Réus do Carandiru dizem que foram recebidos a tiros por detentos

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo |

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Quatro dos cinco réus prestaram depoimento nesta quarta-feira; quinto depoimento será prestado às 13h desta quinta-feira

Para convencer o júri popular da inocência dos 25 policiais militares acusados de matar 73 detentos na extinta casa de detenção Carandiu, os quatro réus interrogados nesta quarta-feira afirmaram que a Rota só disparou contra os presos porque foi recebida a tiros ao invadir o 3ºpavimento do Pavilhão 9 para conter uma suposta rebelião. As declarações contrariam o relatório do perito da Polícia Técnico-Científica Osvaldo Negrini Neto, que na segunda-feira negou a existência do confronto.

Primeiro dia: Acusação dispensa testemunhas e usa vídeo de declarações
Segundo dia: Julgamento tem depoimento de testemunhas em sigilo
Terceiro dia: Ex-capitão da Rota diz que foi atacado por detentos ao invadir Carandiru

Julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressA nova fase do julgamento conta com 26 policiais no banco dos réus, dos 79 agentes acusados. Foto: Futura PressO massacre que aconteceu em 1992 foi o pior da história do sistema penitenciário brasileiro. Foto: Futura PressO Juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo durante julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressJulgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressHomem protesta pedindo reforma do sistema penitenciário em frente ao Fórum onde acontece o julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressEm outubro do ano passado, cento e onze cruzes foram colocam em frente ao Largo São Francisco por alunos da Faculdade de Direito, em lembrança aos mortos do massacre ocorrido há 20 anos, onde morreram 111 presos. Foto: Futura Press


De acordo com o perito, “não há nenhuma prova técnica que possa amparar a versão da defesa”. Se houvesse confronto, disse ele, as paredes do corredor estariam “carimbadas de tiros” ou o chão “repleto de corpos de policiais”. Em compensação, no interior das celas foram contabilizados 160 perfurações de bala, enquanto dos corpos foram recolhidos mais de quatrocentas balas.

Apesar da insistência da promotoria em pedir a versão da tropa, 18 réus preferiram permanecer em silêncio durante o interrogatório. Os únicos orientados pela advogada Ieda Ribeiro de Souza a se defender foram oficiais de alta patente, que repetiram o mesmo relato.

O primeiro a falar foi o hoje coronel e então capitão da Rota Valter Alves Mendonça. Segurando uma submetralhadora, o ex-capitão ganhou o corredor sob “clarões de disparos” e um impacto no escudo que empunhava. “Efetuei um disparo. Ao lado, um colega tomou um tiro na perna. Ali, recolhemos duas armas de presos feridos.” Dez metros depois, “novos clarões e tiros”: “Levei uma paulada na perna e um golpe de estilete no braço.”

Segundo a falar, o major Marcelo González Marques relatou um “esfaqueamento” sofrido por ele depois de visualizar tiros no corredor do pavimento, de cinco metros de largura e 40 de profundidade. “Nós reagimos. Atiramos por ser o meio que nós dispúnhamos para nos defender: armas de fogo versos arma de fogo.” Marques disse ainda que os presos atiravam contra a Rota objetos como “vaso sanitário, máquina de escrever e sacos com fezes e urina”.

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O relato de todos contam que a entrada da Rota foi decidida de última hora, quando o coronel Ubiratan Guimarães – principal responsável pela invasão – teria adiantado a corporação, que estava na retaguarda, ao se convencer de que os detentos estavam munidos de arma de fogo. Marques chamou a operação de “plano Carandiru” ou Boreal, nomenclatura desmentida por Mendonça.

Terceiro a ser ouvido, o tenente-coronel Carlos Alberto dos Santos disse que, enquanto avançavam, foram recebidos a tiros. “Eu fui ferido por arma de fogo na perna esquerda. Eu revidei porque vi de onde o tiro partiu”, disse. “Rastejei até a entrada do pavilhão.”

Último a falar – já na madrugada de quinta –, o tenente Edson Pereira Campos repetiu algumas vezes que não ser recordava dos fatos de 21 anos atrás. Coube a ele repetir a maior parte do relato feito durante o dia: ao chegar no Pavilhão 9, a tropa foi recebida a tiros e sacos com fezes e urina. Campos disse ainda que terminaria punido se desobedece a ordem de invadir o Pavilhão 9.

Para desfazer a tese da defesa, a promotoria tentou explorar contradições nos depoimentos ao compará-los com declarações anteriores. Marques, por exemplo, negou ter visto detentos nus, diferente do que disse em em seu interrogatório na Justiça Militar ainda em 1992.

O julgamento começou oficialmente às 11h45 e terminou depois de quase 15 horas, às 2h30. A intenção do juiz Rodrigo Tellini de Aguirre era que as cinco testemunhas fossem ouvidas na quarta, mas a última delas, o tenente-coronel Salvador Modesto Madia, só prestará depoimento às 13h desta quinta-feira.

Julgamento

Em abril foi realizado a primeira fase do julgamento, quando 23 policiais foram condenados por 13 mortos no 2º pavimento, mas recorreram em liberdade. O critério para dividir o julgamento foi o andar em que atuou cada cada grupo de policiais.

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