Veja o que leva a polícia a apontar menino como autor da morte de PMs em SP

Por Vasconcelo Quadros , iG São Paulo | - Atualizada às

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Desde a cena encontrada no dia do crime até os primeiros resultados de exames apontam para uma tragédia familiar

Farto das versões que contestam as investigações sobre a chacina da Vila Brasilândia, o delegado Itagiba Franco desabafou: “Quem é então? Que essas pessoas forneçam uma pista que vamos atrás”, disse o delegado. Os caminhos mais palpáveis da investigação, sustenta, apontam para uma tragédia familiar envolvendo quatro homicídios e um suicídio.

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Polícia faz perícia na casa da família de PMs, assassinados na Vila Brasilândia. Foto: Edison Temoteo/Futura PressCâmeras de segurança mostram momento em que garoto vai à escola no início da manhã de segunda-feira (05). Foto: Futura PressFoto em site de relacionamento mostra casal de policiais militares e o filho. Foto: ReproduçãoCarro da polícia patrulha a rua da residência onde foram encontrados os cinco corpos (06/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressViatura policial em frente a residência no dia (06), na Vila Brasilândia. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGCasa onde foram encontrados os cinco corpos no bairro da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressPoliciais em frente a casa na Brasilândia, na manhã de terça-feira (06/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressParte do portão e do muro da casa onde o corpos foram encontrados, na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressA porta de entrada da casa do policias encontrados mortos na segunda-feira (05/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAuto de lacração na casa onde foram encontrados os cinco corpos. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressDetalhe do portão da casa do policiais mortos em São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressCasa onde foram encontrados os cinco corpos na segunda-feira (05/08), no bairro da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressPoliciais em frente ao portão da casa na tarde de terça-feira (06), em São Paulo . Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGFachada da escola onde estudava o menino de 13 anos. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGA escola do garoto também fica na zona norte de São Paulo. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGO delegado Itagiba Vieira Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso . Foto: Eduardo Ferreira/Futura PressO delegado geral da Polícia Civil, Luiz Mauricio Blazeck chegando ao DHPP, na quinta-feira (8). Foto: Futura PressColégio Stella Rodrigues, na zona norte de São Paulo, onde estudava o garoto . Foto: Futura PressResidência da família Pesseghini amanheceu pichada na sexta-feira (09). Foto: Futura PressPedestres caminham e observam a casa número 42 da família Pesseghini, na sexta-feira (09). Foto: Carolina Garcia/iG São PauloFachada do colégio onde o menino estudava em São Paulo, uma semana depois do crime. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMovimentação em frente ao colégio na volta às aulas (12/08). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMovimentação de policiais em frente a escola na Freguesia do Ó, em São Paulo, nesta segunda-feira (12). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMuros da casa pichados nesta manhã de segunda-feira (12). Foto: Wandeley Preite SobrinoPara chegar até a casa, pichadores precisaram pular os muros. Foto: Wandeley Preite SobrinoCasa ao lado direito da residência dos Pesseghini também foi pichada. Foto: Wandeley Preite SobrinoPortão da casa estava pichado desde a semana passada.. Foto: Wandeley Preite SobrinoMuro em frente à casa onde ocorreu o crime também foi pichada. Foto: Wandeley Preite SobrinoDona da casa reclamou das pichações em seu muro. Foto: Wandeley Preite SobrinoNotícia do crime completa uma semana nesta segunda-feira (12). Foto: Wandeley Preite SobrinoMoradora tenta apagar as pichações no muro de sua casa. Foto: Wandeley Preite SobrinoOração fixada no portão da casa onde aconteceu as cinco mortes em São Paulo. Foto: Wandeley Preite Sobrino

“Não há peça sem encaixe”, sustenta Itagiba. Desde segunda-feira (05) o delegado tem se ocupado em juntar as partes de um mosaico que, se não fosse a profusão de teorias sem base factual - mas que servem para tumultuar as investigações - já estaria montado.

