Jurados avaliam a culpa de 27 PMs acusados pela morte de 73 pessoas no terceiro pavimento do Pavilhão 9

Embora tivesse convocado 11 testemunhas de acusação para a segunda fase do julgamento do massacre do Carandiru (1992), que começou nesta segunda-feira (29), a promotoria dispensou sete delas, ouviu apenas um e exibiu três vídeos com testemunhos colhidos em abril, quando 23 policiais militares foram condenados a 157 anos de prisão . Desta vez, o júri avalia a responsabilidade de 27 policiais (nove na ativa) acusados pela morte de 73 pessoas no terceiro pavimento do Pavilhão 9.

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O único a ser ouvido hoje foi o perito criminal Osvaldo Negrini, que acusou a polícia de esconder os vestígios do massacre . De acordo com o perito, a roupa utilizada por ele naquele dia foi jogada fora . “Era muito sangue e estava muito escuro, não pude prosseguir.” Ele voltou para o pátio, acompanhou a retirada dos corpos e se comprometeu a voltar no dia seguinte, mas foi “desencorajado” porque haveria muita “confusão”.

Em seguida começou a exibição dos vídeos. O primeiro foi do ex-presidiário Antonio Carlos Dias, que afirmou ter sido obrigado a escalar uma pilha de corpos sob o risco de ser morto pelos policiais se tropeçassem e caíssem.

“Fomos brutalmente espancados”, afirmou Carlos Dias. Ele se referia ao corredor que os policiais formaram entre as celas e o pátio do presídio por onde os sobreviventes eram obrigados a passar depois do massacre. “Alguns eram espetados por uma faca na ponta do fuzil, outros tomam pauladas. Eu fui atingido no rosto e quebrei o nariz.”

Em seguida, falou o ex-presidiário Marco Antonio de Moura, que recordou dos gritos de “Deus cria, a Rota mata e viva o [Batalhão de] Choque” enquanto se rastejava pelo corredor polonês formado por policiais depois do massacre. “Eles contavam 'um, dois' e davam uma marretada em alguém”, recorda-se. “Eu fui o segundo. O terceiro não teve a mesma sorte que eu.”

O terceiro vídeo mostrou o testemunho do diretor da divisão de segurança da casa de detenção, Moacir dos Santos, número 2 do presídio . De acordo com ele, a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) invadiu o presídio comemorando como se fosse um gol.

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“Não precisa ser um estrategista para saber que chamar a Rota não daria certo”, afirmou Moacir, que estava almoçando quando recebeu o recado sobre a briga entre dois detentos no Pavilhão 9. Ao chegar à casa de detenção e testemunhar os disturbios, ele ligou para seu chefe imediato, o diretor geral do presídio, Ismael Pedrosa, que entrou em contato com as autoridades. “Estávamos em dez tentando negociar”, recorda-se. “Formou-se uma cúpula, que orientava as tropas do batalhão de Choque, Rota, Gate e bombeiros.”

Quando a negociação ficou difícil, a Rota teria decidido por conta própria usar marretas para arrombar o portão que os separava dos presos. “A decisão da Rota de entrar surpreendeu o Choque e frustrou as autoridades, que foram pegas de surpresa também.”

Ainda segundo a testemunha, os policiais invadiram o pavilhão comemorando “como se fosse um gol”. “Depois de abrir o portão, entrou a tropa aos gritos de guerra. As autoridades ficaram pasmadas, mas não impediram”.

Amanhã, será a vez de ouvir as seis testemunhas de defesa: quatro em plenário e duas por meio de vídeos.

O massacre

O massacre do Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. Durante uma rebelião, a Polícia Militar invadiu o local e matou 111 presos. Todos os policiais saíram ilesos. A invasão foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, que chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, mas em fevereiro de 2006 o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a decisão e o absolveu. Ubiratan acabou morto no mesmo ano, em setembro de 2006, com um tiro na barriga, em seu apartamento nos Jardins, região nobre de São Paulo.

Depois de ter sua história manchada, a casa de detenção foi desativada no começo de 2002 e demolida no final do ano. No lugar, foi construído o Parque da Juventude.

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