Ação ‘desproporcional’ da PM em protesto provoca pânico até entre moradores

Por Renan Truffi , iG São Paulo | - Atualizada às

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Pessoas que não participaram da manifestação contra aumento da tarifa contam ter sido vítimas da polícia durante repressão ao ato

Até mesmo trabalhadores que nada tinham a ver com a passeata sentiram na pele, nesta quarta-feira (14), a repressão da Polícia Militar de São Paulo contra a quarta manifestação de repúdio ao aumento da tarifa de ônibus na capital paulista, promovida pelo Movimento Passe Livre. A ação, que fez São Paulo parecer estar em guerra, deixou mais de 230 detidos e feriu, inclusive, jornalistas que faziam a cobertura da passeata.

Uma das vítimas da PM foi a atriz Tais Medeiros, de 34 anos, que esperava o marido na avenida Paulista quando presenciou um confronto entre ativistas e policias da Tropa de Choque. Ela classifica a ação como “péssima e desproporcional”. “Eu estava em frente ao Banco Safra quando subiram alguns manifestantes pela rua Augusta com cartazes. Tranquilo. Não sei de onde, mas em cinco minutos apareceram policiais já jogando bombas de gás lacrimogêneo e atirando balas de borracha. Comecei a sufocar por causa da fumaça e tive que correr também. Tentei me proteger atrás de um vaso perto do Conjunto Nacional e um policial me pegou pelo cangote e me forçou a andar, apertando o cassetete contra as minhas costas. ”, contou.

O vendedor Paulo Rodrigo Lima da Silva, de 33 anos, conta, por exemplo, que só conseguiu escapar da truculência ao sair do trabalho, às 20h, na região central da capital paulista, porque estava usando roupa social. “Só não me abordaram porque eu estava arrumado. Mas passei perto e ouvi os policiais tirando sarro da situação”, diz.

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Manifestantes tomam as ruas de SP em protesto contra aumento da tarifa de ônibus. Foto: Euclides Oltramari Jr./Futura PressManifestantes colocam fogo em lixo durante concentração na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressÔnibus incendiado e depredado próximo da Praça da Sé durante protesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, na cidade de São Paulo (SP).. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressGrupo bloqueia passagem de carros na Paulista na altura da Bela Cintra, no fim do protesto. Foto: Renan TruffiManifestante e PMs em protesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô em SP. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressDepredação de agência bancária durante protesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô em SP. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressManifestantes picham e depedram ônibus no  Terminal Parque Dom Pedro . Foto: Futura PressManifestantes chegam à Paulista e invadem as duas faixas da avenida. Foto: Renan TruffiAgência bancária depredada na Avenida Paulista. Foto: Renan TruffiManifestantes chegam à Paulista. Foto: Renan TruffiO ato contra o aumento da passagem de ônibus se dirige à Avenida Paulista. Foto: Renan TruffiManifestantes bloqueiam o trânsito sentido Paulista da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Foto: Renan TruffiAgências bancárias depredadas por manifestantes contra o aumento da passagem de ônibus na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Foto: Renan TruffiManifestantes contra o aumento da passagem de ônibus picham poste na Brigadeiro Luiz Antônio. Foto: Renan TruffiAgências bancárias depredadas por manifestantes contra o aumento da passagem de ônibus na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Foto: Renan TruffiManifestante ateia fogo a lixo na Praça da Sé, durante confronto com a Tropa de Choque. Foto: Renan TruffiCerca de 400 policiais acompanharam o protesto desde a Avenida Paulista. Foto: Futura PressManifestação reuniu mais de duas mil pessoas. Foto: Futura PressProtesto contra aumento das passagens de transporte público em São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressProtesto contra aumento das passagens de transporte público em São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressManifestantes mudam rumo do protesto e iniciam descida na rua da Consolação. Foto: Renan Tuffi/iG São PauloConcentração do protesto na Praça do Ciclista, no início da Avenida Paulista. Foto: Renan Tuffi/iG São PauloPoliciais militares prendem manifestante que tentou bloquear faixa de ônibus na Consolação. Foto: Renan TruffiProtesto contra aumento das passagens de transporte público em São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura PressManifestantes protestam contra o aumento no valor da tarifa nesta terça-feira(11). Foto: Gabriela Bilo/Futura Press


Antes do protesto

A ação da Polícia Militar começou antes mesmo do início da passeata, marcada para 17h na frente do Theatro Municipal, no Vale do Anhagabaú. Oficiais abordaram pessoas na região do ato e detiveram cerca de 40 pessoas. A maioria foi levada por estar carregando vinagre. Apesar da substância ser usada pelos manifestantes para diminuir o ardor nos olhos causado pelo gás lacrimogêneo, a PM alegou que precisava averiguar já que o conteúdo também poderia servir para produzir coquetéis molotov.

