Comunidade e Vila Olímpia se tornam mesmo bairro quando o assunto é trabalho. Conheça a história de moradores que lidam com os dois mundos da zona sul

Apesar de mundos divididos por uma base da PM, a interação entre moradores da Favela Funchal e o bairro Vila Olímpia, na zona sul, ocorre quando o assunto é trabalho e busca por oportunidades. Foi o caso do aposentado Raimundo José da Silva, de 71 anos, o sr. Rouxinho. "Acompanhei a construção do bairro e acabei trabalhando como segurança do e-Tower (prédio vizinho a comunidade). Me aposentei no quintal do meu barraco", contou rindo ao iG .

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"Meus colegas sempre ficavam com inveja quando eu falava que estava indo embora [do trabalho]. Eles sabiam que eu só ia demorar três minutos para chegar em casa". Já aposentando, hoje diz que quando tem saudade volta ao prédio e é bem recebido pelos funcionários. "Entro e saio de cabeça erguida."

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A Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, localizada na Vila Olímpia
Carolina Garcia / iG São Paulo
A Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, localizada na Vila Olímpia

Morador da favela há quase 40 anos, Rouxinho conta que deixou "sua vida e o amor" na cidade de Seabra, na Bahia, por melhores oportunidades em São Paulo. Antes de se aposentar, também trabalhou como pedreiro e segurança em eventos. "Deixei a morena por lá e tentei a vida por aqui. Depois de cinco anos, resolvi ir buscá-la". E o investimento deu certo, a relação com dona Elizabeth durou 52 anos e gerou oito filhos. Beth morreu no ano passado vítima de um derrame.

Com todos os filhos criados e espalhados pela capital paulista, Roxinho acredita que está na hora de encontrar um novo amor. "Estou caçando uma gata para casar. Mas não precisa casar no papel, só morar junto está bom. É muito ruim ficar sozinho à noite", disse Roxinho, enquanto arrumava a posição do chapéu. Questionado se poderia encontrar uma pretendente na comunidade, ele rebateu: "Ah, até acho. Mas não quero qualquer porcaria também não."

"Aqui dentro e lá de fora"

Danilo Pereira Cruz, de 19 anos, é outro morador que - apenas iniciando sua vida profissional - já lida com as diferenças de público. "Atendo os dois públicos, uma classe mais baixa aqui na comunidade e um pessoal mais rico na Vila Olímpia. Tenho clientes aqui dentro e lá de fora. No final, são todos clientes."

Danilo Pereira, de 19 anos, trabalha dentro e fora da comunidade como cabeleireiro
Reprodução/Wanderley Preite Sobrinho
Danilo Pereira, de 19 anos, trabalha dentro e fora da comunidade como cabeleireiro

Com uma pequena maleta vermelha, onde organiza escovas de cabelo e secador, o cabeleireiro atende suas vizinhas com hora marcada. Danilo descobriu a profissão há pouco tempo e já pensa como poderia expandir os negócios. "Agora o próximo passo é um curso para ser maquiador profissional". Em um dia agitado, ele chega a atender 20 clientes.

Morar próximo ao trabalho é vantajoso, mas quando se trata de uma região tão desigual, a vantagem pode levar ao preconceito. A diarista D.O., de 30 anos, que preferiu não ter nome divulgado, já passou por situações complicadas. Mãe de quatro filhos e com o aluguel de R$ 200 para pagar, ela realiza faxinas em uma residência "no bairro ao lado".

"Quando disse que morava na Funchal, ela [patroa] perguntou: 'Você morando Vila Olímpia? Em qual parte'. Ela achou que eu estava mentindo", disse D. Para ela, foi compreensível o mal-entendido já que "o salário do marido fica abaixo do aluguel da região".

Para D. é difícil conseguir um emprego na região pelo preconceito com moradores de comunidade. "Acho que tem medo de empregar pensando que vamos roubar ou outra coisa". Hoje, a família espera a construção de uma nova casa na comunidade. O proprietário pediu o barraco de volta após os rumores de uma futura urbanização.

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