“Rio de sangue” impediu perícia no dia do massacre do Carandiru

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Testemunha de acusação relata dificuldades que enfrentou para avaliar a ação policial dentro da Casa de Detenção

Primeira testemunha de acusação ouvida na segunda etapa do julgamento do massacre do Carandiru, o perito criminal Osvaldo Negrini, relatou nesta segunda-feira a dificuldade que enfrentou para avaliar a Casa de Detenção, onde 111 pessoas foram assassinadas em outubro de 1992.

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Negrini entrou escondido no presídio, tirou algumas fotos, mas seu trabalho chegou ao fim assim que ganhou o segundo pavimento e se deparou com uma escuridão e um “rio de sangue” que o impediram de examinar o local.

Futura Press
Júri do massacre do Carandiru formado hoje no Fórum da Barra Funda, em São Paulo


Negrini foi avisado da suposta rebelião na tarde daquele dia, quando recebeu a incumbência de periciar o prédio. Diante da resistência de autoridades, ele só conseguiu seguir para a casa de detenção no final da noite, quando um delegado sugeriu que ele entrasse escondido no Carandiru.

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Ao chegar, o perito se surpreendeu com o teto queimado e restos de barricada. E ao entrar em uma barbearia, colheu material encontrado em cavidades na parede. “Todos continham cobre ou chumbo, o que comprova a utilização de revolver, pistola e metralhadora”, disse ele.

AE
Fachada da Casa de Detenção do Complexo do Carandiru, dois dias após o massacre

Quando Negrini decidiu subir para o segundo pavimento, encontrou uma “gosma” avermelhada que escorria pelas escadas. “Decidi subir para entender porque estava caindo um rio de sangue. No segundo pavimento tinha um mar de cadáveres. Contei ali 90 deles empilhados em um saguão de 40 metros quadrados. Aí eu vi de onde vinha tanto sangue.”

De acordo com o perito, a roupa utilizada por ele naquele dia foi jogada fora. “Era muito sangue e estava muito escuro, não pude prosseguir.” Ele voltou para o pátio, acompanhou a retirada dos corpos e se comprometeu a voltar no dia seguinte, mas foi “desencorajado” porque haveria muita “confusão”.

Negrini só voltou uma semana depois, com as celas lavadas. “Não encontrei nenhuma cápsula, mas colhi amostras das cavidades de bala.” O perito chegou à conclusão de que todos os tiros foram disparados contra as celas, nunca no sentido dos policiais.

O caso

O massacre do Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992. Durante uma rebelião, a Polícia Militar invadiu o local e matou 111 presos. Todos os policiais saíram ilesos. A invasão foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, que chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, mas em fevereiro de 2006 o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou a decisão e o absolveu.

Ubiratan acabou morto no mesmo ano, em setembro de 2006, com um tiro na barriga, em seu apartamento nos Jardins, região nobre de São Paulo. Depois de ter sua história manchada, a casa de detenção foi desativada no começo de 2002 e demolida no final do ano. No lugar, foi construído o Parque da Juventude.

Na primeira etapa do julgamento, realizada em abril deste ano, 23 PMs foram condenados a mais de 150 anos de reclusão.

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