Sem bolsa-aluguel, moradores voltam para Favela do Moinho 10 meses após incêndio

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo |

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Moradores pediram a Haddad a retirada de muro de quatro metros, única rota de fuga em caso de incêndio

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A favela do Moinho, no centro de São Paulo, é pequena. Seus 30 mil metros quadrados abrigam pouco mais de 400 barracos. Neles, no entanto, se espremem mais de 810 famílias, número que não para de crescer dez meses depois do último incêndio, que transformou em cinzas 80 barracos e matou pelo menos uma pessoa.

Insatisfeitos com o valor e a burocracia do auxílio-aluguel, pago pela prefeitura, esses moradores se arriscam a voltar para a favela, onde improvisam a fiação elétrica de suas casas de madeira, erguidas entre duas linhas de trem e um muro de quatro metros nos fundos do terreno.

Leia também: Incêndio em favela deixa morto e 300 desabrigados no centro

Para evitar que o retorno dessas famílias resulte em nova tragédia, moradores da comunidade fizeram um protesto no dia 5 de julho pedindo uma audiência com o prefeito Fernando Haddad (PT), que recebeu uma comissão no último dia 12, quando se comprometeu a tomar providências “urgentes” para derrubar o muro, construído para isolar os barracos do prédio que pegou fogo em setembro do ano passado.

“Trata-se da nossa única rota de saída em caso de incêndio”, afirma o líder comunitário Caio Castro, de 30 anos. “Aquele muro precisa ser derrubado ou o caminhão de bombeiros não vai ter por onde entrar.”

Assim como o muro, Castro acredita que o aluguel divide a comunidade, que ao perder tudo, recebe da prefeitura o valor de R$ 1.800 sob a condição de utilizá-lo no pagamento de seis meses de aluguel. O valor equivale a R$ 300 por mês. “Aluguei a minha em Perus, longe daqui. Não tenho espaço nem para lavar roupa”, conta a dona de casa Maria Luíza, de 55 anos. “Estou sempre aqui porque não recebo mais o auxílio e não tenho condições de continuar pagando aluguel.”

Wanderley Preite Sobrinho/iG
“Aluguei a minha em Perus, longe daqui. Não tenho espaço nem para lavar roupa”, conta a dona de casa Maria Luíza, de 55 anos

De acordo com a prefeitura, “este benefício é uma alternativa de atendimento habitacional provisória concedida para remoção de famílias afetadas por obras públicas, determinação judicial ou localizadas em áreas de risco”. Mas a bolsa só é renovada por tempo indeterminado “se a remoção for por obra pública”.

Mãe de seis filhos, a desempregada Vanderleia de Sá (27) também optou por ficar no Moinho. “Eu não posso correr o risco de ficar na rua com meus filhos seis meses depois. Além disso eles todos estão matriculados aqui perto.”

A líder comunitária Alessandra Moja (29) diz que muitos moradores mal conseguem usar o dinheiro para pagar aluguel: “Depois de perder tudo no incêndio, muitos usam o dinheiro para comprar fogão, roupa, colchão. Vão pagar aluguel como?”

Wanderley Preite Sobrinho/iG
Favela do Moinho, no centro de São Paulo

O grupo recebido por Haddad aproveitou o encontro para sugerir uma alternativa ao conjunto habitacional oferecido pela prefeitura na Vila dos Remédios, zona oeste. “As pessoas trabalham e estudam aqui”, reforça Castro. “Por isso sugerimos que a prefeitura se junte à comunidade na formulação de um projeto de urbanização para este terreno ou para outro aqui no centro. Também pedimos que a mão de obra seja local.”

Questionada a esse respeito, a prefeitura respondeu que o terreno da favela está em nome “da União (extinta Rede Ferroviária Federal - RFF), 100% cercada por trilhos, operados pela CPTM, sem qualquer utilização viável, a não ser para atividades ferroviárias decorrentes do funcionamento atual desse sistema”. Apesar disso, a favela completa 27 anos em 2013.

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