Beatlemaníaco, catador de papelão pinta sonhos nas fronteiras da Favela Funchal

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Entre lados 'rico' e 'pobre' da Vila Olímpia, Zé desenha promessas de urbanização e esperança ao som de Beatles

O catador de papelão José Pedro Gouveia, de 49 anos, se destaca entre os milhares de moradores da Favela Funchal, comunidade encravada entre prédios e escritórios do bairro Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo. O bom humor conta, mas o que revela Zézinho - apelido que ganhou no local - é sua admiração pelos Beatles e como eterniza seus “sonhos” nas fronteiras da favela.

(Videorreportagem de Wanderley Preite Sobrinho, iG São Paulo)

Na quarta-feira (3), o iG publicou uma reportagem sobre a Favela Funchal, comunidade que chama a atenção por ocupar um terreno de R$ 50 milhões. Clique aqui para ler a primeira reportagem da série.

“Aprendi a desenhar há 12 anos quase como uma imposição. Vi as paredes sujas e com muito palavrão, não era legal”, explicou ao iG ao lado de uma de suas obras. No entanto, o trabalho de Zézinho não foi bem recebido no começo. “Lembro que uma criança virou para mim e disse: ‘Zé, esse desenho é muito feio, cara’. Aí fui me aperfeiçoando. Hoje recebo elogios e sei que faço diferença na vida das pessoas.”

Favela Funchal:
Conheça a comunidade de R$ 50 milhões na zona sul de São Paulo

Raimundo José da Silva, de 71 anos, o sr. Rouxinho. Após perder a esposa, ele procura uma "nova gata". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloRouxinho trabalhou como pedreiro antes de ser segurança do e-Tower prédio de 37 andares vizinho a comunidade. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloDanilo Pereira Cruz, de 19 anos, trabalha dentro e fora da comunidade como cabeleireiro. "No final, todos são clientes". Foto: Reprodução/Wanderley Preite SobrinhoDanilo Pereira Cruz, de 19 anos, trabalha dentro e fora da comunidade como cabeleireiro. "No final, todos são clientes". Foto: Reprodução/Wanderley Preite SobrinhoMaleta vermelha onde Danilo organiza seus produtos e escovas. Em dia agitado, ele chega a atender 20 clientes. Foto: Reprodução/Wanderley Preite SobrinhoCecília na janela de sua casa, que recusa a chamar de barraco, na Favela Funchal, zona sul . Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEm sua casa item foram doados pela família em Belém (PA). "Agradecemos pois já temos muito", disse. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloPara ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas abaixo da média. Na entrada, há um cartaz com as regras. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloPara ter acesso ao espaço as crianças não podem faltar na escola e ter notas abaixo da média. "Uma forma de estimular a ida ao colégio", diz Cecília. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. Há dez computadores com internet, livros e jogos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. "Eles deixam a escola e já correm para lá". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloToda sexta a professora é responsável pela pipoca na sessão cinema da comunidade. "Se coloco filme, eles já esperam a pipoca". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloToda sexta-feira a professora é responsável pela pipoca na sessão cinema da comunidade. "Se coloco filme, eles já esperam a pipoca". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCecília na entrada da sede com os primeiros alunos. O espaço funciona entre 15h e 19h durante a semana. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloAna Cecília Vieira, de 29 anos, professora na comunidade Favela Funchal. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEm sua casa item foram doados pela família em Belém (PA). "Agradecemos pois já temos muito", disse. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. "Eles deixam a escola e já correm para lá". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloMônica Maria, irmã da líder comunitária, também trabalha com as crianças na sede. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloHá dez computadores com internet para as crianças por uma hora cada. Facebook é o campeão de acessos entre os adolescentes. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEspaço foi criado após doações com o objetivo de para tirar as crianças das ruas. "Eles deixam a escola e já correm para lá". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho com um dos animais criados na Favela Funchal, o gato Markinho. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloJosé Gouveia, o Zézinho, mostra a sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho com sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Disco Let it Be é o seu favorito. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloDetalhe do anel "Autoridade" na mão esquerda. Frequentador da igreja Universal do Reino de Deus, Zé ganhou o anel em uma corrente de oração. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho ao lado de sua cadela Radja. Ao fundo o mural com um dos seus sonhos, a urbanização da favela. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho com sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Disco Let it Be é o seu favorito. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloJosé Gouveia, o Zézinho, mostra a sua coleção de LPs dos Beatles que guarda em seu barraco. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCarroça personalizada com "Let it Be" é usada para coletar materiais recicláveis em São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCarroça personalizada com "Let it Be" é usada para coletar materiais recicláveis em São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCarroça personalizada com "Let it Be" é usada para coletar materiais recicláveis em São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloZézinho mostra o postal com a foto eleita a melhor de 2005 pelo World Press Photo. "Até a Yoko Ono me conhece". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloO vizinho rico da comunidade, o edifício e-Tower com mais de 37 andares. "Nos chamam de favela, mas chegamos primeiro". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloO vizinho rico da comunidade, o edifício e-Tower com mais de 37 andares. "Nos chamam de favela, mas chegamos primeiro". Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloProfessora Ana Cecília Vieira, de 29 anos. A Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloO casal Aluísio Isidoro da Silva, 42, e sua mulher Edileuza Lima, de 28. Eles moram na comunidade há 10 anos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA Favela Funchal, chamada de 'Sou Coliseu' pelos moradores, está localizada no bairro Vila Olímpia, na zona sul. Foto: Carolina Garcia / iG São Paulo

