Alienação mental e patologia social podem explicar tragédia familiar em SP

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Mesmo com evidências indicando que menino de 13 anos é responsável por chacina, população desconfia das investigações e das motivações do suspeito

A fartura de evidências apontando que a chacina de Brasilândia, na Zona Norte da capital paulista, pode ser um caso de quadruplo homicídio seguido de suicídio não evitou a ressurreição das teorias conspiratórias. “Queima de arquivo” e “retaliação” do crime organizado são as suspeitas mais frequentes levantadas nos comentários postados por leitores no iG e nas redes sociais sobre autoria e motivação da tragédia que chocou o País.

Opinião: Matando todos aos 13 anos

“Um garoto (de 13 anos) não teria habilidade nem capacidade de planejar tal atrocidade. Tem gente por trás”, crava a internauta Mara Shimenis.

“Estranho é o fato da primeira informação, poucas horas depois já descartar facções do crime organizado”, acrescenta Caxias Tamandaré Brasil de Abreu.

“Por quê? O que levaria um menino a cometer esse crime?”, indaga outro internauta, Jonathan Alves, colaborando com a profusão de dúvidas que cercam a tragédia que o senso comum não consegue explicar.

Desconfiança:

Escola diz que menino era bom aluno e que sempre foi alegre e dócil

Tio-avô acusa polícia de direcionar investigação sobre morte de família

Embora ainda seja cedo para conclusões, entender o caso é tarefa para especialista: “Esse crime não se explica sem uma pitada de anormalidade”, ensina o veterano psiquiatra forense Guido Arturo Palomba, que há mais de 40 anos ajuda o judiciário paulista a sentenciar autores de crimes do gênero.

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Tio-avô do suspeito diz que não acredita que crime tenha sido cometido por sobrinho

“Como causa original, as evidências mostram que o menino se encontrava em estado de alienação mental”, diz Palomba. Para ele, embora ainda seja necessário “garimpar” os antecedentes, os sinais revelam traços de anormalidade mental, típicos, conforme observa, de ação psicopatológica.

Há poucos dias o psiquiatra concluiu um estudo com cerca de 40 casos de parricidas e neles encontrou um traço comum: todas as mortes foram praticadas em dias próximos a datas festivas. Seu levantamento não incluiu a tragédia da família chefiada pelos policiais Pesseghini, ocorrida supostamente entre a noite de domingo e a madrugada de segunda. Mas o caso tem semelhança: aconteceu a uma semana do Dia dos Pais.

“Se fosse nos Estados Unidos, as pessoas não achariam estranho. O Brasil tem uma cultura bem diferente. É compreensível que a sociedade não aceite uma simples motivação porque o caso contraria a natureza humana. A polícia tem 30 dias para concluir e o fará de forma serena. Mas aparentemente as explicações devem ser encontradas pelos profissionais de psicologia”, diz o delegado Itagiba Franco, que coordena as investigações do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP).

Franco ressalva que a polícia, por cautela profissional, não descarta hipóteses, mas está concentrada nos indícios que apontam para quatro homicídios seguidos de suicídio, conforme apontam as primeiras perícias e as investigações de campo.

Investigações:

Polícia divulga imagens de carro que teria sido dirigido por menino após crime

Menino havia relatado sonho de fugir de casa e matar os pais, afirma delegado

A incredulidade sobre motivação mais prosaica para crimes que chocam a sociedade fazem parte da literatura policial. Um deles ocorreu em 1985: o estudante Roberto Peukert Valente, na época com 18 anos, matou a tiros e facadas os pais e três irmãos. Quando a polícia chegou a ele, depois de descartar outras hipóteses por constatar que ninguém mais havia entrado na casa, ele confessou o motivo: a família reclamava que ouvia som sempre em volume alto.

Peukert está preso num manicômio judiciário e, se depender do último laudo expedido por Palomba – atestando que continua perigoso –, dificilmente ganhará a liberdade, embora a lei brasileira determine que ninguém pode ficar preso mais de 30 anos.

O outro episódio é o famoso caso da Rua Cuba, o mais misterioso crime ocorrido em São Paulo no último quarto de século. Na véspera do Natal de 1988, o advogado Jorge Toufic Bouchabki e sua mulher, a professora Marcia Cecília Delmanto Bouchabki, foram mortos a tiros na casa em que moravam, no número 109 da Rua Cuba, no Jardim América, uma das áreas mais nobres da capital.

As diversas perícias de local descartariam o ingresso de alguém fora do circulo familiar à residência. As suspeitas rondaram o filho do casal, o então estudante de direito Jorge Delmanto Bouchabki, que, embora tenha sido denunciado duas vezes, nem foi levado a julgamento. A justiça arquivou o processo e as dúvidas nunca foram esclarecidas.

