Filha, irmã e sobrinha de professores, Cecília monitora a sede de ensino da Favela Funchal, no bairro da Vila Olímpia

O ambiente de uma sala de aula é familiar para Ana Cecília Vieira, de 29, desde os primeiros anos de sua infância. Filha, irmã e sobrinha de professores, a paraense que foi criada por merendeiras em uma escola em Belém (PA) desenvolveu o gosto por lecionar. Sem formação, no entanto, Cecília conquistou o posto de 'professora amada' na Favela Funchal , na zona sul de São Paulo, onde mora há pouco menos de seis meses.

Desde quarta-feira (3), o iG publica reportagens sobre a Favela Funchal e seus personagens. A comunidade chama a atenção por dividir um dos metros quadrados mais caros de São Paulo e por suas histórias. Leia sobre  como a favela se formou e a história de Zézinho , o catador de papelão fã dos Beatles.

Caminhando pela rua Coliseu, onde está localizada a favela, é comum ver Cecília sendo escoltada por crianças. Inquietas, sempre a abordam com a mesma pergunta: "Fessora (sic), que horas abre a sede?". A porta-voz da turma era Carolina, que aparentava ter 10 anos. "Carol, assim como todos os dias, a sede abre às 15 horas", respondeu Cecília pacientemente. A resposta deixou a menina frustada já que o relógio marcava apenas 11 horas.

"Eles sabem [o horário] porque é assim todos os dias desde que a sede foi criada", disse Cecília sorrindo. Na comunidade Sou Coliseu, um nome mais apreciado pelos moradores, a "sede" é o evento de todas as tardes. Aberto das 15h às 19h, o espaço conta com dez computadores com internet e espaço para jogos. Ele foi conquistado após doações e é mantido pelos poucos 'parceiros' que ajudam a comunidade mensalmente.

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Para ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas ruins
Carolina Garcia / iG São Paulo
Para ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas ruins

Segundo o último levantamento, realizado pela líder comunitária Rosa dos Santos, ao menos 120 crianças moram na favela. Cecília explicou que o local foi criado para acolher os pequenos após o período da escola para evitar que fiquem pelas ruas. Para participar é simples: ter freqüência comprovada nas aulas e boas notas. "Não tem conversa, faltou não entra", contou a professora.

As quatro horas na sala colorida são preenchidas com jogos, filmes e atividades no computador. A sede tem DVD, mas a TV e a pipoca ficam por conta de Cecília, que prepara tudo em sua casa - local que recusa a chamar de "barraco". "Se coloco filme, eles já esperam a pipoca. Uma vez, eu contei que amava pipoca com leite condensado. Desde então, quando desço com a bacia, eles já me esperam com o leite condensado", disse rindo enquanto os grãos de milho estouravam na panela. Próximo ao fogão, três 'alunas' monitoravam Cecília. "É assim o dia inteiro."

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Na comunidade é raro escutar seu nome. Ali, ela deixou de ser Ana Cecília e virou apenas "professora". E isso até para os adultos. "Gosto de pensar que já faço parte da vida deles". Muita vezes, já se viu na posição de conselheira pronta para resolver "uns probleminhas". "Dou conselho sobre namoricos, mas fujo quando o assunto é sexo", contou ao observar os alunos que impacientes pediam por uma nova opção de filme.

Cecília ao lado do marido Reinaldo durante celebração do Círio de Nazaré, de Belém (PA)
Arquivo pessoal
Cecília ao lado do marido Reinaldo durante celebração do Círio de Nazaré, de Belém (PA)

Devoção e saudades

A quase 3 mil quilômetros de sua família, Cecília busca amenizar a saudade de seus familiares e da prática de sua fé. Com seu marido Reinaldo, com quem é casada há 12 anos e tem dois filhos (Giovani, de 9, e Giovana, de 3), ela divide a devoção a Nossa Senhora de Nazaré e idas ao Círio, a maior celebração católica do Brasil .

" [Participar do Círio] não é bem uma promessa, nós agradecemos pelo que temos e conquistamos", explicou alcançando um tom saudosista. Ela e marido já enfrentaram a corda - considerada elo entre Nossa Senhora e os fiéis - três vezes e se preparam para a próxima experiência neste ano. "Às quatro da manhã estarei pronta para começar [a procissão] . A gente sente o que é Círio com a alma e não com os olhos".

Emocionada e já sem palavras para dizer o que o ato significava para sua família, Cecília apelou para uma música que poderia explicar "a beleza do Círio". Em seu computador, buscou a canção "Eu Sou de Lá" do padre Fábio de Melo. Curiosas, algumas crianças acompanharam o vídeo que a professora apresentava. "É muito mais que ver um mar de gente nas ruas de Belém a festejar. É fato que a palavra não alcança. Não cabe perguntar o que ele é. O Círio ao coração do paraense", cantou Cecília.

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