Protesto na Paulista na última quinta-feira uniu diversas tribos: do jovem professor de filosofia que discursava no megafone a anarquistas e fascistas

Em meio ao múltiplo cenário que transformou a avenida Paulista num palco de comemoração e protestos na noite de quinta-feira, o professor autônomo de filosofia Fagner Augusto, de 25 anos, fez uma série de discursos sem plateia em vários trechos da avenida até que na esquina com a avenida Brigadeiro Luiz Antônio encontrou, finalmente, um grupo que o escutou.

Anúncio: MPL encerra protestos, reforça origem de esquerda e diz que não é antipartidário

Quinta: 1 milhão de pessoas vão às ruas e vandalismo se espalha pelo País

Sexta: São Paulo amanhece com novos protestos por moradia e reajuste salarial

“Tem gente fumando maconha. Não tenho nada contra, mas isso aqui não é a marcha da maconha. Também não é a parada gay. Isso aqui é política e nós estamos sem rumo. Nós não sabemos onde estamos e nem para onde vamos”, protestou o rapaz, recém-formado em filosofia e que se autodenominou filósofo autônomo. Outro jovem passou um megafone e Fagner foi ouvido por mais gente.

Professor autônomo de filosofia Fagner Augusto fez vários discursos sem plateia em trechos da Paulista
Vasconcelo Quadros/iG
Professor autônomo de filosofia Fagner Augusto fez vários discursos sem plateia em trechos da Paulista

Acabou aplaudido quando colocou o dedo na ferida: os estudantes, disse ele, haviam conseguido encurralar o poder e desencadeado um inédito processo, mas não havia quem organizasse a massa ou gerasse uma pauta. “Os 20 centavos são só um símbolo. Onde estão os líderes? Como encaminhamos?”. Mais aplausos. Já eram 22h e os coordenadores do Movimento Passe Livre já tinham se retirado havia pelo menos quatro horas.

As tribos caminhavam de uma ponta à outra, dos dois lados da Paulista, num vaivém sem destino em todo o trajeto de 2.800 metros da avenida. Uns eram anarquistas, outros fascistas assumidos, mas a maioria era formada por jovens e cidadãos que queria comemorar. A diversidade de palavras de ordem, a confusão de temas e de manifestantes, e o medo de depredações que levou a maior parte do comércio a fechar mais cedo deram à Paulista um ar de Torre de Babel com mercado de Atenas.

Leia também: Sem MPL, passeata na Paulista termina em festa e bate-boca

SP: Manifestantes se dizem contra partidos e são ironizados por anarquistas

“Aberto é mais seguro”, disse o dono da banca de revistas da Parque Trianon, Gilberto Augusto, que não quis fechar as portas. Com um olho no movimento e outro nos policiais, vendeu como nunca.

Havia cartazes e faixas para todos os gostos, como a que pedia “não” à PEC 37, carregada pela estudante de enfermagem Suelen Cristine, que saiu de Vila Prudente com outros quatro amigos. “A PEC tem o objetivo de impedir que os políticos sejam investigados”, disse, no tom genérico em que a maioria dos manifestantes entende a emenda que confirma o que prevê a Constituição: as polícias investigam, o Ministério Público denuncia e o juiz julga.

Os poucos políticos que não foram hostilizados se viram obrigados a admitir o esvaziamento dos partidos e do modelo político. “O PV não é um partido. É mais uma ONG”, disse o vereador verde Gilberto Natalini diante do advogado Vinicius Rodrigues Vittori, que o questionava por fazer parte do sistema.

O deputado Ivan Valente, do PSOL, abordado por um grupo formado por sessentões e jovens, seguiu na mesma linha: “A maioria dos partidos foi criado para negócios. Não tem mais partidos e o programa é para inglês ver”.

A declaração agradou o estudante de medicina Lucas Leite. Ele lembrou que a crise partidária atual já havia sido prevista numa entrevista do líder comunista Luiz Carlos Prestes, numa entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1989. “O Prestes previu o que está acontecendo agora ao diagnosticar o fim das ideologias. Agora a população tem o poder, mas falta diretriz para saber de onde se sai e aonde queremos chegar”, afirmou.

Veja imagens do 7º dia de protestos em São Paulo


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.