O repórter da revista Carta Capital Piero Locatelli foi um dos que foram detidos pelo motivo. Ele só foi liberado algumas horas depois e não conseguiu fazer a cobertura da manifestação. Além disso, enquanto questionava o motivo dessas abordagens, a imprensa foi agredida pelos policiais. “Eles dispararam spray de pimenta aleatóriamente", disse o repórter do Metro Henrique Beirange, que foi atingido no olho.

O fotógrafo Fernando Borges, do Portal Terra, também chegou a ser revistado e diz ter sido xingado até conseguir se identificar aos PMs. Depois ele acabou liberado para trabalhar.

A manifestação

Após muita confusão na concentração, os manifestantes iniciaram a passeata por volta das 18h30 saindo do Theatro Municipal em direção à avenida Paulista, pegando a Barão de Itapetininga e a avenida Ipiranga. O protesto seguia pacífico, com vários participantes carregando flores e reprimindo atos de depredação de alguns poucos que ameaçavam destruir equipamentos públicos pelo caminho.

A PM, no entanto, foi quem iniciou o confronto ao atirar balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo contra os jovens quando estes avançavam pela rua Consolação, na altura da rua Maria Antonia, sentido avenida Paulista. Os grupos se dispersaram para a rua Augusta e para a Praça Roosevelt. A partir de então a Tropa de Choque fez sucessivos disparos e transformou as ruas em cenário de guerra.

Por volta das 20h, por exemplo, a PM abriu fogo contra um grupo de jornalistas na rua Augusta. A repórter da Folha de S. Paulo Giuliana Vallone levou uma bala de borracha no rosto , os fotógrafos Fabio Braga e Marlene Bergamo, também da Folha, foram atingidos no rosto, virilha e perna, respectivamente.

Estado

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) descartou novamente na quinta-feira (13) a possibilidade de reduzir as tarifas de ônibus, trens e Metrô pelos próximos 45 dias no Estado, conforme sugestão feita pelo Ministério Público, por intermédio do promotor de Habitação e Urbanismo, Maurício Lopes. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, pediu à Polícia Federal que acompanhe os protestos e ofereceu ajuda ao governo do Estado.

Em nota, a Anistia Internacional pediu uma solução pacífica para os protestos. A organização representa mais de 3 milhões de membros e ativistas que atuam globalmente para proteger os direitos humanos.

Na última terça-feira, cerca de 10 mil manifestantes protestaram nas regiões da avenida Paulista e no centro de São Paulo . Segundo a polícia, houve ao menos 20 prisões e três policiais foram feridos. Cinco agências bancárias foram depredadas e vários ônibus foram pichados e quebrados. Os manifestantes acusam os policiais de agressões e prisões indevidas.

Protestos da semana passada

Cerca de 2 mil pessoas participaram de cada um dos dois primeiros protestos do MPL contra o preço da passagem de ônibus em São Paulo. No primeiro, na quinta-feira (6), estudantes, trabalhadores e representantes de partidos políticos, caminharam do Vale do Anhangabaú, no centro da cidade, às avenidas 23 de Maio e 9 de Julho, antes de chegar à avenida Paulista.

Na ocasião, a Tropa de Choque dispersou os manifestantes, em sua maioria jovens na faixa dos 20 anos, com bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral, dispersando os participantes do protesto em direção à avenida da Consolação. Os manifestantes jogaram cestas de lixo e fizeram barricadas no meio da Paulista.

Na segunda manifestação, na sexta (7), o grupo caminhou do Largo da Batata até a avenida Faria Lima, passou pela Eusébio Matoso, em frente ao shopping Eldorado, e entrou na Marginal Pinheiros, em direção à Cidade Universitária, pela faixa local, o que impossibilitou o trânsito dos carros.

* Com Agência Brasil

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