uma recomendação de um conselho consultivo da agência, não encerrou a pesquisa biomédica em chimpanzés da NIH, mas deve aposentar 310 animais nos próximos anos.

De acordo com o New York Times, um grupo de até 50 animais seria mantido em um biotério para o caso de necessidade de que primatas sejam estudados em uma pesquisa para a saúde humana.

No Brasil, também há a intenção de reduzir o número de experimentação em animais, mas ainda está no estágio do planejamento. “Estamos fazendo a coletânea do número de animais usados em experimentação para saber quantos animais o Brasil utiliza por ano e fazer um planejamento de infraestrutura, bem estar animal e também planejamento de métodos alternativos para a substituição de animais em pesquisa. É uma meta do governo brasileiro”, disse

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