As paredes nos entornos da favela, que hoje têm a função de fronteiras entre o mundo “rico” (na rua Funchal) e do “pobre” (na travessa Coliseu), viraram um mural com os principais sonhos da comunidade. Em frente à sua casa, por exemplo, Zézinho exibe uma gravura com prédios (futuros conjuntos habitacionais) ao lado de crianças felizes. “Um dia quero ver tudo isso aqui. Daqui uns anos, a criançada e meus filhos vão falar: ‘Olha, os sonhos daquele louco viraram realidade’. Você vai ver.”

Explorando seu lado fã, Zé transforma as paredes com sua interpretação das músicas do quarteto de Liverpool. “Sou o único fã dos Beatles no Brasil. Só pegar o ranking de pessoas carentes e que moram em favelas eu garanto o primeiro lugar. Até Yoko Ono me conhece”, disse rindo ao mostrar os 22 LPs do grupo que conserva em seu barraco. E ele não estava brincando.

Carolina Garcia / iG São Paulo
O postal de Zézinho com a foto eleita a melhor de 2005 pelo World Press Photo

Em 2005, uma foto sua em uma parede recém-pintada com as letras de Imagine rendeu o prêmio de melhor fotografia do ano no World Press Photo, na categoria Cotidiano. As fotografias selecionadas acabam virando cartões postais no exterior. Zé contou que sua foto, que foi registrada por um fotógrafo profissional, precisou ser aprovada pela Yoko Ono (viúva de John Lennon) por conta dos direitos autorais. “Recebi uma carta dela dizendo que estava feliz por saber que alguém de comunidade gostava dos Beatles”.

O feito garantiu a fama de Zézinho pela favela. Entre todos os sucessos da banda, o catador deixou claro que sua favorita é Let It Be, “deixa estar” em tradução livre. “É linda demais e explica a minha história”. Para ele, os famosos versos escritos por Paul McCartney narram sua trajetória entre a cidade de Cupira, no interior de Pernambuco, e São Paulo, na década de 80.

Ao sair de sua cidade natal, com 16 anos, ele disse ter deixado para trás fome e sofrimento. “Amo minha cidade e nunca vou esquecer de lá, mas lembro do sofrimento [de perder o pai que cometeu suicídio] e da fome que passei. Eu e meus nove irmãos sofremos muito”. Ele conta que o momento mais marcante de sua infância era ir ao mercado coletar sobras de alimentos para a família. "Era horrível, batiam e pisavam na gente."

Carolina Garcia / iG São Paulo
Zézinho com a carroça personalizada com "Let it Be", sua música favorita dos Beatles

“Apenas não existimos”

Morador da comunidade há 25 anos, Zézinho defende que a Favela Funchal seja tratada como parte legítima do bairro Vila Olímpia.

“De uma rua para outra, você entra em outro país. Os empresários da região, dos seus prédios bonitos, insistem em não nos ver. E nos chamam de favela, mas quem chegou primeiro?”, questionou, comentando que a ocupação se deu décadas antes da urbanização e boom mobiliário do bairro.

Orgulhoso do seu trabalho como catador de papelão, que executa há 15 anos e de onde tira R$ 700 por mês, Zé conta que na Favela Funchal construiu sua família, criou seus quatro filhos e expandiu sua casa. “Precisamos de uma ação aqui [a urbanização]. Só vou descansar quando ver meus filhos com a riqueza de ter uma casa de alvenaria.”

Nesta sexta (5), o leitor do iG conhecerá Ana Cecília Vieira, de 29. Há pouco tempo na favela, Cecília já é amada pelas crianças. Ela conta como foi difícil deixar a família e sua fé por novas oportunidades em São Paulo.

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