Polícia faz perícia na casa da família de PMs, assassinados na Vila Brasilândia. Foto: Edison Temoteo/Futura PressCâmeras de segurança mostram momento em que garoto vai à escola no início da manhã de segunda-feira (05). Foto: Futura PressFoto em site de relacionamento mostra casal de policiais militares e o filho. Foto: ReproduçãoCarro da polícia patrulha a rua da residência onde foram encontrados os cinco corpos (06/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressViatura policial em frente a residência no dia (06), na Vila Brasilândia. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGCasa onde foram encontrados os cinco corpos no bairro da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressPoliciais em frente a casa na Brasilândia, na manhã de terça-feira (06/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressParte do portão e do muro da casa onde o corpos foram encontrados, na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressA porta de entrada da casa do policias encontrados mortos na segunda-feira (05/08). Foto: Marcos Bezerra/Futura PressAuto de lacração na casa onde foram encontrados os cinco corpos. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressDetalhe do portão da casa do policiais mortos em São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressCasa onde foram encontrados os cinco corpos na segunda-feira (05/08), no bairro da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo. Foto: Marcos Bezerra/Futura PressPoliciais em frente ao portão da casa na tarde de terça-feira (06), em São Paulo . Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGFachada da escola onde estudava o menino de 13 anos. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGA escola do garoto também fica na zona norte de São Paulo. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGO delegado Itagiba Vieira Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso . Foto: Eduardo Ferreira/Futura PressO delegado geral da Polícia Civil, Luiz Mauricio Blazeck chegando ao DHPP, na quinta-feira (8). Foto: Futura PressColégio Stella Rodrigues, na zona norte de São Paulo, onde estudava o garoto . Foto: Futura PressResidência da família Pesseghini amanheceu pichada na sexta-feira (09). Foto: Futura PressPedestres caminham e observam a casa número 42 da família Pesseghini, na sexta-feira (09). Foto: Carolina Garcia/iG São PauloFachada do colégio onde o menino estudava em São Paulo, uma semana depois do crime. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMovimentação em frente ao colégio na volta às aulas (12/08). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMovimentação de policiais em frente a escola na Freguesia do Ó, em São Paulo, nesta segunda-feira (12). Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iGMuros da casa pichados nesta manhã de segunda-feira (12). Foto: Wandeley Preite SobrinoPara chegar até a casa, pichadores precisaram pular os muros. Foto: Wandeley Preite SobrinoCasa ao lado direito da residência dos Pesseghini também foi pichada. Foto: Wandeley Preite SobrinoPortão da casa estava pichado desde a semana passada.. Foto: Wandeley Preite SobrinoMuro em frente à casa onde ocorreu o crime também foi pichada. Foto: Wandeley Preite SobrinoDona da casa reclamou das pichações em seu muro. Foto: Wandeley Preite SobrinoNotícia do crime completa uma semana nesta segunda-feira (12). Foto: Wandeley Preite SobrinoMoradora tenta apagar as pichações no muro de sua casa. Foto: Wandeley Preite SobrinoOração fixada no portão da casa onde aconteceu as cinco mortes em São Paulo. Foto: Wandeley Preite Sobrino

O jurista Luiz Flávio Gomes também enxerga evidências de tragédia familiar no caso dos Pesseghini, inserido na patologia social que atinge comunidades como a paulistana onde, segundo ele, a morte é banalizada pela ausência de valores. “Vivemos numa sociedade que não fala mais em moral e ética”, diz ele.

Gomes acha que a banalização da violência adoeceu ao mesmo tempo a família e a polícia, esta última estruturada numa cultura de guerra em que treina basicamente para matar.

“O menino frequentava a corporação (PM paulista) e isso é desaconselhável porque se aprende a usar armas e matar. A se confirmarem as versões até agora investigadas, demonstrou muita técnica. Parecia um atirador de elite”, observou o jurista.

Crimes: Relembre casos famosos de filhos que mataram os pais

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Escola diz em comunicado que menino era bom aluno e que sempre foi alegre e dócil

O psiquiatra Guido Palomba diz que é necessário observar a constelação familiar do casal de policiais em que se misturam, segundo ele, ingredientes de violência com a doença degenerativa hereditária do menino cujo tratamento, dependendo do tipo de medicamento usado, também pode ter contribuído para detonar a tragédia.

“O que está claro é que não há explicação para esse caso sem uma pitada, grande ou pequena, de anormalidade psicológica”, afirma Palomba.

O delegado Itagiba Franco garante que até agora não há qualquer indício que possa alterar a hipótese de o menino ter matado os pais, a avó e a tia e depois se suicidado. Na literatura da violência, a motivação predominante de crimes no Brasil é prosaica. A exceção fica por conta dos casos envolvendo políticos e policiais como suspeitos.

Leia tudo sobre: crimemorte de policiaisigspmorte de pms

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas