De quitinete a cobertura, estilista das travestis faz sucesso internacional

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Em sociedade com a mãe, Cris Cabana cria há mais de duas décadas peças que conquistaram um público fiel

Com a roupa certa que “dá axé”, travestis podem “cabanar” pelas ruas de São Paulo e do mundo. O verbo ganhou espaço no bajubá - linguagem usada pelo grupo - após o sucesso da marca Tereza Cabana, a precursora da moda trans no País e que é cultuada por suas clientes há 23 anos. A ousadia das costureiras Terezinha Cabana, de 70 anos, e sua filha Cris Cabana, de 45, ganhou um público marcado pelo preconceito e conhecido pelas práticas ousadas para esconder a identidade. “Mulher encontra calcinha em qualquer lugar, travesti não”, defendeu Cris a sua peça, que promete “aquendar a neca” (segurar o pênis).

Renata Bastos: “É muito difícil homem assumir relação com travesti”

De uma quitinete de 27 metros quadrados para uma cobertura quase dez vezes maior nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, mãe e filha construíram patrimônio ao desenharem vestidos tubinhos, calcinhas e trikinis, peça clássica para o guarda-roupa de uma travesti. Os tecidos que estampam o animal print e as cores neon são os campeões de venda. O carro-chefe do ateliê é a calcinha de vinil, um dos materiais mais resistentes, que pode ser comprada por R$ 30 a unidade ou R$ 15 no atacado (com venda mínima de 40 peças).

Entrevista: Sou travesti, venci o preconceito e me tornei uma chefe de cozinha

Para a paulistana Cris, o acaso foi responsável pela origem da marca e pelo sucesso internacional. Em meados de 1990, a visita da travesti Mônica, jovem de 17 anos e “com um corpo escultural”, inspirou as profissionais e despertou suas atenções ao público gay. “Montei alguns modelos de vestidos e ela saiu para trabalhar. Sempre voltava da rua contando o sucesso que tinha feito com as peças. A Mônica deu a luz inicial”. Na primeira semana de trabalho, cerca de 20 travestis fizeram fila a espera de novas criações. “Nossa casa era muito pequena. Nunca imaginei que tivesse tantos travestis em São Paulo”, disse, aos risos.

Veja imagens da confecção, peças e clientes Tereza Cabana:

"Pode ter cara de homem, mas se apresentou como Sofia. No nosso ateliê será tratava como Sofia", diz Cris. Foto: Felipe Santiago/iGA costureira Tereza Cabana, de 70 anos. "O mundo hoje é gay e o preconceito é um sentimento ridículo". Foto: Felipe Santiago/iGO nome Tereza Cabana surgiu após briga entre travestis na Europa. Antes, etiquetas levavam o nome Tereza Fashion . Foto: Felipe Santiago/iGCris Cabana realiza o corte para montar uma calcinha de vinil preta. Ao lado da mãe, produz 100 peças/dia. Foto: Felipe Santiago/iGCalcinhas são mais largas na parte da frente e tem costura reforçada. Cores neon e animal print são campeãs de venda. Foto: DivulgaçãoTerezinha 'rebate' calcinha em sua nova máquina, apelidada de Ferrari. "Ainda estou pegando o jeito dela", disse. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloManequim 'nêga' exibe um dos justos vestidos que leva o nome Tereza Cabana. "Elas gostam de roupas coloridas e justas", diz Cris. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloDetalhe da escada do ateliê Tereza Cabana, nos Jardins. Produção chega a até até cem peças por dia. Foto: Carolina Garcia/iG São PauloAriadna Arantes com um maiô desenhado por Cris. "Moda feminina comum era complicado para uma menina como eu", diz a ex-BBB. Foto: Arquivo pessoalAinda depois de ser operada, Ariadna continua a usar o modelito. "Sambei com ele na casa de vidro. É muito confortável". Foto: Divulgação/TV GloboCris Cabana ao lado de um maiô bem brasileiro. "É sucesso no exterior, as meninas que trabalham fora arrasam com a bandeira do Brasil". Foto: DivulgaçãoEm sua página nas redes sociais, clientes postam fostam com as roupas da marca. "Cabanando pelo mundo", cita uma delas. Foto: DivulgaçãoVestidos justos e que marcam o corpo são os preferidos das clientes. Na foto, Maria Eva Bevilaqua. Foto: Arquivo pessoal

Entre suas clientes estão as profissionais do sexo e transexuais, como Ariadna Arantes, que ficou conhecida após participar da 11ª edição do reality show BBB. Ao iG, ela disse ter conhecido a marca em Milão um ano antes de sua operação para mudança de sexo, em 2007. “Usar roupas da moda feminina comum era meio complicado para uma menina como eu. Era um incômodo muito grande”. Na falta de opção, e por desespero em esconder a identidade, a ex-BBB usava calcinha de vinil que chegava a cortar a pele.

Arquivo pessoal
"Moda feminina comum era complicado para uma menina como eu", diz a ex-BBB Ariadna

“Muitas [travestis] usam super bonder, emplasto e até fita adesiva para esconder a real identidade. A marca [Tereza Cabana] se consolidou porque a moda ainda não abriu espaço para esse público”, defendeu Ariadna.

Com o mercado de São Paulo já garantido, o próximo desafio para a marca é a Europa. “O boca a boca foi fundamental para as vendas lá fora. Ainda em um tempo sem internet, passamos 11 anos vendendo de porta em porta por 30 dias durante o verão europeu”, explicou Cris. Entre seus roteiros de viagem estão as capitais da Itália, Paris e Suíça, por exemplo. “E nem preciso me preocupar com hospedagem. Elas [clientes] me recebem em suas casas, pensões e até puteiros. Em uma das viagens, cheguei a vender US$ 22 mil em mercadoria”, contou.

Em um amplo ateliê, também no Jardins, Cris e a mãe dividem a confecção das peças. Ao menos cem modelos são produzidos em um dia cheio de trabalho - a marca rende um lucro mensal de ao menos R$ 15 mil por mês. A última aquisição da empresa foi uma poderosa máquina de costura, carinhosamente apelidada de “Ferrari” pelas donas. “É a nossa queridinha agora. Ainda estou pegando o jeito dela”, explicou Terezinha.

Divulgação
Trikini é peça clássica no guarda-roupa travesti. Custa em média R$ 150 no ateliê dos Jardins

Preconceitos e axé

A palavra preconceito não faz parte do vocabulário da nordestina Terezinha. Criada em Fortaleza, ela saiu de casa aos 15 anos e, por isso, se define como “dura na queda e das antigas”. Mas se contradiz ao ter uma mente aberta no convívio com o mundo gay. “Não faz sentido ter preconceito. Quando morremos o bichinho que come o branco também come o preto”.

Não são todos, no entanto, que acompanham seu pensamento. O fluxo frequente de travestis em sua casa já rendeu processo na Justiça. “Fui processada por vizinhos porque associavam travestis ao tráfico de drogas. E eu só tentava vender minhas roupas”.

Com um discurso recheado de frases polêmicas, Tereza usa o bom humor para se referir à marca que leva o seu nome. “As meninas sentem que somos as estilistas delas e que usar Tereza Cabana dá axé [sorte]. É que as peças são produzidas por uma virgem”, disse a idosa fazendo movimentos com os olhos apontando para filha. “Ela só pensa em trabalho, sabe? Eu acho que é virgem ainda”.

Leia tudo sobre: tereza cabanaestilistatravestisigayigspmaislidas

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas