Favela Funchal 'sobrevive' escondida entre prédios e shopping na Vila Olímpia, um dos m² mais caros da capital

Com a desigualdade a menos de 100 metros, moradores da Favela Funchal vivem entre prédios espelhados e escritórios da Vila Olímpia, um dos centros comerciais mais valorizados da cidade de São Paulo. "Esquecida pelo poder público e ignorada pela sociedade”, define a líder comunitária Rosana Maria dos Santos, de 49 anos, a história de uma ocupação que já dura 51 anos. A área de 5 mil m², com valor aproximado de R$ 50 milhões, tornou invisível a rua Coliseu, uma das travessas da movimentada rua Funchal.

Assista ao vídeo e conheça a Favela Funchal:

Segundo a Prefeitura de São Paulo, a comunidade abriga 1.200 moradores em ao menos 250 barracos. Para os moradores, os números não estão atualizados e escondem a real dimensão da favela.

O iG acompanhou a rotina da comunidade e publica nesta semana uma série de reportagens sobre o tema. Conheça personagens, suas histórias e como eles vivem dividindo um dos m ²  mais caros de São Paulo. 

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O terreno foi avaliado a pedido do iG por Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), e ganhou novos dígitos pelo “meio precioso” em que está inserido. Para o especialista, a localização da comunidade é valorizada pelos "vizinhos ricos", o arranha-céu e-Tower, com 37 andares, e pelo luxuoso shopping JK.

“O que define seu valor é o zoneamento do local [e o coeficiente de aproveitamento no terreno]. O local é uma zona mista, tipo ZM2, e como está dentro da Operação Faria Lima [de urbanização], o coeficiente de aproveitamento pode chegar a quatro vezes a área do terreno", explicou. Com isso, considerando o limite superior de aproveitamento, o metro quadrado pode chegar a R$ 10 mil.

Veja imagens da Favela Funchal no bairro nobre de São Paulo:

Vigiada por uma base comunitária da Polícia Militar, a "favela milionária" acaba não existindo para muitos trabalhadores da região. A reportagem conversou com pelo menos 20 deles e apenas um auxiliar administrativo confessou ter notado a comunidade. “É outro mundo, né? A presença da PM acaba bloqueando o olhar das pessoas."

“Chegamos primeiro”

Composta principalmente por migrantes baianos, mineiros e pernambucanos, a comunidade pode ser vista como um retrato da formação de São Paulo e vítima do seu próprio crescimento. Entre becos e seus 250 barracos há sinais da migração em massa e a busca por melhores chances de trabalho nas capitais. A favela “Sou Coliseu”, carinhosamente apelidada pela líder comunitária, cresce e já exibe uma 3ª geração de moradores.

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As primeiras famílias chegaram ao local no final da década de 50 e encontraram um cenário diferente do que hoje virou marca de um dos bairros mais ricos da capital. Antiga Chácara das Flores, o território da Vila Olímpia era conhecido por suas áreas de manancial e muitos alagamentos. Tais problemas afastariam investimentos da região até a década de 90, mas isso não impediu a família de Rosana, a terceira a formar um barraco no Coliseu.

Rosa Maria dos Santos, a 'prefeita' do Coliseu
Carolina Garcia / iG São Paulo
Rosa Maria dos Santos, a 'prefeita' do Coliseu

“No começo era difícil, não tínhamos esgoto, água ou luz. A construção de prédios no Itaim Bibi [bairro vizinho] ajudou a aterrar o nosso pedaço. Sofríamos com os alagamentos”, disse Rosana. Já com saneamento básico (conquistado por uma comissão de moradores) e após 30 anos de ocupação, a comunidade passou a receber as primeiras ordens de despejo. Foi assim que Rosa, como Rosana é chamada pelos moradores, virou líder da comunidade. “Me coloquei a frente da nossa luta. Muitos que estão ali não sabem ler e escrever. Não pensei muito e fui para a Defensoria Pública.”

