Amigos se reúnem para colar “curativos” nas calçadas esburacadas de São Paulo

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Curativos Urbanos, que já "remendaram" mais de mil buracos, ganham popularidade pela internet e podem ajudar a mapear a rota dos buracos na capital

Entre a formulação da ideia e a sua exposição em um congresso de geógrafos no Perú, no mês passado, passaram-se um ano e três meses. A ideia de criar os Curativos Urbanos nasceu em janeiro de 2012 quando um grupo de amigos se encontrou para discutir o que mais os incomodava nos espaços públicos da capital paulista. A primeira ação montada foi uma página no Facebook, e com quase 7 mil “likes” depois a ideia já foi levada até para as ruas de Roma.

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Divulgação
As ações pelo centro de São Paulo gerou este mapa, que aponta os calçamentos mais deteriorados

Feita de uma espécie de espuma reciclável, os curativos em tamanho gigante são grudados nos buracos, alertando a prefeitura e os proprietários sobre a necessidade de manter as calçadas em ordem não apenas para o cidadão comum, mas para deficientes físicos e visuais.

"A linguagem lúdica utilizada através do emprego do formato de grandes curativos coloridos é uma forma de expressar a necessidade de cuidar das calçadas, de ‘curar’ esses ‘machucados’ encontrados pela cidade", diz a apresentação do grupo no congresso XIV EGAL 2013.

Os curativos são feitos de E.V.A, um material plástico que se parece com espuma. . Foto: DivulgaçãoO grupo de seis pessoas se formou em São Paulo em janeiro de 2012, mas logo ganhou popularidade graças à Internet. Foto: DivulgaçãoEmbora reciclável, o material não é biodegradável. Por isso, o grupo retira os curativos no dia seguinte à ação. Foto: DigulgaçãoA ideia é chamar a atenção do poder público e do contribuinte para a manutenção das calçadas. Foto: DivulgaçãoDe acordo com o coletivo, o calçamento da Praça da República é um dos mais deteriorados do centro. Foto: DivulgaçãoCom base nas especificações da prefeitura, grupo fez um resumo de como uma calçada deveria ser. Foto: DivulgaçãoNa Inglaterra, o artista Steve Wheen constrói um pequeno jardim onde há buraco. Ele coloca terra e planta a grama e as flores. Foto: Divulgação

Em São Paulo, o grupo dispensa o título de “inimigo” da prefeitura ao afirmar que a ação busca conscientizar não apenas o poder público, mas principalmente o contribuinte, principal responsável pela manutenção das calçadas. “O município tem regras para a construção e manutenção do calçamento, mas pouca gente sabe disso porque falta informação”, diz um dos fundadores do grupo, o designer Renato Forster, de 33 anos.

Leia, abaixo, a entrevista completa:

iG - Como surgiu a ideia?

Renato Forster - A ideia surgiu em São Paulo em janeiro de 2012. Somos um grupo de seis amigos que se juntou porque estava muito insatisfeito com os espaços públicos da cidade. A gente optou pelos curativos porque reparou que os buracos da calçada era o que mais nos incomodava, principalmente porque falta muita informação sobre esse assunto. Pouca gente ainda sabe que a manutenção é de responsabilidade do proprietário ou inquilino do imóvel. Então a gente fez a ação bem pontual para chamar a atenção das pessoas e do poder publico. Mas os curativos começaram de fato em julho do ano passado.

iG - E qual o papel da internet para a popularização dos curativos?

Forster - Começamos em São Paulo, depois fomos para os bairros do Botafogo e Gávia, no Rio de Janeiro, mas em pouco tempo outros ficaram sabendo pelo Facebook e fizeram por conta própria em Vitoria (ES), Porto Alegre (RS), Roma e em cidades do interior de São Paulo, como Campinas, Assis e Ribeirão Preto. Já foram colocados nas calçadas perto de mil curativos. A gente quer é que todo mundo faça mesmo. Queremos que a informação seja difundida.

iG - De que material os curativos são feitos?

Forster - Hoje a gente usa uma folha de E.V.A [sigla em inglês para Etileno Acetato de Vinila], um material plástico que se parece com espuma. Ele é reciclável, mas não é biodegradável.

iG - E o que fazer a respeito?

Forster - Depois da ação, a equipe volta no dia seguinte e tira os curativos da calçada. Mas estamos em busca de um material que seja biodegradável. No mês passado tivemos uma reunião com uma grande marca de produtos de higiene, que produz curativos e fraudas biodegradáveis. Eles ainda não responderam em razão das burocracias de empresa grande. Embora tenham gostado, eles achavam que o projeto criticava a prefeitura, então ficaram com o pé atrás. Muitos pensam assim, mas não é o caso. Queremos chamar a atenção principalmente do cidadão comum, que ainda é o responsável pelo conserto.

iG - O grupo é favorável a essa responsabilização do contribuinte pela manutenção da calçada?

Forster - O ideal é que a calçada seja de responsabilidade do poder público, como é a rua. Não faz sentido a prefeitura cuidar do asfalto, mas não da calçada. Muita gente não tem dinheiro para manutenção, então cada um faz seu calçamento do jeito que quer.

E como você avalia a ação da prefeitura?

Forster - O município tem regras para a construção e manutenção do calçamento, mas pouca gente sabe disso porque falta informação. Ela só fiscaliza se tem buraco, mas orienta mal quem tem calçadas fora do padrão. Uma sugestão é entregar uma cartilha explicativa a quem aluga ou compra um imóvel novo.

iG - O que dizem as pessoas quando se deparam com a intervenção?

Forster - Alguns ficam sem graça quando a gente explica que muita calçada está com buraco por omissão ou desinformação das pessoas. Mas a maioria adora e pede para levar alguns para colar no bairro. No primeiro curativo que fizemos na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta, dois rapazes tiraram do chão logo em seguida. A gente ficou contrariado e os seguiu. Eles colaram o curativo em um buraco maior meia quadra depois. Ficamos felizes por terem entendido tão rápido a proposta.

iG - O coletivo conhece ou se inspira em outras intervenções urbanas?

Forster - Um grupo no Rio Grande do Sul vem colando adesivos nos pontos de ônibus o itinerário dos coletivos. Em São Paulo tem o grupo Aqui Bate um Coração, que cola corações em estátuas e monumentos deteriorados da capital. Fora do Brasil, tem um Alemão [Jan Vormann] que conserta buracos de paredes usando peças de Lego. Também tem um inglês (Steve Wheen) que constrói um pequeno jardim onde tem algum buraco. Ele coloca terra e planta grama e flores.

iG - O grupo planeja novas intervenções?

Forster - Estamos planejando ações mais objetivas, mas ainda é segredo. Devem aparecer no ano que vem. Mas os curativos já servem como mapeamento porque anotamos onde as calçadas estão em pior estado. Esse mapa pode servir como base para trabalhar as melhoras no centro, por exemplo.

iG - E qual é a região mais problemática do centro?

Forster - Na região que vai da Praça da República até a avenida São Luiz. Lá o problema é seriíssimo: há muito buraco no calçamento de ladrilho português. Uma vez, um jornaleiro reclamou do curativo que a gente colocou perto da banca dele na República. Ele tinha acabado de reformar a frente da banca, mas ao lado tinha um buraco imenso. A parte dele ficou boa, mas o resto permanecia sem manutenção. Já na Vila Madalena, cadeirante não circula porque há degraus de até 40 centímetros. A opção deles é trafegar pela rua.

Calçadas com buracos dificultam a vida de deficientes. Assista:

Imagens e edição: Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo

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