"Todos tinham medo de serem contagiados com Aids", diz ex-Rota sobre Carandiru

Por iG São Paulo |

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Salvador Madia foi comandante da Rota entre 2011 e 2012. Ele participou da invasão da casa de detenção em 1992

O ex-comandante e tenente da Rota Salvador Modesto Madia começou a ser interrogado na tarde desta quinta-feira, (01), no júri dos PMs acusados de matar 73 detentos no Carandiru em outubro de 1992, que começou na segunda (29). Ele é o último dos cinco réus que aceitaram responder às perguntas diante dos jurados, entre os 25 policiais denunciados por causa da invasão no 2º andar do Pavilhão 9 da Casa de Detenção. 

Defesa: Outros batalhões envolvidos não estão sendo julgados, diz tenente
Terceiro dia: Ex-capitão da Rota diz que foi atacado por detentos ao invadir presídio
Segundo dia: Julgamento tem depoimento de testemunhas em sigilo
Primeiro dia: Acusação dispensa testemunhas e usa vídeo de declarações

Julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressA nova fase do julgamento conta com 26 policiais no banco dos réus, dos 79 agentes acusados. Foto: Futura PressO massacre que aconteceu em 1992 foi o pior da história do sistema penitenciário brasileiro. Foto: Futura PressO Juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo durante julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressJulgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressHomem protesta pedindo reforma do sistema penitenciário em frente ao Fórum onde acontece o julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressEm outubro do ano passado, cento e onze cruzes foram colocam em frente ao Largo São Francisco por alunos da Faculdade de Direito, em lembrança aos mortos do massacre ocorrido há 20 anos, onde morreram 111 presos. Foto: Futura Press

O réu começou a contar como foram os momentos que antecederam a invasão do complexo do Carandiru. "Estávamos numa situação de extrema adrenalina ao invadirmos o pavilhão. Não foi uma operação simples", relata o interrogado.

Depois, ele relatou detalhes do momento da invasão. "Havia muito barulho antes de entrarmos no Pavilhão. Quando começamos a invadir, o barulho e as explosões aumentaram. ouve embates muito violentos dentro do pavilhão. Enfrentamos uma situação muito complicada lá", afirmou.

O ex-PM repetiu o argumento da defesa de que os detentos atacaram os oficiais envolvidos na operação. "A preocupação entre nós era grande, pois todos tinham medo de serem contagiados com Aids. E vários PMs saíram feridos", disse.

Ele negou, no entanto, que os policiais tenham entrado nas celas durante o confronto. "Não vi policiais entrando nas celas. Os embates se deram no corredor do pavimento. Eu fui o último homem da tropa de Rota a sair do 2º andar do Carandiru naquele dia e segui direto para o quartel", argumentou.

Nesta quarta-feira (31), foram ouvidos quatro réus - todos oficiais. Dezoito praças (PMs que ingressaram como soldados) na época dos fatos exerceram o direito de ficar calados. O interrogatório do último réu que falou diante dos jurados nessa quarta terminou às 2h45. A audiência começou às 11h45 e durou 15 horas, com intervalos.

Uma das primeiras perguntas feitas ao tenente-coronel Edson Pereira Campos pelo juiz Rodrigo Tellini foi se ele entendia qual era a acusação. "Não entendo a acusação. Efetuei um disparado e estou sendo processado por 73 homicídios", respondeu o réu, que era soldado na época dos fatos.

Ele disse que não chegou a ver nenhum preso nu. A mesma pergunta foi feita aos demais réus ouvidos ao longo do terceiro dia de júri: o coronel Valter Alves Mendonça, capitão da tropa que está sendo julgada nesta fase do processo, e o tenente coronel Carlos Alberto dos Santos. Corpos foram encontrado nus, segundo o Ministério Público, sinal de que foram mortos rendidos.

Dúvidas

A promotoria usou os interrogatórios dos réus que concordaram em responder às perguntas para traçar contradições entre os depoimentos. Uma das diferenças nas versões é o fato de eles não recordarem os colegas que se feriram e alegarem terem sido atacados pelos detentos, o que faria que uns tivessem visto os outros ao recuarem. Além disso, os promotores mostraram uma planta do 2º andar do Pavilhão 9 e procuraram saber detalhes sobre o ponto onde teria havido confrontos. Houve diferenças nos relatos e falhas de memória.

"Eu poderia dizer isso há 20 anos atrás, quando eu tinha uma memória mais precisa. Estou aqui hoje prestando declarações após 21 anos. Estou tentando exprimir o que a minha memória permite", disse Campos.

A defesa mostrou uma imagem onde PMs aparecem em frente de presos nus carregando corpos. Os réus disseram que os uniformes não eram compatíveis com a Rota. "Não é do meu pelotão, não", disse Santos. O tenente-coronel enfatizou também que é processado apenas por que efetuou disparos no dia da invasão. "Têm outros batalhões de choque que fizeram os disparados e não estão aqui".

O principal testemunho do dia foi o coronel Valter Alves Mendonça, que descreveu uma operação de 15 minutos em que não cita nenhuma das 73 mortes pelas quais mais 24 policiais são julgados nesta semana. Mendonça centrou sua versão de que é inocente somente falando por si e sua participação na invasão. Responsável pelos demais integrantes da equipe encarregada de dominar um dos pavimentos do Pavilhão 9, a expectativa era que ele desse informações sobre a conduta da tropa. No entanto, ele se limitou a dizer que participou de três confrontos, ficou ferido e se retirou do local, levando para atendimento médico outros policiais e detentos atingidos. Ele não falou de mortos nem corpos. Havia apenas presos "gemendo de dor".

* Com AE

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