Réus do Carandiru respondem por quase 300 mortes em serviço pela PM

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Informação foi divulgada durante júri popular que vai decidir a responsabilidade de cada policial no massacre

A promotoria que acusa 25 policiais militares pela morte de 52 detentos na extinta casa de detenção Carandiru revelou nesta sexta-feira (2) o número de assassinatos em serviço que cada réu responde sob alegação de legítima defesa, mesmo argumento defendido para justificar o massacre no 3º pavimento do Pavilhão 9 no dia 2 de outubro de 1992.

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De acordo com o promotor Eduardo Olavo Canto, 300 pessoas foram mortas nestas circunstâncias até o ano 2000. Apenas um dos réus não responde por nenhum homicídio. Pelas contas do promotor, há policial com até 33 mortes sob justificativa de legítima defesa.

Julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressA nova fase do julgamento conta com 26 policiais no banco dos réus, dos 79 agentes acusados. Foto: Futura PressO massacre que aconteceu em 1992 foi o pior da história do sistema penitenciário brasileiro. Foto: Futura PressO Juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo durante julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressJulgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressHomem protesta pedindo reforma do sistema penitenciário em frente ao Fórum onde acontece o julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressEm outubro do ano passado, cento e onze cruzes foram colocam em frente ao Largo São Francisco por alunos da Faculdade de Direito, em lembrança aos mortos do massacre ocorrido há 20 anos, onde morreram 111 presos. Foto: Futura Press

Canto citou alguns casos, como o inquérito relatando a tortura praticada por três réus contra um menor na periferia de São Paulo. “Esses processos são sempre arquivados pela Justiça Militar”, afirmou o promotor. “São 1500 inquéritos policias militares fraudados nos últimos anos.”

Pena de morte

Eloquente, o promotor também defendeu os presos assassinados, lembrando que a obrigação policial era invadir o Pavilhão 9, mas estabelecer a ordem com o menor número de vítimas possível, uma vez que “não há pena de morte no Brasil”.

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Para defender sua tese, ele lembrou de outras rebeliões na mesma casa de detenção, como a de 1987, quando 31 presos morreram, embora os rebelados tivessem feito 70 reféns. “Dessa vez não houve reféns, mas as mortes chegaram a 111.”

“Quantos tiros na cabeça, nas costas, na nuca? Vítimas ajoelhadas, rendidas. Eu não sei como esses policiais conseguem dormir. Isso é repugnante”, disse o promotor, que lembrou de uma justificativa sempre alegada por parte da sociedade para a absolvição dos policiais: “É por que quem morreu é bandido? Então o Estado tem de se equiparar aos criminosos matando também?”

O promotor também afirmou que 12 mortos deveriam estar cumprindo regime semi-aberto, mas, por falta de vaga na colônia penal, estava no Carandiru. Ele também citou o caso de um preso morto: “Grimário foi preso porque roubou camisetas e calças de uma lavanderia. Maurício roubou toca-fitas. Deixou dois filhos.”

Canto se voltou para o juri e perguntou se a morte de criminosos fez bem para a sociedade. “Não”, ele mesmo respondeu. “O massacre criou o PCC, a maior facção criminosa do Brasil. O PCC não existia até então. Está no estatuto da fação a referência ao Carandiru.”

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