Ruy Mesquita defendia a liberdade e a democracia

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Diretor do jornal O Estado de S.Paulo faleceu aos 88 anos na noite desta terça-feira (21), em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, em razão de um câncer de base de língua

Divulgação
Morre em São Paulo o jornalista Ruy Mesquita, diretor de O Estado de S. Paulo

Morto nesta terça-feira (21) aos 88 anos, em São Paulo, o diretor do jornal O Estado de S.Paulo, Ruy Mesquita, foi um defensor da liberdade, da democracia e da livre-iniciativa, princípios que sempre nortearam a linha editorial do 'Estado'. Apaixonado pelo jornalismo, dedicou-se à profissão desde 1948 e manteve sua rotina de trabalho até a véspera da internação em abril deste ano, quando foi diagnosticado com um câncer na base da língua.

“Eu não fiz outra coisa na vida senão trabalhar para o jornal", dizia. Gostava de citar Fernando Pessoa, seu poeta preferido: “Eu sou o que quis ser e mais aquilo que os outros fizeram de mim”. Também dizia que sua missão era "trabalhar no Estado". "A minha dedicação é como a do meu pai. Eu não sou homem de fazer ginástica, é com a cabeça que eu trabalho”, afirmava.

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Ainda sobre a profissão, dizia que um jornal deve "manter os padrões éticos, culturais e informativos". “Um bom jornal tem de ter, em primeiro lugar, objetividade na informação. Deve superar sua ideologia na apresentação do noticiário político, não deixando que suas opções ideológicas influam na objetividade do noticiário. Isso não quer dizer que um jornal deva ser neutro diante dos conflitos políticos e sociais. Imparcial na transmissão das noticiais, sim. Neutro nos conflitos políticos, não", defendia.

Sobre a morte, Ruy Mesquita dizia que queria fazer parte da “paisagem humana de muitos amigos”. “Gostaria de ser lembrado exatamente como lembro das pessoas que quis bem e que já desapareceram, principalmente pelo prazer da companhia, pela afinidade. Gostaria de fazer parte da paisagem humana de muitos amigos, mesmo depois da minha morte, como muitos amigos e muitas pessoas queridas fazem parte até hoje da minha paisagem humana depois de terem desaparecido”.

Testemunha da história

Nascido em em 16 de abril de 1925, na cidade de São Paulo, Ruy Mesquita cresceu em uma das mais tradicionais famílias de jornalistas do País. Era filho de Julio de Mesquita Filho e de Marina Vieira de Carvalho Mesquita. Aos sete anos de idade, após a Revolução de 1932, viu seu pai ser preso e exilado para Portugal, onde viveu por um ano junto com seu tio, Francisco, e primos. Neste período, ficou internado por dois meses na Itália, tratando da paralisia infantil que o acometeu quando tinha três anos. Operado, recuperou a capacidade de se movimentar sem aparelhos.

Estudou por dois anos na Faculdade de Direito, do Largo São Francisco, transferindo-se posteriormente para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde se formou em Filosofia. Com 23 anos Iniciou sua carreira em O Estado de S. Paulo, em outubro de 1948, na seção do exterior, atual editoria internacional, sob a direção de Gianino Carta, o qual Ruy considerava o seu mestre. No ano seguinte, em 17 de dezembro de 1949, casa-se com Laura Maria Sampaio Lara Mesquita. Com um intervalo de cinco anos na década de 1950 nascem os quatro filhos do casal: Ruy Mesquita Filho (1950), Fernão Lara Mesquita (1952), Rodrigo Lara Mesquita (1954) e João Lara Mesquita (1955).

Na carreira, tinha preferência pelas reportagens internacionais. Considerava sua maior experiência como repórter a cobertura feita sobre o grande comício de Fidel Castro para 700 mil pessoas em Havana em 1959, quando o líder revolucionário anunciou que permaneceria na chefia do governo de Cuba. Foi um dos dois jornalistas brasileiros convidados pelo governo cubano para o evento.

Em 1964, em meio à crise política do governo João Goulart, foi procurado por jovens oficiais das Forças Armadas para participar de um movimento pela destituição do presidente. Aderiu na expectativa de barrar o golpe que o vice-presidente empossado depois da renúncia de Jânio estava preparando para impor uma Republica Sindicalista ao Brasil. No ano seguinte, com a promulgação do Ato Institucional número 2, e a constatação de que o movimento militar não realizaria as prometidas eleições para a escolha do novo presidente, Ruy Mesquita, assim como o jornal, se distanciam do movimento.

Neste mesmo ano, é indicado por seu pai, Julio, e seu tio, Francisco, que dirigiam O Estado, a planejar e organizar um novo jornal vespertino. Inaugurou, então, em 4 de janeiro de 1966 o Jornal da Tarde, considerado uma grande inovação na linguagem jornalística da época, mas que fechou no início de 2012. Com o endurecimento do regime militar e a imposição de censura prévia aos veículos de comunicação, idealizou, num misto de protesto e alerta aos leitores, a publicação de receitas culinárias no lugar das matérias vetadas pelos censores, ideia que foi acompanhada pelo Estado com a publicação de versos dos Lusíadas no espaço das matérias censuradas. Dirigiu o Jornal da Tarde até 1996, quando assumiu a direção de O Estado de S. Paulo, onde estava até ser internado.

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