Sobreviventes eram mortos se tropeçassem nos corpos, diz testemunha do Carandiru

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Segunda etapa do júri avalia a culpa de 27 PMs sobre a morte de 73 pessoas no 3º pavimento do Pavilhão 9

Sobrevivente do massacre que no dia 2 de outubro de 1992 deixou 111 detentos mortos na extinta Casa de Detenção São Paulo, mais conhecida como Carandiru, o ex-presidiário Antonio Carlos Dias afirmou em seu depoimento que os presos poupados eram obrigados a escalar uma pilha de corpos e “se caíssem eles atiravam.”

Mais do julgamento:
“Rio de sangue” impediu perícia no dia do massacre do Carandiru
Promotoria dispensa sete testemunhas de acusação em júri do Carandiru
Sete homens julgarão PMs em novo júri do massacre do Carandiru

A afirmação de Carlos Dias ocorreu na primeira fase do julgamento e foi exibida pela promotoria em vídeo nesta segunda-feira (29), primeiro dia da segunda etapa do júri, que desta vez avalia a responsabilidade de 27 policiais militares sobre a morte de 73 presidiários no 3º pavimento do Pavilhão 9.

“Fomos brutalmente espancados”, afirmou Carlos Dias antes do choro interromper seu relato. Ele se referia ao corredor que os policiais formaram entre as celas e o pátio do presídio por onde os sobreviventes eram obrigados a passar depois do massacre. “Alguns eram espetados por uma faca na ponta do fuzil, outros tomam pauladas. Eu fui atingido no rosto e quebrei o nariz.”

Julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressA nova fase do julgamento conta com 26 policiais no banco dos réus, dos 79 agentes acusados. Foto: Futura PressO massacre que aconteceu em 1992 foi o pior da história do sistema penitenciário brasileiro. Foto: Futura PressO Juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo durante julgamento do massacre do Carandiru, no Fórum criminal da Barra Funda em São Paulo (SP), nesta segunda-feira (29). Foto: Futura PressJulgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressHomem protesta pedindo reforma do sistema penitenciário em frente ao Fórum onde acontece o julgamento do massacre do Carandiru. Foto: Futura PressEm outubro do ano passado, cento e onze cruzes foram colocam em frente ao Largo São Francisco por alunos da Faculdade de Direito, em lembrança aos mortos do massacre ocorrido há 20 anos, onde morreram 111 presos. Foto: Futura Press

Ao chegarem no pátio, os sobreviventes se depararam “com uma pilha de cadáveres, alguns agonizando”. “No pátio, eram montanhas de corpos, alguns agonizavam. A gente tinha de passar por cima dos corpos. Tínhamos de escalar. Se caísse, eles atiravam.”

A testemunha afirmou ainda que viu um caminhão com mais corpos no pátio e que, para ele, morreram mais de 111 detentos. "Vi um caminhão com vários mortos em cima dos outros ao lado do pavilhão". De acordo com o ex-detento, essas pessoas eram como "indigentes", "pessoas que não recebiam visita, não tinham família. Os 111 que dizem são pessoas que recebiam visita regularmente", contou depois de explicar que pensou em não mencionar isso, mas mudou de ideia.

Testemunhas

O testemunho de Carlos Dias é o segundo de hoje. O primeiro foi do perito criminal Osvaldo Negrini, que acusou a polícia de esconder os vestígios do massacre. Ainda hoje outros dois vídeos com depoimentos serão exibidos.

A promotoria dispensou sete testemunhas de acusação. Amanhã, será a vez de ouvir as oito testemunhas de defesa: seis em plenário e duas por meio de vídeos.

Júri condena 23 PMs a 156 anos de prisão por massacre no Carandiru
Leia também: PMs se sentem "traídos pelo governo"
Repórter conta como foi a cobertura do massacre do Carandiru

O massacre do Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. Durante uma rebelião, a Polícia Militar invadiu o local e matou 111 presos. Todos os policiais saíram ilesos. A invasão foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, que chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, mas em fevereiro de 2006 o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a decisão e o absolveu. Ubiratan acabou morto no mesmo ano, em setembro de 2006, com um tiro na barriga, em seu apartamento nos Jardins, região nobre de São Paulo.

Depois de ter sua história manchada, a casa de detenção foi desativada no começo de 2002 e demolida no final do ano. No lugar, foi construído o Parque da Juventude.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas