Vendedores estão endividados e perdendo clientes. Prefeitura prometeu entregar a feira reformada em outubro, mas as obras estão em ritmo lento

O comerciante Valter Santana (35 anos) olha aflito para as extremidades da Rua Tiers, no Brás, centro de São Paulo, enquanto tenta vender uma de suas camisetas a uma cliente. Ao avistar uma viatura da Polícia Militar, ele atira o produto em um saco plástico preto e desaparece pela Rua Hannemann, escapando do "rapa".

Valter Santana agora vende seus produtos na rua: “Perdi meus clientes e minha renda caiu 70%. A PM já me levou os produtos duas vezes. Cada dia é um sufoco novo.”
Wanderley Preite Sobrinho/iG São Paulo
Valter Santana agora vende seus produtos na rua: “Perdi meus clientes e minha renda caiu 70%. A PM já me levou os produtos duas vezes. Cada dia é um sufoco novo.”

Embora estejam por toda a parte, a Rua Tiers é o destino preferido de boa parte dos 4.500 comerciantes que ficaram sem emprego desde que a tradicional Feirinha da Madrugada foi fechada, no dia 10 de maio, para reformas hidráulicas, elétricas e de alvenaria. As obras, no entanto, só começaram em julho, gerando uma briga entre os comerciantes e a Prefeitura de São Paulo, que foi judicialmente obrigada a reabrir a feira no dia 4 de setembro, prazo novamente não cumprido.

“Eu trabalhava há cinco anos na feirinha. Sem dinheiro pra pagar um box fora, o jeito foi ir para a rua”, afirma Santana. “Perdi meus clientes e minha renda caiu 70%. A PM já levou meus produtos duas vezes. Cada dia é um sufoco novo.”

Há dois anos na Feirinha, Rubens Coelho (39) também escolheu vender na rua as roupas íntimas que ele mesmo fabrica e que comercializava no Box GA-127. “Tive de demitir duas costureiras. O aluguel da casa e a prestação do carro estão atrasados. Não sei quanto tempo vou suportar.”

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A última promessa da prefeitura era reabrir a feira no dia 15 de outubro, mas as obras estão longe de terminar (Veja as fotos no álbum). Em audiência no dia 26 de setembro, o chefe de gabinete da Secretaria de Coordenação das Subprefeitura, Antonio Crescenti Filho, admitiu que “não há previsão” para retomar as atividades no terreno de 136 m², que costumava receber 15 mil compradores de todo o Brasil diariamente.

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Vendedor de carteiras e cintos, Agostinho Barbosa (33) não atende mais as ligações dos fornecedores. Ele alugou um box em uma galeria na região do Brás pela qual desembolsa R$ 1.200 por mês. “O movimento aqui é fraco. Os cintos acabaram e o estoque de carteiras duram, no máximo, dois meses. Nunca fiquei sem pagar fornecedor, mas agora fujo deles. Como vão me vender novamente?”

Casado e pai de três filhos, João Nascimento Macedo (41) contraiu uma dívida de R$ 5 mil para cobrir cheques emitidos para fornecedores. “Minha renda mensal caiu de R$ 5 mil para R$ 1 mil. Demiti dois funcionários e minha filha do meio saiu da escola particular, que era o nosso orgulho.”

Uma das fundadoras da feira, Helena Paulina Costa demitiu costureiras e precisou vender seu carro há três meses para pagar dívidas. “Eu fui uma das primeiras a entrar no terreno em 2005. Capinei aquele chão e levantei as primeiras paredes. Agora estou aqui sem saber se vou conseguir voltar.”

Fila na porta da subprefeitura da Mooca: donos originais dos boxes temem ficar sem vaga na Feirinha da Madrugada
Wanderley Preite Sobrinho/iG
Fila na porta da subprefeitura da Mooca: donos originais dos boxes temem ficar sem vaga na Feirinha da Madrugada

O temor de Helena se deve a uma decisão da prefeitura de recadastrar os proprietários dos boxes na subprefeitura da Mooca, zona leste. Segundo portaria emitida em setembro, a prioridade era cadastrar, por ordem alfabética, os proprietários que detinham o Termo de Permissão de Uso (TPU) em 2010. Mas essa regra não está sendo respeitada. As filas em frente à subprefeitura não param de crescer.

Sob anonimato, uma servidora admitiu ao iG que mais de 8 mil pessoas já se inscreveram. O interessado precisa levar uma relação de documentos e pagar uma taxa, que, segundo outro servidor, varia de acordo com o “número de páginas do processo aberto”, um valor “que varia de R$ 18 a R$ 100”.

Questionada pela reportagem, a prefeitura não respondeu até o fechamento da matéria sobre a reabertura da feira nem sobre os futuros proprietários dos boxes.

É justametne por falta de respostas que o comerciante Nasser Sharefy (35) decidiu morar em um dos boxes de alvenaria da feira que não precisaram ser demolidos. “Tenho documentação, por isso estou aqui. Minha mulher e três filhos estão morando com a minha cunhada” diz ele, enquanto passa o café. “Estou vivendo com a ajuda dos amigos, que me trazem comida. Estourou um cano no terreno e estou sem água há duas semanas. Mesmo assim não saio daqui até voltar ao trabalho.”

Nasser Sharefy (em pé) preferiu morar na feirinha para acompanhar as obras
Wanderley Preite Sobrinho/iG São Paulo
Nasser Sharefy (em pé) preferiu morar na feirinha para acompanhar as obras



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