Ex-capitão da Rota diz que foi atacado por detentos ao invadir Carandiru

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Valter Alves Mendonça disse em depoimento que Rota seria última a entrar no pavilhão, mas na última hora acabou tomando a frente por ordem de Ubiratan

O hoje coronel e então capitão da Rota na ocasião do massacre do Carandiru Valter Alves Mendonça afirmou em depoimento nesta quarta-feira que recebeu uma paulada e um golpe de estilete ao tentar conter uma rebelião no 3º pavimento do Pavilhão 9 da extinta casa de detenção. Ele foi o primeiro réu interrogado na segunda fase do julgamento do massacre, que no dia 2 outubro de 1992 deixou 111 mortos na casa de detenção. Outros quatro PMs serão interrogados.

Primeiro dia: Acusação dispensa testemunhas e usa vídeo de declarações

Segundo dia: Julgamento tem depoimento de testemunhas em sigilo

Mendonça foi convocado por volta das 15h daquele dia pelo coronel Ubiratan Guimarães, que já tentava negociar a rendição dos detentos. Ele teria ouvido o coronel receber a autorização da Secretaria de Segurança para invadir o complexo se julgasse necessário. “Ubiratan, então, reuniu todos para uma estratégia de invasão”, disse ele. A princípio, a Rota seria a última a entrar no pavilhão, mas “o coronel alterou a ordem e definiu que a Rota tomasse a frente”.

Julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressA nova fase do julgamento conta com 26 policiais no banco dos réus, dos 79 agentes acusados. Foto: Futura PressO massacre que aconteceu em 1992 foi o pior da história do sistema penitenciário brasileiro. Foto: Futura PressO Juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo durante julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressJulgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressHomem protesta pedindo reforma do sistema penitenciário em frente ao Fórum onde acontece o julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressEm outubro do ano passado, cento e onze cruzes foram colocam em frente ao Largo São Francisco por alunos da Faculdade de Direito, em lembrança aos mortos do massacre ocorrido há 20 anos, onde morreram 111 presos. Foto: Futura Press


Ao ultrapassar uma barricada queimada, Mendonça teria se deparado com “quatro presos mortos, um sem cabeça”. Questionado sobre a ausência dessa informação nos oito depoimentos que ele prestou anteriormente, ele afirmou que só se recordou da cena recentemente.

Empunhando uma submetralhadora e um escudo, o ex-capitão ganhou o corredor sob “clarões, disparos” e um impacto no escudo que empunhava. “Efetuei um disparo. Ao lado, um colega tomou um tiro na perna. Ali, recolhemos duas armas de presos feridos.” Dez metros depois, “novos clarões e tiros”: “Levei uma paulada na perna e um golpe de estilete no braço.”

Segundo o agora coronel, ele e seus 25 comandados passaram “15 minutos” no pavimento de “cinco metros de largura e 40 metros de profundidade”. Ao cabo desses quarto de hora, “a situação já estava controlada”. Os presos foram recolhidos para as celas enquanto ele e seus colegas socorriam presos e policiais feridos. “Um soldado ficou três dias internado depois de receber uma paulada na cabeça.”

O coronel contou “meia-dúzia de disparos” recebidos, enquanto ele teria revidado cinco vezes. Ao deixar o pavimento, Mendonça foi proibido de voltar. “Entrei e saí do presídio ainda durante o dia.”

Questionado sobre as cerca de 140 marcas de bala na parede daquele andar, o coronel afirmou que as marcas não partiram de seus comandados. “Também não sei se alguém voltou para lá depois.”

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