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Encerrado hoje, o caso revelaria um ritual macabro e de padrão tão escabroso que nem a ficção policial ousaria encenar: assassinatos em série, a sangue frio, envolvendo como principais vítimas dois profissionais de segurança (um deles integrante da tropa de elite mais temida pelo crime), duas senhoras idosas e, como executor, um adolescente suicida de 13 anos cujo sonho secreto - uma contradição para a imagem do indefeso menino propagada pela mídia - era virar pistoleiro de aluguel. Como se vê, um roteiro tão forte como uma tragédia grega.

Há vários detalhes da cena do crime sobre as quais, apesar da ausência de laudos conclusivos, os peritos não têm dúvidas: a soldado Andréia é classificada como a quarta vítima da chacina, sua morte ocorreu bem depois da do sargento Luiz Marcelo - algo em torno de 18 horas -, foi executada com um tiro à queima roupa na nuca quando se agachava de cócoras, aparentemente para ver o que havia acontecido com o marido. Ela tinha chegado em casa pouco antes de ser eliminada pelas costas com um único tiro que a jogou de joelhos e cotovelos amparados no colchão.

O adolescente Marcelo, de 13 anos, morreu num espaço entre 12 e 15 horas depois da mãe, enquanto seu pai, o sargento da Rota, a avó, Benedita, e a tia, Bernadete, dormiam quando tiveram as cabeças varadas por balaços de curta distância. A posição dos três corpos, de bruços, diz o delegado, é típica de quem entra em sono profundo.

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As dúvidas são levantadas pela tenra idade do suspeito, a suposta incapacidade do menino em manejar o armamento, dirigir um carro ou planejar uma ação em que os detalhes chocantes e anormais para os padrões brasileiros dão aparências de crime perfeito. Familiares e até policiais experientes - como o coronel Wagner Dimas, que teve de voltar atrás da declaração em que afirmava que Andréia havia denunciado colegas - chegaram a levantar hipóteses como queima de arquivo.

Também insinuaram que poderia se tratar de retaliação do Primeiro Comando da Capital (PCC), a organização que o governo paulista faz de conta que não existe, mas que trava uma guerra particular com a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a tropa de elite em que trabalhava o pai de Marcelo, o sargento Pesseghini.

Marcos Bezerra/Futura Press
A porta de entrada da casa do policias encontrados mortos nesta segunda-feira

Sem sobrevivente ou testemunha ocular, o crime está exigindo mais perícia para administrar a guerra por audiência envolvendo os programas policiais sensacionalistas de duas emissoras de televisão - a Record e a Bandeirantes - do que investigação propriamente dita.

“Se a autoria estivesse ligada ao crime organizado, haveria sinais de esculacho no local. As quadrilhas sempre querem demonstrar superioridade em relação às vítimas. Ninguém fora a família teve acesso a casa”, observa Itagiba Franco.

O suspeito número um, apontam os indícios citados pelo delegado, é o menino. A primeira evidência são duas gravações em vídeo registradas por câmeras externas onde ele aparece saindo de casa por volta da 1h de segunda dirigindo o carro da mãe e depois estacionando nas proximidades da escola que frequentava. A última imagem mostra, aparentemente, que dormiu no carro e, às 06h23, sai pela porta do motorista. Vestido o uniforme estudantil, segue caminhando até a escola.

Marcelo deixa o colégio por volta do meio dia e pega carona com o pai do colega e melhor amigo. No caminho, o motorista vê e estranha a presença do carro da mãe do garoto estacionado próximo a escola. Marcelo sugere que Andréia estaria pelas cercanias realizando alguma tarefa, mas pede para o pai do amigo parar, desce, abre o carro com uma chave que carregava no bolso e apanha algo que poderia ser o revólver 32 que a polícia encontraria depois em sua mochila. Ao chegar em casa pede para não buzinar, alegando que seus pais estariam dormindo.

