Sem formação, paraense criada em escola assume papel de professora em favela

Por Carolina Garcia -iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Filha, irmã e sobrinha de professores, Cecília monitora a sede de ensino da Favela Funchal, no bairro da Vila Olímpia

O ambiente de uma sala de aula é familiar para Ana Cecília Vieira, de 29, desde os primeiros anos de sua infância. Filha, irmã e sobrinha de professores, a paraense que foi criada por merendeiras em uma escola em Belém (PA) desenvolveu o gosto por lecionar. Sem formação, no entanto, Cecília conquistou o posto de 'professora amada' na Favela Funchal, na zona sul de São Paulo, onde mora há pouco menos de seis meses.

Desde quarta-feira (3), o iG publica reportagens sobre a Favela Funchal e seus personagens. A comunidade chama a atenção por dividir um dos metros quadrados mais caros de São Paulo e por suas histórias. Leia sobre como a favela se formou e a história de Zézinho, o catador de papelão fã dos Beatles.

Caminhando pela rua Coliseu, onde está localizada a favela, é comum ver Cecília sendo escoltada por crianças. Inquietas, sempre a abordam com a mesma pergunta: "Fessora (sic), que horas abre a sede?". A porta-voz da turma era Carolina, que aparentava ter 10 anos. "Carol, assim como todos os dias, a sede abre às 15 horas", respondeu Cecília pacientemente. A resposta deixou a menina frustada já que o relógio marcava apenas 11 horas.

Raimundo José da Silva, de 71 anos, o sr. Rouxinho. Após perder a esposa, ele procura uma "nova gata". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloRouxinho trabalhou como pedreiro antes de ser segurança do e-Tower prédio de 37 andares vizinho a comunidade. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloDanilo Pereira Cruz, de 19 anos, trabalha dentro e fora da comunidade como cabeleireiro. "No final, todos são clientes". Foto: Reprodução/Wanderley Preite SobrinhoDanilo Pereira Cruz, de 19 anos, trabalha dentro e fora da comunidade como cabeleireiro. "No final, todos são clientes". Foto: Reprodução/Wanderley Preite SobrinhoMaleta vermelha onde Danilo organiza seus produtos e escovas. Em dia agitado, ele chega a atender 20 clientes. Foto: Reprodução/Wanderley Preite SobrinhoCecília na janela de sua casa, que recusa a chamar de barraco, na Favela Funchal, zona sul . Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEm sua casa item foram doados pela família em Belém (PA). "Agradecemos pois já temos muito", disse. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloPara ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas abaixo da média. Na entrada, há um cartaz com as regras. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloPara ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas abaixo da média. "Uma forma de estimular a ida ao colégio", diz Cecília. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. Há dez computadores com internet, livros e jogos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. "Eles deixam a escola e já correm para lá". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloToda sexta a professora é responsável pela pipoca na sessão cinema da comunidade. "Se coloco filme, eles já esperam a pipoca". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloToda sexta-feira a professora é responsável pela pipoca na sessão cinema da comunidade. "Se coloco filme, eles já esperam a pipoca". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCecília na entrada da sede com os primeiros alunos. O espaço funciona entre 15h e 19h durante a semana. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloAna Cecília Vieira, de 29 anos, professora na comunidade Favela Funchal. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEm sua casa item foram doados pela família em Belém (PA). "Agradecemos pois já temos muito", disse. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. "Eles deixam a escola e já correm para lá". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloMônica Maria, irmã da líder comunitária, também trabalha com as crianças na sede. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloHá dez computadores com internet para as crianças por uma hora cada. Facebook é o campeão de acessos entre os adolescentes. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. "Eles deixam a escola e já correm para lá". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho com um dos animais criados na Favela Funchal, o gato Markinho. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloJosé Gouveia, o Zézinho, mostra a sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho com sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Disco Let it Be é o seu favorito. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloDetalhe do anel "Autoridade" na mão esquerda. Frequentador da igreja Universal do Reino de Deus, Zé ganhou o anel em uma corrente de oração. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho ao lado de sua cadela Radja. Ao fundo o mural com um dos seus sonhos, a urbanização da favela. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho com sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Disco Let it Be é o seu favorito. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloJosé Gouveia, o Zézinho, mostra a sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCarroça personalizada com "Let it Be" é usada para coletar materiais recicláveis em São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCarroça personalizada com "Let it Be" é usada para coletar materiais recicláveis em São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCarroça personalizada com "Let it Be" é usada para coletar materiais recicláveis em São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho mostra o postal com a foto eleita a melhor de 2005 pelo World Press Photo. "Até a Yoko Ono me conhece". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloO vizinho rico da comunidade, o edifício e-Tower com mais de 37 andares. "Nos chamam de favela, mas chegamos primeiro". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloO vizinho rico da comunidade, o edifício e-Tower com mais de 37 andares. "Nos chamam de favela, mas chegamos primeiro". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloProfessora Ana Cecília Vieira, de 29 anos. A Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloO casal Aluísio Isidoro da Silva, 42, e sua mulher Edileuza Lima, de 28. Eles moram na comunidade há 10 anos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São Paulo

