Gigantismo da cidade exige energia extra de quem quer ser ouvido durante os protestos contra o aumento de passagem

Pedro Guerra largou o boxe nestes dias de luta política nas ruas. Sua cota de exercícios físicos tem sido palmilhar alguns do milhares metros de asfalto de São Paulo junto com dezenas de milhares de manifestantes. "Só ontem (segunda-feira) foram 11 km. Faria Lima, Brigadeiro, Paulista, Augusta", diz ele, enumerando algumas das mais simbólicas vias da capital - todas tomadas pelo protesto - enquanto caminha junto com centenas pela avenida Ipiranga nesta terça-feira (18).

A manifestação: Protesto em São Paulo se divide entre passeata pacífica e atos de vandalismo
Vídeo exclusivo: Manifestantes ateiam fogo em veículo de emissora de TV em São Paulo

Bruno Mollinari, 22, Matheus Ferreira, 24, e Diego Henrique Habiro, 27, sentados após longa passeata
Vitor Sorano
Bruno Mollinari, 22, Matheus Ferreira, 24, e Diego Henrique Habiro, 27, sentados após longa passeata

É o sexto dia de manifestações e sexto dia que Guerra, 34 anos, acompanha para defender o que chama de democracia popular. "Estamos super cansados. O boxe está suspenso."

Na avenida Paulista, de onde partiu a tomada das ruas que tenta transformar a democracia brasileira, alguns descansavam as pernas nesta terça-feira enquanto a multidão seguia a marcha. Pela primeira vez desde o início das manifestações - e eles dizem ter estado em todas - Bruno Mollinari, 22 anos, Matheus Ferreira, 24, e Diego Habiro, 27, sentavam-se um pouco.

A caminhada de segunda-feira foi especialmente exaustiva, lembra Ferreira. Da avenida Dr. Arnaldo, próxima à Paulista, o jovem caminhou muito até o longínquo Palácio dos Bandeirantes, isolado no algo de uma colina do outro lado do rio Pinheiros. "É a sede de governo mais distante em todo o País", arrisca. "Foram 5 horas de caminhada."

As horas de sono também caíram de oito para cinco, para conciliar trabalho e participação cívica - os almoços ficaram de fora. A empolgação e o engajamento permanecem. "A injustiça faz com que a gente tenha de exercer a nossa cidadania. E eu nunca havia sentido a confiança que sinto agora. Acredito que haverá mudança."

Leia mais: Após onda de protestos, oito cidades reduzem o valor do transporte público

Esse foi o segundo dia de protestos de Bruno Correia, 27 anos
Vitor Sorano
Esse foi o segundo dia de protestos de Bruno Correia, 27 anos

Enquanto ela não vem, o skate de Ferreira vai ficando encostado, assim como os de Mollinari e Habiro. "Já não almoço há dois dias, mas não estamos pensando nessas necessidades de dia normal", diz Mollinari, rouco. "E o cansaço é físico, não mental", diz esse técnico de áudio.

"Nenhum cansaço é comparável com ter a população unida contra um governo que reprime os seus direitos", completa Habiro, analista de suporte.

Representante da União Nacional dos Estudantes (UNE), o manauara Bruno Correia, 27 anos, repousava sobre a bandeira da instituição, cabeça recostada na jardineira do canteiro central da avenida Paulista. Esta terça-feira foi seu segundo dia de protestos na cidade, cujo gigantismo torna mais difícil paralisar. Mas não impossível, como o cotidiano recente prova.

"Sinto satisfação de ver que o Brasil está diferente, que acordou depois de décadas. Se ficarmos parados, a democracia vira ditadura."


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.