“Quando Marcelo foi à escola a família já estava morta. Os pais jamais deixariam que passasse a noite fora. Ouvimos várias testemunhas que dizem o seguinte: se ele tivesse fugido o casal entraria em desespero e imediatamente avisaria a polícia”, explica o delegado Itagiba Franco.

Futura Press
Residência da família Pesseghini amanheceu pichada nesta sexta-feira

Familiares e amigos do casal trataram de desmistificar as histórias relacionadas a suposta falta de perícia com a arma e o volante. O sargento ensinou o filho de 13 anos a atirar com vários tipos de armas, entre elas a pistola ponto 40 usada no crime. Ele também ensinou o filho a dirigir. Uma vizinha contou que o garoto dirigia tão bem que era ele quem retirava o carro da garagem todas as manhãs.

Marcelo também já não era o menino franzino que aparece junto com os pais na foto que ganhou o mundo. A imagem foi feita em 2010, quando ele tinha, portanto, dez anos. Antes de morrer, era um adolescente de 1m52 de altura e 50 quilos, um porte bem superior a imagem estereotipada de menino franzino que a foto de 2010 sugere.

A polícia não encontrou registros de desvios psicológicos do menino nos consultórios médicos frequentados pela família, mas espera o depoimento de uma testemunha que diz ter algo a dizer sobre o assunto.

Relatos feitos em depoimento pelo melhor amigo apontam que Marcelo manifestava o desejo de matar os pais, fugir de carro, esconder-se temporariamente em algum lugar e transformar-se num pistoleiro de aluguel, como os personagens de seus jogos de videogame.

No roteiro traçado, teria cumprido apenas a execução do crime e a fuga temporária no carro da família. Desistiu do resto, foi a escola - onde já dissera algumas vezes a colegas e professores que “hoje é meu último dia na escola” , voltou para casa e se deu conta que seu mundo ruíra.

Reunira então coragem para completar a tragédia com um tiro na cabeça, disparando com a mão esquerda, já que era canhoto, como atestam todos os relatos e uma fotografia em que aparece pintando um quadro.

Antes de dar fim a vida, Marcelo ainda teria escrito numa folha de papel uma frase enigmática em que sugere que o amor pelo pai era maior que supostas desavenças surgidas nos dias que antecederam a tragédia. Disse que sempre amaria o pai. Os depoimentos das testemunhas ajudarão a polícia a traçar um perfil do menino, mas o fator determinante para a conclusão do inquérito e seu relatório serão os laudos periciais que devem ser apresentados em duas semanas.

“O caso ganhou um vulto que ninguém esperava. Se amanhã ou depois surgir uma nova linha, terei a coragem e a humildade de dizer que erramos. Mas não tem nada escondido. Estamos agindo com seriedade”, repetiu o delegado Itagiba Franco, no final da tarde de quinta-feira.

No mesmo momento, a divulgação de fotografias pelo apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente, da Band, mostrando os corpos da família na cena do crime mergulharia a Divisão de Homicídios que o delegado dirige numa crise sem precedente.

“Para. Mandaram parar”, soprou no ouvido do delegado um assessor. A delegada Elizabeth Sato, diretora do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP), que estava de férias, telefonou para a divisão, determinou que as entrevistas fossem suspensas e a polícia se concentrasse em investigar.

Também mandou que a polícia encontrasse explicação para o vazamento das imagens constrangedoras. Profissional experiente, temperamento sereno e humilde, o delegado classificou o vazamento de criminoso, eximiu o DHPP e passou a se concentrar no que interessa para a polícia: derrubar o muro que separa a investigação dos familiares das vítimas e da incredulidade social alimentada pelos programas policiais de televisão. “Essa guerra é improdutiva”, diz o delegado. Ele afirma com segurança, que até agora todos os indícios apontam o garoto como suposto autor da tragédia que abalou São Paulo.

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