Para ela, as intimações foram recebidas com surpresa. “Os empresários se incomodaram com nossa presença. Mas nós chegamos primeiro! A gente não incomoda, mas somos incomodados por esses prédios enormes que nos isolaram”, rebate Rosa a qualquer insinuação de que eles estariam no “lugar errado”.

Com um advogado, Rosa conseguiu frear as tentativas de remoção da comunidade em diferentes instâncias jurídicas. Segundo ela, a comunidade já tem o direito de posse e agora busca o usucapião, que garante a propriedade de um local após muitos anos de uso.

“Prefeita” da cidade Coliseu

Embora recuse o título de líder ou “prefeita” da cidade Coliseu, Rosa é respeitada entre os moradores. Conselheira tutelar há três anos, ela garante que sua responsabilidade surgiu com a “vida dura” que teve. Ao lado de seus 14 irmãos, todos criados na Coliseu, começou a trabalhar com 12 anos e aos 17 já ajudava a sustentar a casa. 

Rosa monitora e deixa avisos no grupo fechado
Carolina Garcia / iG São Paulo
Rosa monitora e deixa avisos no grupo fechado "Sou Coliseu" na rede social Facebook

Em 1994, Rosa enfrentou um dos maiores desafios da sua “gestão”, segundo ela. A comunidade foi atingida por um incêndio e 50 barracos foram destruídos. Uma criança de seis anos acabou morta após se proteger embaixo de uma cama. “Foi horrível. Era período de seca e o fogo se alastrou". A família de Rosa estava entre os desabrigados.

Desempregada e com marido envolvido com as drogas, ela virou flanelinha por sete meses nas madrugadas da Vila Olímpia para arrecadar dinheiro e assim reconstruir o "barraco da família".

Até para contratar colaboradores para o serviços sociais da comunidade, a conselheira mostrou o seu estilo "linha dura". "Não peço ajuda a quem está envolvido com drogas, traição ou vive na sacagem. Conto com pessoas que podem ser espelhos para as nossas crianças", explicou. Ao menos, 120 menores vivem na Coliseu. "Quando volto a contar, nasce gente", contou rindo.  

Durante visita do iG  à comunidade, a frase “não podemos baixar a cabeça” foi repetida várias vezes por Rosa para cada morador que a abordasse. Questionada pela diferença social tão evidente, ela diz encarar tal detalhe como um privilégio. “Eu moro na Vila Olímpia. Tenho transporte fácil e estou numa ótima localização. Eu falo para o povo aqui: ‘Para conhecer o mundo, o favelado precisa descer o morro’. Não pode abaixar a cabeça, não!”.

Moradores da Favela Funchal esperam a urbanização da comunidade
Carolina Garcia / iG São Paulo
Moradores da Favela Funchal esperam a urbanização da comunidade

Urbanização

Após 51 anos, a comunidade aguarda pelo projeto de reurbanização presente no Plano Municipal de Habitação (PMH), de 2010, da Prefeitura de São Paulo. Segundo a assessoria da Secretaria de Habitação (Sehab), a Favela Funchal deverá receber ações “no 3º quadriênio” do PMH, ou seja, entre os anos 2017 e 2020. No entanto, a planilha do PMH cita apenas a “remoção da favela” como ação prevista e não cita planos de urbanização.

Além disso, o iG teve acesso a ata de uma reunião da 15ª reunião do grupo da Operação Urbana Faria Lima, realizada no dia 25 de setembro de 2012, durante a gestão Kassab. De acordo com o texto, há plano de construção de 252 unidades do HIS (Conjunto Habitacional de Interesse Social). Um representante da Sehab cita ainda a construção de creche e restaurante escola.

Com o custo de R$ 39 milhões, a desapropriação da comunidade levaria de 6 a 8 meses. Embora a reunião tenha contado com a presença de seis secretarias da prefeitura, a assessoria da Sehab informou desconhecer o evento e disse que buscaria “atualizar o caso” para informar novas previsões.

Nesta quinta-feira, o leitor do iG conhecerá a história de José Pedro Gouveia, de 49 anos, o Zézinho. Catador de papelão e beatlemaníaco , o pernambucano revela o amor pela comunidade e como luta por uma moradia melhor. 

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