"Desculpem pelo que fiz. Espero não servir de exemplo para ninguém"

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Pierre Ramon, assim como outros detidos por vandalismo em protesto, pertence à classe média baixa, é estudante, trabalha ocasionalmente e é revoltado com o quadro nacional

Futura Press
Pierre Ranon Alves foi detido acusado de dano a patrimônio público

As características de Pierre Ramon Alves de Oliveira, o mais exaltado dos manifestantes na depredação ao prédio da Prefeitura de São Paulo, explicam o perfil de quase 80% dos 69 presos nos protestos de terça-feira: filhos de famílias de classe média baixa, estudantes, trabalhadores ocasionais, frequentadores de academia, usuários compulsivos da internet e revoltados com a mesmice do quadro nacional.

A maioria tem entre 17 e 22 anos e não está vinculada a partidos ou organizações como o Movimento Passe Livre. Na minoria estão os punks que, anárquicos, se infiltram em qualquer movimento. Três dos manifestantes que participaram da depredação da prefeitura, identificados pelas imagens, estavam com bandeira do PSTU, mas a polícia acredita que tenham seguido o embalo de outros vândalos e não agido por orientação partidária.

A polícia identificou todos, mas como escaparam do flagrante, guardou os nomes e as mensagens que trocaram pelas redes sociais até pouco antes do vandalismo. Depois, eles tiraram do ar seus perfis no Facebook e no Instagram.

“Ele (Pierre Ramon) disse que combinou a ida ao protesto com outros quatro amigos pelo Facebook. Os cinco foram preparados para fazer o que fizeram”, disse o delegado Antônio de Olim, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Segundo a polícia, nenhum deles tem ligação com organizações políticas.

Na delegacia, o estudante mostrou marcas de cassetetes de borracha nas costas para explicar que antes da explosão de fúria, em que aparece jogando grades contra portas e vidraças e fazendo gestos de heroísmo, tomou jatos de gás de pimenta e bordoadas dos guardas civis da Prefeitura.

Espalhados por quatro delegacias, são 69 presos, dos quais 14 têm antecedentes por crimes contra o patrimônio (furto e roubo).

Reprodução
Pierre é flagrado tentando invadir prédio da prefeitura

Pelo menos 18 foram apanhados em flagrante carregando eletrodomésticos de lojas saqueadas no centro da cidade quando passavam nas proximidades da Secretaria de Segurança Pública. Como as tropas de choque foram mantidas aquarteladas, os poucos policiais militares que guardavam o prédio da secretaria se encarregaram de prendê-los um a um ou em dupla, sem resistência.

Pierre Ramon foi escolhido como alvo principal da polícia no mesmo momento em que as emissoras de TV mostravam ao vivo as cenas de violência. Na noite de quarta-feira a Justiça negou o pedido de prisão temporária da polícia, não aceitando a argumentação de que os cinco amigos formavam uma quadrilha. Por volta das 23 horas o rapaz deixou o Deic, acompanhado do pai e do advogado.

Antes, em conversa com os policiais, deixou desmoronar a imagem de super-herói: “Desculpem pelo que fiz. Espero não servir de exemplo para ninguém”, disse o rapaz, que nesta quinta-feira voltou a ajudar o pai, dono de um caminhão e entregador de máquinas pesadas. Pierre Ramon é estudante de arquitetura e, como não tinha aula na terça-feira, decidiu ir à manifestação.

Como a grande maioria dos jovens que se envolveram no vandalismo, Pierre Ramon não tem ideologia. Um policial que conversou mais longamente com o estudante disse ter ficado com a imagem de que pertence a categoria facilmente sugestionável e massa de manobra. O estudante mora na Vila Ré, zona leste da capital.

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