Em SP, manifestantes se dizem contra partidos e são ironizados por anarquistas

Por Renan Truffi , iG São Paulo |

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Sétimo ato do Movimento Passe Livre tinha o objetivo de comemorar redução da passagem, mas partidos foram expulsos e gritos nacionalistas deram a tônica

Renan Truffi/iG São Paulo
Manifestante protesta com cartaz escrito "Classe média pacifista não me representa"

A sétima passeata do Movimento Passe Livre (MPL), que tomou a avenida Paulista nesta quinta-feira (20), em São Paulo, era para ser apenas uma festa por causa da redução das passagens de ônibus, metrô e trem, que passaram de de R$ 3,20 para R$ 3. Mas acabou ganhando conotação “ideológica”.

Isso porque a maioria dos manifestantes, que se dizem “apartidários”, impediu movimentos sociais e filiados ao PSTU, PC do B, PCR e PSOL de participar do ato. Os “sem partido”, no entanto, tiveram que dar espaço para um outro grupo “de esquerda” que não se intimidou com a hostilidade da maioria. Em cerca de 100 pessoas, um coletivo que se declara “anarquista libertário” chamou atenção ao ironizar o “tom nacionalista” que os protestos ganharam na cidade.

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É que desde o início da tarde, quando começou o ato, os manifestantes trocaram os gritos, que eram costumeiramente puxados pelo MPL sobre o reajuste da tarifa, por uma versão mais política. “Vem para rua, vem contra o governo”, cantavam sem especificar se falavam do prefeito, do governador do Estado ou da presidente da República.

“Vem acontecendo agora uma invasão de grupos hiper-conservadores, que hoje bateram nos movimentos sociais. Vamos continuar como os únicos de esquerda. Com a direita organizada, agora existe uma disputa ideológica”, disse um dos integrantes do grupo anarquista, o estudante de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Willian José Cega, assim que eles começaram o próprio ato. “Nacionalismo é um passo para o fascismo”, entoavam contra jovens cobertos pela bandeira do Brasil.

Manifestantes criticam Pelé após declaração polêmica: "Eu calaria" . Foto: Carol MartinsRonaldo também foi alvo de protesto: "Gol contra". Foto: Carol MartinsPopulação caminha pela Avenida Paulista em protesto na capital. Foto: Futura PressJovens protestam contra a PEC 37 . Foto: Carol MartinsIrmã Fátima participou da manifestação com um time de irmãs: 'Estou aqui porque sou brasileira, estou aqui pelo amor, para colocar para fora todo o medo'. Foto: Iran GiustiA muçulmana Sarah Ghuraba, 25, foi à manifestação com amigas. Foto: Iran GiustiManifestante com a bandeira do Brasil em sétimo dia de protestos em São Paulo. Foto: Futura PressManifestantes protestam contra o Pastor Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara . Foto: Futura PressManifestantes rasgam bandeira do PT durante protesto na Avenida Paulista. Foto: Futura Press"Vândalo, você não nos representa", diz cartaz em manifestação de SP. Foto: Futura PressManifestação reúne milhares de pessoas em São Paulo. Foto: Futura PressManifestantes caminham na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Futura PressCartazes pedem fim da PEC 37 que limita poder de investigação do Ministério Público. Foto: Futura PressJovem fica ferido em confronto entre manifestantes com partido e sem partido . Foto: Ricardo GalhardoManifestantes durante sétimo dia de protestos em SP. Foto: Futura PressMultidão toma conta da Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Futura PressManifestantes comemoram revogação do aumento da tarifa do transporte público que voltou a custar R$ 3. Foto: Futura PressO biólogo José Henrique Lemos, de 54 anos, filiado ao Psol, discutiu com manifestantes que queriam impedir que bandeiras fossem erguidas. Foto: Renan TruffiManifestantes no início do sétimo dia de protestos na capital paulista. Foto: Futura PressO ambulante Hugo Valentino aproveitou para vender camisetas com mensagens de "Fora Dilma" e "Joaquim Barbosa - Presidente do Brasil". Cada uma custa R$ 20. Foto: Vitor SoranoManifestantes pedem fim de corrupção. Foto: Futura PressSão Paulo enfrenta sétimo dia de manifestações. Foto: Futura PressGrupos de manifestantes com partido e sem partido chegaram a discutir em vários pontos da avenida. Foto: Renan TruffiManifestantes pedem impeachment de governantes. Foto: Futura PressManifestação interditou os dois sentidos da via. Foto: Futura PressPoliciais observam a manifestação na capital. Foto: Futura PressManifestação na frente da Estação do Metrô Santana. Foto: Futura Press


O próprio MPL repudiou os xingamentos de “oportunistas” com que foram recebidos os “com partido”. “No ato (... )presenciamos episódios isolados e lamentáveis de violência contra a participação de diversos grupos. (...) O MPL luta por um transporte verdadeiramente público, que sirva às necessidades da população e não ao lucro dos empresários. (...) Essa é uma defesa histórica das organizações de esquerda, e é dessa história que o MPL faz parte e é fruto. (...) Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos”, repudiou em nota o movimento.

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Apesar estarem em menor número e do clima hostil, os anarquistas seguiram em passeata por quase toda a extensão da Paulista e voltaram pela mesma via para encerrar a participação perto da Praça do Ciclista. Com bandeiras nas cores vermelho e preto e os rostos cobertos, eles ironizavam os outros 100 mil participantes. “Nacionalismo é o cara***, esse País é racista e sanguinário”.

Os jovens que permaneceram na avenida pareciam confusos. Quando os anarquistas passaram pelo vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp) alguns manifestantes mostraram realmente desconhecer o significado de anarquismo. “Sem partido, sem partido”, repetiram em coro o mesmo comando que usaram para tirar “os comunistas”. Os “libertários”, por sua vez, vibraram. “Anarquismo, anarquismo”, retrucaram já que uma das concepções desta filosofia política é exatamente a eliminação total de governos hierárquicos. E continuaram ironizando. “Isso não é Carnaval, vocês entenderam mal”, cantavam.

Apesar de exibirem faixas com os dizeres “classe média pacifista não me representa”, os anarquistas não praticaram nenhum ato de violência ou vandalismo durante o protesto. Mas, não pouparam a bandeira do Brasil, que queimaram pelo menos três vezes no caminho. "Essa bandeira mata índio", gritavam. Do outro lado, o discurso “o povo não precisa de partido” foi quase unânime entre pessoas que vaiavam a atitude dos “libertários”. “Se partido fosse bom se chamaria unido. Sou apolítico, sou Brasil. Brasil é nós por nós, sem essa de partido. Cara, o povo decide, a voz do povo é a voz de Deus. Todo mundo acha solução, é questão de tempo”, disse o relações públicas Rodrigo Couto, de 30 anos, quando questionado sobre como funcionaria um sistema democrático sem partido.

Ainda que em menor número depois da saída do MPL e da expulsão dos partidos, houve quem insistisse em criticar este tipo de pensamento. “Democracia sem partido é ditadura”, dizia o cartaz da professora de educação física Dina Ramos, de 38 anos. “Eles (manifestantes que atacaram filiados) não têm conhecimento de que sem partido ou é anarquismo ou ditadura”, explicou ela. “Isso vai virar golpe de Estado”, argumentou o filósofo Michel Amary, de 27 anos.

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