Vinagre é 96% água e não faz nada, diz químico

Por Natália Peixoto - iG São Paulo |

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Pivô de detenções durante protestos em SP, substância comprada em supermercado não tem potencial explosivo; advogado diz que porte não é motivo para detenção

Luiz Claudio Barbosa/Futura Press
Militares prendem manifestantes na Rua Xavier de Toledo com vinagre e tintas antes que chegassem no protesto contra o aumento das tarifas

Antes mesmo de começarem os protestos da última quinta-feira (13), no quarto dia de manifestações contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, mais de 100 manifestantes haviam sido presos nas proximidades do Theatro Municipal, a maioria por portar recipientes com vinagre, que, segundo a polícia, poderia ser usado para fazer bombas.

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A substância, que pode ser comprada por cerca de R$ 3,00 (menos que o atual preço da passagem de ônibus) é usada por manifestantes em passeatas para minimizar o efeito do gás lacrimogênio, liberado pelas bombas de efeito moral lançadas pela Polícia Militar (PM) para dispersar grandes concentrações.

“Só o vinagre, em si, não dá pra fazer nada, é uma solução que se compra no mercado”, diz o doutor em química Ademir Costalonga, do Instituto da Unesp em Araraquara. Ele explica que a solução encontrada nos mercados é de 96% de água e cerca de 4% de ácido etanoico ou acético, ácido que seria o ingrediente usado para possíveis explosivos. “É claro que existem outras associações, mas esse vinagre é 96% água. Desse ponto de vista, ele não faria nada”, disse o químico.

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O advogado criminal e professor da PUC-SP Cláudio José Pereira diz que “o porte do vinagre não configura nenhum risco jurídico”, e, portanto, não justificaria a prisão de ninguém. “Portar o vinagre em si não é motivo, eles foram detidos por causa da situação que eles estavam, mas é um critério subjetivo”, disse Pereira. “Eles podem ter sido levados para a delegacia para confirmar sua identidade e também por alguma postura no momento da abordagem.”

Nas redes sociais, as detenções motivadas pela presença do tempero nos pertences dos manifestantes virou motivo de piada, e até um evento foi criado no Facebook, a favor da "legalização do vinagre", nos moldes da marcha da maconha - se não fosse fictício.

Na internet, é possível encontrar receitas de uso do vinagre com outras substâncias. Os vídeos, em sua maioria, mostram a mistura de vinagre com bicarbonato de sódio, que, juntos, liberam gás carbônico. A mistura também é usado para a “erupção de vulcões” em feiras de ciência, mas sem potencial explosivo.

Proteção

Costalonga adverte que, apesar de atenuar, o vinagre não corta o efeito do gás lacrimogênio. “Para o vinagre fazer efeito, é preciso respirar em uma máscara umedecida para amenizar os efeitos sobre o pulmão, mas não sobre os olhos”, explica. “Mas ele só ameniza, não impede”.

Para evitar maiores reações tóxicas, o químico orienta pessoas expostas ao gás a não esfregarem os olhos e tomarem cuidado com o uso de máscara, que se não tiver o filtro correto, pode potencializar o efeito do gás e gerar asfixia.

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