Nem frio intenso vence resistência de moradores de rua a abrigos da prefeitura

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo |

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São Paulo abre 3 mil vagas emergenciais, mas mil ainda estão ociosas; dificuldade é aceitar regras de abrigo

Cama, cobertor, comida e banho quente. Nem a possibilidade de uma noite protegida nos dias mais frios dos últimos anos em São Paulo conseguiu convencer cerca de mil moradores de rua da capital, que preferem dizer não às duas mil vagas emergenciais de acolhimento abertas esta semana pela prefeitura. A dificuldade em aceitar as regras internas dos abrigos afasta os pedintes, que preferem as normas da rua.

J. Duran Machfee/Futura Press
Moradora de rua tenta se proteger do frio de cerca de 12ºC, usando plástico, enquanto faz comida em fogareiro improvisado no canteiro central da avenida Paulista

A recusa em dormir em um abrigo municipal também ocorre no restante do ano. De acordo com o último censo realizado pela prefeitura (2010), 79% dessa população já dormiu em abrigo alguma vez na vida, mas 95% preferem passar a noite nas calçadas. Com a chegada do inverno, o município subiu de 9 mil para 12 mil as vagas para receber esse público, estimado em 14 mil pessoas: mil em maio, 2 mil na última terça-feira (23).

“A resistência é seguir as regras do abrigo”, explica a coordenadora da assistência social da prefeitura, Margarida Yuba. “No espaço comum é necessário um mínimo de regras.” Ela diz que é proibido usar drogas ou ingerir bebida alcoólica nas acomodações, abstinência difícil de suportar. “Muitos têm dificuldade em aceitar.”

Margarida acredita que essa decisão é apenas o ponto alto de um desajuste que já os afastou da estrutura social aceita pela maioria. “É uma reação a uma coisa maior. É uma inadequação às estruturas da sociedade, como o capitalismo, que expulsa ao invés de incluir.”

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Com 8,7ºC, São Paulo tem o dia mais frio dos últimos 52 anos

Apesar disso, a Secretaria de Assistência Social insiste no convencimento diário, por meio de 400 profissionais. “A abordagem ocorre o ano inteiro, com resultados de médio e longo prazo. Mas, nessa época do ano, o objetivo é bem focado: tirar essas pessoas da rua para evitar a morte delas.”

Para recolher essa população, a secretaria colocou à disposição três ônibus, que todos os dias circulam entre 16h e 2h entre as áreas com maior concentração de moradores de rua: “no Pátio do Colégio, Praça da Sé, Bela Vista, Bresser e Alcântara Machado”. Essas pessoas são levadas para um dos 63 Centros de Acolhida. Lá, é oferecido jantar, cobertor, kit de higiene pessoal e café da manhã.

Trabalhando com moradores de rua desde 1982, Margarida acredita na diversidade de razões para que alguém se decida pela rua. “Eles se sentem expulsos pela família e sociedade. Essa reinserção social é baixa porque é preciso primeiro entender e depois criar um vínculo com essas pessoas. Só confiantes eles aceitam o abrigo.”

Perfil da população de rua

De acordo com o Censo, a idade média de quem vive em alguma calçada na região central de São Paulo é de 40 anos, raramente brancos. A porcentagem de analfabetos é superior à média do município, que abriga principalmente paulistas, baianos e mineiros.

Ainda segundo o estudo, 25% dessa população morava na rua havia 1 ano, outros 25% viviam há mais de 10 anos, enquanto o restante se distribui em um intervalo entre 1 a 9 anos.

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