Veja o que São Paulo tem a aprender com cidades como Londres, Seul e Barcelona

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo |

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Especialistas apontam as transformações que mudaram o visual de grandes cidades do mundo e que podem inspirar a capital paulista, que revê seu Plano Diretor em 2013

Arquivo/AE
São Paulo tenta encontrar as suas soluções. Exemplos pelo mundo não faltam

Uma das maiores metrópoles do mundo – com mais de 11 milhões de habitantes –, a cidade de São Paulo revê em 2013 seu Plano Diretor Estratégico (PDE), cujo objetivo é reorganizar o crescimento da capital, considerada uma das mais caóticas do mundo. Depois de publicar uma série de reportagens sobre o tema, o iG entrevistou especialistas que chamaram a atenção para as transformações urbanísticas que mudaram para melhor a cara de algumas cidades do mundo.

“As metrópoles adoecem como o ser humano, mas elas também podem se reinventar. Os casos estão aí pelo mundo todo. A única regra é que exista planejamento de curto, médio e longo prazo”, defende o urbanista Carlos Leite, autor do livro Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes.

Despoluição de Rios - Londres e Seul

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Assim como o Tâmisa, em Londres, o Cheonggyecheon, em Seul, foi despoluído

Londres e a cidade sul-coreana de Seul deram uma lição a São Paulo ao despoluírem seus rios, que assim como o Tietê e Pinheiros, cortam parte de seus municípios. “O rio Tâmisa, na capital britânica, era um verdadeiro esgoto, como o Pinheiros. O poder público investiu no tratamento de áreas industriais para controlar a poluição. A consequência foi a criação de bairros novos ao longo dele”, lembra a urbanista Lucila Lacreta.

“Em Seul, o rio Cheonggyecheo foi totalmente limpo em 12 anos e agora ele é navegável”, afirma Carlos Leite. “Por cima dele passava uma via expressa, que foi demolida. Os carros deram lugar ao sistema de Veículo Leve Sobre Trilhos, que acompanham um parque linear.”

Revitalização do Centro – Barcelona, Toronto e Bogotá

Os urbanistas citam a revitalização dos centros históricos de Barcelona, Toronto e Bogotá como exemplo. Primeiro, a cidade espanhola revitalizou o centro para as Olimpíadas de 1992. Na época, os apartamentos da Vila Olímpica foram vendidos para a população, motivada pela inversão da cidade, que até então ficava de costas para o mar. “A prefeitura concedeu isenção fiscal aos moradores que restaurassem suas fachadas”, lembra o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU), Afonso Bueno Monteiro.

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Bogotá é um exemplos de revitalização de uma metrópole de um país em desenvolvimento

Na década seguinte, a cidade transformou antigos bairros industriais ao mudar seu zoneamento para uso misto, atraindo moradores, empregos e serviços, como pretende fazer o Arco do Futuro, promessa de campanha do prefeito Fernando Haddad (PT). “O que se fez lá e que deveria ser copiado aqui é a criação de uma agência reguladora que garanta a execução das obras, independentemente de quem estiver no poder”, diz Carlos Leite.

Em Toronto, no Canadá, a opção para revitalizar o centro foi arborizar o teto dos grandes edifícios. “O empreendedor ou dono do condomínio tem redução no imposto predial se colocar a cobertura verde, que reduz a ilha de calor dos centros e permite a capitação da água de chuva para sua reutilização”, explica o urbanista.

Lucila diz que Bogotá é outro exemplo para São Paulo. “Fiquei agradavelmente surpresa quando visitei. As vias são bastante largas, existe área verde e os prédios são relativamente baixos, 25 metros de altura. Lá, as construções não ficam em um lote, elas são divididas por quadras, o que é mais harmonioso do que um amontoado de prédios, como aqui. A Europa inteira é assim."

Transporte Público – Guangzho, Londres e Bogotá

Terceira maior cidade chinesa, Guangzhou é outro exemplo. Com quase a mesma população que São Paulo, ela construiu uma malha metroviária quatro vezes maior que a paulistana, diz Monteiro. “E olha que ela começou 20 anos depois. Lá, todas as linhas têm vagões sem condutor, como a nossa Linha Amarela.”

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Guangzhou, na China, tem uma malha metroviária quatro vezes maior que a paulistana

Em Londres, a medida para acabar com o trânsito no centro foi radical: implantou-se o pedágio urbano, que capta a infração por radar e debita no cartão de crédito. “A decisão foi tomada no meio do século passado, quando o carro começou a importunar. A diferença é que o metrô de Londres é um dos maiores do mundo. Não se anda dois quarteirões sem um túnel para pegar o trem”, diz o presidente do CAU. “Lá, um prédio de 75 andares tem 70 vagas na garagem. Aqui, uma edificação parecida tem a obrigação de construir quatro pavimentos para cerca de duas mil vagas.”

“Bogotá, na Colômbia, é um case”, diz Leite. “Em uma única gestão, a cidade implantou 300 quilômetros de ciclovias, não é ciclofaixa. A administração tirou uma faixa do carro e entregou aos ciclistas. É uma escolha: diminuir a prioridade do transporte individual. Em três anos, os usuários de bicicleta subiram de 5% para 35%.”

Violência e Crack – Nova York

Uma das políticas de segurança pública mais conhecidas e polêmicas do mundo foi implantada pelo então prefeito de Nova York na década de 1990, Rudolph Giuliani. A Tolerância Zero era caracterizada pelo rigor da ação policial na punição de toda espécie de delito, a começar pelos pequenos, como furtos e prostituição. Embora defendido em São Paulo por políticos, o programa recebe muitas críticas de defensores dos direitos humanos.

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Nova York teve sucesso em seu programa de combate ao crack

Mas Nova York também deu exemplo ao acabar com a epidemia de crack na década de 1980 – um problema que aflige a capital paulista atualmente. Na época, o programa incluía até a infiltração de policiais entre os dependentes. No final, a ação debelou a epidemia e reduziu com ela 80% dos pequenos crimes. “Fazia parte do programa levar o usuário de crack para tratamento, enquanto os traficantes eram caçados e presos”, lembra Bueno Monteiro. “A ação pública não foi repressiva, ou paliativa, como aqui, onde se empurrou os dependentes para os bairros. Em São Paulo fala-se em reduzir a idade penal, o que é mais fácil do que desenvolver uma política eficaz de tratamento.”

O iG publica neste domingo (19) a última reportagem da série "Plano Diretor de São Paulo" – sobre o uso de espaços públicos na cidade.

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