Entre lados 'rico' e 'pobre' da Vila Olímpia, Zé desenha promessas de urbanização e esperança ao som de Beatles

O catador de papelão José Pedro Gouveia, de 49 anos, se destaca entre os milhares de moradores da Favela Funchal, comunidade encravada entre prédios e escritórios do bairro Vila Olímpia , na zona sul de São Paulo. O bom humor conta, mas o que revela Zézinho - apelido que ganhou no local - é sua admiração pelos Beatles e como eterniza seus “sonhos” nas fronteiras da favela.

(Videorreportagem de Wanderley Preite Sobrinho, iG São Paulo)

Na quarta-feira (3), o iG publicou uma reportagem sobre a Favela Funchal, comunidade que chama a atenção por ocupar um terreno de R$ 50 milhões. Clique aqui para ler a primeira reportagem da série.

“Aprendi a desenhar há 12 anos quase como uma imposição. Vi as paredes sujas e com muito palavrão, não era legal”, explicou ao iG ao lado de uma de suas obras. No entanto, o trabalho de Zézinho não foi bem recebido no começo. “Lembro que uma criança virou para mim e disse: ‘Zé, esse desenho é muito feio, cara’. Aí fui me aperfeiçoando. Hoje recebo elogios e sei que faço diferença na vida das pessoas.”

Favela Funchal:
Conheça a comunidade de R$ 50 milhões na zona sul de São Paulo

As paredes nos entornos da favela, que hoje têm a função de fronteiras entre o mundo “rico” (na rua Funchal) e do “pobre” (na travessa Coliseu), viraram um mural com os principais sonhos da comunidade. Em frente à sua casa, por exemplo, Zézinho exibe uma gravura com prédios (futuros conjuntos habitacionais) ao lado de crianças felizes. “Um dia quero ver tudo isso aqui. Daqui uns anos, a criançada e meus filhos vão falar: ‘Olha, os sonhos daquele louco viraram realidade’. Você vai ver.”

Explorando seu lado fã, Zé transforma as paredes com sua interpretação das músicas do quarteto de Liverpool. “Sou o único fã dos Beatles no Brasil. Só pegar o ranking de pessoas carentes e que moram em favelas eu garanto o primeiro lugar. Até Yoko Ono me conhece”, disse rindo ao mostrar os 22 LPs do grupo que conserva em seu barraco. E ele não estava brincando.

O postal de Zézinho com a foto eleita a melhor de 2005 pelo World Press Photo
Carolina Garcia / iG São Paulo
O postal de Zézinho com a foto eleita a melhor de 2005 pelo World Press Photo

Em 2005, uma foto sua em uma parede recém-pintada com as letras de Imagine rendeu o prêmio de melhor fotografia do ano no World Press Photo, na categoria Cotidiano. As fotografias selecionadas acabam virando cartões postais no exterior. Zé contou que sua foto, que foi registrada por um fotógrafo profissional, precisou ser aprovada pela Yoko Ono (viúva de John Lennon) por conta dos direitos autorais. “Recebi uma carta dela dizendo que estava feliz por saber que alguém de comunidade gostava dos Beatles”.

O feito garantiu a fama de Zézinho pela favela. Entre todos os sucessos da banda, o catador deixou claro que sua favorita é Let It Be, “deixa estar” em tradução livre. “É linda demais e explica a minha história”. Para ele, os famosos versos escritos por Paul McCartney narram sua trajetória entre a cidade de Cupira, no interior de Pernambuco, e São Paulo, na década de 80.

Ao sair de sua cidade natal, com 16 anos, ele disse ter deixado para trás fome e sofrimento. “Amo minha cidade e nunca vou esquecer de lá, mas lembro do sofrimento [de perder o pai que cometeu suicídio] e da fome que passei. Eu e meus nove irmãos sofremos muito”. Ele conta que o momento mais marcante de sua infância era ir ao mercado coletar sobras de alimentos para a família. "Era horrível, batiam e pisavam na gente."

Zézinho com a carroça personalizada com
Carolina Garcia / iG São Paulo
Zézinho com a carroça personalizada com "Let it Be", sua música favorita dos Beatles

“Apenas não existimos”

Morador da comunidade há 25 anos, Zézinho defende que a Favela Funchal seja tratada como parte legítima do bairro Vila Olímpia.

“De uma rua para outra, você entra em outro país. Os empresários da região, dos seus prédios bonitos, insistem em não nos ver. E nos chamam de favela, mas quem chegou primeiro?”, questionou, comentando que a ocupação se deu décadas antes da urbanização e boom mobiliário do bairro.

Orgulhoso do seu trabalho como catador de papelão, que executa há 15 anos e de onde tira R$ 700 por mês, Zé conta que na Favela Funchal construiu sua família, criou seus quatro filhos e expandiu sua casa. “Precisamos de uma ação aqui [a urbanização] . Só vou descansar quando ver meus filhos com a riqueza de ter uma casa de alvenaria.”

Nesta sexta (5), o leitor do iG conhecerá Ana Cecília Vieira, de 29. Há pouco tempo na favela, Cecília já é amada pelas crianças. Ela conta como foi difícil deixar a família e sua fé por novas oportunidades em São Paulo.

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