"Eles sabem [o horário] porque é assim todos os dias desde que a sede foi criada", disse Cecília sorrindo. Na comunidade Sou Coliseu, um nome mais apreciado pelos moradores, a "sede" é o evento de todas as tardes. Aberto das 15h às 19h, o espaço conta com dez computadores com internet e espaço para jogos. Ele foi conquistado após doações e é mantido pelos poucos 'parceiros' que ajudam a comunidade mensalmente.

Série 'Favela Funchal':
Conheça a favela de R$ 50 milhões da zona sul de São Paulo
Beatlemaníaco, catador pinta sonhos nas fronteiras da Favela Funchal

Carolina Garcia / iG São Paulo
Para ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas ruins

Segundo o último levantamento, realizado pela líder comunitária Rosa dos Santos, ao menos 120 crianças moram na favela. Cecília explicou que o local foi criado para acolher os pequenos após o período da escola para evitar que fiquem pelas ruas. Para participar é simples: ter freqüência comprovada nas aulas e boas notas. "Não tem conversa, faltou não entra", contou a professora.

As quatro horas na sala colorida são preenchidas com jogos, filmes e atividades no computador. A sede tem DVD, mas a TV e a pipoca ficam por conta de Cecília, que prepara tudo em sua casa - local que recusa a chamar de "barraco". "Se coloco filme, eles já esperam a pipoca. Uma vez, eu contei que amava pipoca com leite condensado. Desde então, quando desço com a bacia, eles já me esperam com o leite condensado", disse rindo enquanto os grãos de milho estouravam na panela. Próximo ao fogão, três 'alunas' monitoravam Cecília. "É assim o dia inteiro."

Rio de Janeiro x São Paulo: conheça as principais diferenças das favelas

Na comunidade é raro escutar seu nome. Ali, ela deixou de ser Ana Cecília e virou apenas "professora". E isso até para os adultos. "Gosto de pensar que já faço parte da vida deles". Muita vezes, já se viu na posição de conselheira pronta para resolver "uns probleminhas". "Dou conselho sobre namoricos, mas fujo quando o assunto é sexo", contou ao observar os alunos que impacientes pediam por uma nova opção de filme.

Arquivo pessoal
Cecília ao lado do marido Reinaldo durante celebração do Círio de Nazaré, de Belém (PA)

Devoção e saudades

A quase 3 mil quilômetros de sua família, Cecília busca amenizar a saudade de seus familiares e da prática de sua fé. Com seu marido Reinaldo, com quem é casada há 12 anos e tem dois filhos (Giovani, de 9, e Giovana, de 3), ela divide a devoção a Nossa Senhora de Nazaré e idas ao Círio, a maior celebração católica do Brasil.

"[Participar do Círio] não é bem uma promessa, nós agradecemos pelo que temos e conquistamos", explicou alcançando um tom saudosista. Ela e marido já enfrentaram a corda - considerada elo entre Nossa Senhora e os fiéis - três vezes e se preparam para a próxima experiência neste ano. "Às quatro da manhã estarei pronta para começar [a procissão]. A gente sente o que é Círio com a alma e não com os olhos".

Emocionada e já sem palavras para dizer o que o ato significava para sua família, Cecília apelou para uma música que poderia explicar "a beleza do Círio". Em seu computador, buscou a canção "Eu Sou de Lá" do padre Fábio de Melo. Curiosas, algumas crianças acompanharam o vídeo que a professora apresentava. "É muito mais que ver um mar de gente nas ruas de Belém a festejar. É fato que a palavra não alcança. Não cabe perguntar o que ele é. O Círio ao coração do paraense", cantou Cecília.

Leia tudo sobre: favela funchalcoliseucomunidadeigspvila olímpia

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas