“Não consigo ver meu filho”, diz mãe de estudante preso em manifestação

Por Cinthia Rodrigues - iG São Paulo |

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Jovem de 21 anos estava entre detidos na manifestação de terça à noite e foi transferido três vezes até parar em presídio, mesmo sem antecedente criminal

A jornalista Maria Cecília Fazzini Cardial trabalha na Avenida Paulista e vê da janela os protestos que passam pela via mais famosa de São Paulo. Na terça-feira à tarde, ela percebeu que a concentração de policiais estava muito maior do que nos atos anteriores. Mãe do estudante de Ciências Sociais, Júlio Henrique Cardial Camargo, 21 anos, que já havia ido a uma das manifestações, ela ficou apreensiva e ligou para tentar persuadi-lo de ir ao local. Foi a última conversa que tiveram até essa quinta-feira, quando ele foi transferido para o presídio de Tremembé.

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“Disse para ele que também fui estudante e que participei de muitos protestos, mas no meu tempo a marcação era olho no olho e não por rede social. Quem mais ia participar?”, lembra a mãe. Segundo ela, o filho respondeu que sua consciência não o deixaria sossegado se não fosse, mas para ela ficar tranquila, pois o objetivo era impedir que houvesse depredações ou brigas que tirassem o foco do protesto. Júlio foi detido com um grupo de outras nove pessoas por dano ao patrimônio e formação de quadrilha.

Reprodução
Histórico do Boletim de Ocorrência que descreve o que ocorreu. A participação de Júlio não fica clara


O Boletim de Ocorrência tem ao todo 10 indiciados e narra que dois derrubaram uma cabine móvel da Polícia Militar e outro foi violento com os policiais. Não esclarece o que Júlio e a amiga presa com ele, Stephanie Fenselau, 25 anos, fizeram.

Maria Cecília ficou sabendo da detenção às 3h30 da madrugada. “O delegado do 78DP (no centro) disse que ele estava detido com um grupo, mas que não tinha detalhes durante a madrugada.” Ela gastou algumas horas falando com o pai do menino, procurando seus direitos e chorando. “Até agora, eu ainda estou chorando”, conta. Quando chegou à delegacia, às 9h, o filho tinha sido transferido para a 2ª Delegacia de Polícia. “Nesse momento eu conheci o grupo de advogados que tentava soltá-los e priorizei ir com eles para o tribunal. Vi as tentativas que fizeram de soltá-los, todas frustradas.”

Após saber que Júlio não seria solto, ela foi ao 2º DP e descobriu que ele tinha sido transferido ao Centro de Detenção Provisória do Belém. Na manhã desta quinta-feira, com roupas e bolachas ela foi ao local e novamente o filho já havia sido transferido, dessa vez para o presídio do Tremembé. “Ele nunca teve qualquer passagem pela polícia e é um menino politizado, que jamais danificaria o patrimônio e agora está cercado de bandidos”, diz a mãe ainda emocionada.

Secretaria de Segurança Pública

A assessoria da Secretaria de Segurança Pública informa que todo o grupo foi preso em flagrante. O fato de o Boletim de Ocorrência não citar o que cada um fez não influencia já que o fato de terem sido presos juntos caracteriza a formação de quadrilha, o que configura crime inafiançável. O órgão também informa que as transferências para presídios são feitas assim que há vagas.

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